Sunday, July 9, 2023

ACTUAL

 


"A existência actual está contaminada até às raízes. O homem usurpou o lugar das árvores e dos bichos. Viciou a atmosfera, limitou o espaço livre. E amanhã, que será? Este animal activo e triste pode ainda descobrir e dominar outras forças. Paira no ar uma ameaça deste género. Daí resultará grande riqueza... de homens. Cada metro quadrado será ocupado por um homem. Mas quem nos curará dessa promiscuidade asfixiante? Quem nos dará o espaço?"


Italo Svevo, A Consciência de Zeno, trad. Maria Franco e Cabral do Nascimento, Lisboa: Editorial Minerva, s.d., p. 355. 

Saturday, July 8, 2023

A ORDEM ANGÉLICA (para a memória de José Mattoso)

 



"O lugar obscuro e sombrio dos mortos que não podiam ver o rosto resplandecente de Deus desapareceu, para de transformar num tempo de passagem; permaneceram apenas as dúvidas sobre o limbo onde se pensava que teriam de permanecer as crianças inocentes e talvez os justos não batizados. A todos os povoadores do mundo invisível se atribuíram funções, caracteres específicos, modos de comportamento. A ordem que nele reinava, e que incluía uma circunscrição do mal, da sua atuação e do seu castigo, devia transmitir-se também ao mundo visível. A História dos Homens era, no fundo, a história da luta pelo estabelecimento da ordem angélica na Terra, quando o bem e o mal se revelassem em toda a sua plenitude pela separação definitiva um do outro."


José Mattoso, Poderes Invisíveis - O Imaginário Medieval, Lisboa: Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2013, pp. 14-15. 

Friday, July 7, 2023

RELÍQUIAS

 


"A esta colecção, Miss Amelia juntara mais duas peças: uma bolota descomunal de certa espécie de carvalho e uma caixinha de veludo com duas pedritas acinzentadas. Às vezes, quando não tinha nada que fazer, ela tirava esta caixa de veludo e ficava perto da janela, com as pedras na mão, contemplando-as num misto de fascinação, respeito e medo. Eram as pedras extraídas do fígado da própria Miss Amelia, alguns anos antes, por um cirurgião de Cheehaw; fora uma provação terrível, do princípio ao fim, e por isso as conservava como relíquias."


Carson McCullers, A Balada do Café Triste, trad. Cabral do Nascimento, Lisboa: Círculo de Leitores, 1989, p. 57. 

Thursday, July 6, 2023

CAPRICHO

 



"O avô despencou do alto da escada aos
trambolhos.
Como um armário. 
O armário quebrou três pernas.
O avô não teve nada. 
Ué! armário não é só termo de comparação?
Aqui em casa comparação também quebra perna.
O avô dementava as palavras."


Manoel de Barros, Poesia Completa, Lisboa: Relógio D'Água, 2016, p. 424. 

Wednesday, July 5, 2023

PRÉ-COISAS

 



"Hoje eu atingi o reino das imagens, o reino da
despalavra.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades
humanas.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades
de pássaros.
Daqui vem que todas as pedras podem ter qualidades
de sapo.
Daqui vem que todos os poetas podem ter qualidades
de árvore.
Daqui vem que os poetas podem arborizar os pássaros.
Daqui vem que todos os poetas podem humanizar
as águas.
Daqui vem que os poetas devem aumentar o mundo
com as suas metáforas.
Que os poetas podem ser pré-coisas, pré-vermes,
podem ser pré-musgos.
Daqui vem que os poetas podem compreender
o mundo sem conceitos.
Que os poetas podem refazer o mundo por imagens,
por eflúvios, por afeto."


Manoel de Barros, Poesia Completa, Lisboa: Relógio D'Água, 2016, pp. 364-365.

Monday, July 3, 2023

DA VIDA DE UM SANTO

 



"Ele conhecida medos, cuja entrada 
como a morte já era e insuperável. 
Seu coração foi aprendendo a atravessar devagar, sem mais bada;
criou-o como um filho moldável. 

E conheceu inúmeras privações, 
escuro e sem manhã como tapumes;
e dócil foi entregando sua alma, 
enquanto cresceu para que com seus lumes

ficasse junto a seu Noivo e Senhor; e acabou por ficar
só para trás num tal lugar, 
em que o estar só tudo exagerava, 
e morava longe e nunca palavras desejava.

Mas em troca, de tempos a tempos ficava a saber, mesmo sem irmãos, 
também que a felicidade era nas próprias mãos
se colocar como a inteira criatura, 
para que pudesse sentir uma ternura."


Rainer Maria Rilke, Novos Poemas, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Assírio & Alvim, 2023, p. 177. 

Sunday, July 2, 2023

A TORRE

 


" - Aquela torre foi dos Bracciaforte - contava o senhor Capovilla, apontando a Fanto uma que num embarcadouro à beira do rio se erguia octogonal, rodeada por uma dúzia de casebres cujos telhados vermelhos assomavam por entre as copas dos ciprestes, - que eram os mais avaros dos toscanos, procurando sempre pôr o ouro que entesouravam, que não o viram nem o Sol nem a Lua, e um deles, chamado Latino Bracciaforte dal Piccino, para que não o herdasse um primo que tinha, que era o seu único parente, aconselhou-se com um médico judeu que purgava em Siena em quarto minguante contra a doutrina de Pádua, e por receita deste fez em pó todo o ouro da família, e quatro vezes ao dia bebia uma ração dele com leite de cabra, e messer Isaac de Siena fabricou-lhe um subtil composto que não deixava sair o ouro do corpo, nem pela urina nem por maiores, e que ficava a chapear-lhe as interioridades. No dia em que tomou a derradeira onça áurea, morreu Ser Latino de repente, e o primo, que era Motefosco de Malapreda, que são todos vesgos do direito e canhotos, desde uma avó galicosa que tiveram, teve a notícia da morte (há quem diga que por um corvo que amestrava como correio), e apresentou-se na torre com um tosquiador que tinha um jogo de raspadores catalães marcados na feira de Tortosa, e ambos se encerraram com o cadáver numa sala, e daí a dois dias deram por terminada a raspadura do estômago e da tripalhada, limpando-a do ouro ali amontoado, que estava disposto como escamas de peixe, e fundido deu sete libras genovesas. Luziam os lingotes, mas fediam como se fora excremento humano e teve de fundi-los várias vezes, e o Montefosco passava as manhã a lavá-lo com lírio de Pisa e águas de anis, para os baqueiros florentinos não descobrirem que aquele era o ouro do último Bracciaforte."

Alvaro Cunqueiro, Vida e Fugas de Fanto Fantini, trad. José Colaço Barreiros, Porto: Felício & Cabral Publicações, 1995, pp. 28-29. 

Saturday, July 1, 2023

AFORISMO

 



"Recordo-me também doutro aforismo de Malfenti, que me dava esperança e que foi a minha ideia fixa durante esses cinco dias em que a minha paixão se transformou numa doença. Malfenti costumava dizer que não convém apressar-se na liquidação dum negócio quando, dessa liquidação, se não pode tirar nenhuma vantagem. Todos os negócios, tarde ou cedo, chegam por si mesmos à sua liquidação: a prova está na história do Mundo, que é tão longa, e no pequeno número de negócios que ficaram em suspenso. E, sempre que há um por liquidar, existe a possibilidade de ele evoluir em sentido favorável."


Italo Svevo, A Consciência de Zeno, trad. Maria Franco e Cabral do Nascimento, Lisboa: Editorial Minerva, s.d., p. 85. 

Friday, June 30, 2023

VERDADEIRA

 



"Permaneci muito tempo fiel à religião da minha infância. Imaginava que o pai me podia ouvir e eu dizia-lhe que a culpa não fora minha mas do doutor. A mentira já não tinha importância, pois ele compreendia tudo e eu também. Estes colóquios com meu pai prosseguiram por muito tempo, suaves e secretos como os dum amor lícito. Em público, eu continuava a troçar de todas as práticas religiosas, ao passo que, diariamente, com fervor, dirigia ao Céu orações por alma do defunto. A verdadeira religião é propriamente aquela que não temos necessidade de professar com evidência para se obter o consolo que às vezes - mas poucas - nos é indispensável."


Italo Svevo, A Consciência de Zeno, trad. Maria Franco e Cabral do Nascimento, Lisboa: Editorial Minerva, s.d., p. 54. 

Thursday, June 29, 2023

VISÃO


 

"Assim, o apóstolo, no seu quarto de Suburra, nome feito de todos os detritos humanos acumulados aos pés de Júpiter Capitolino, anteviu a igreja católica, substituindo-se ao Estado Imperial, e Pedro, no trono de César."


Teixeira de Pascoaes, São Paulo, Lisboa: Assírio & Alvim, 1984, p. 202. 

Wednesday, June 28, 2023

GUARDAR O AMOR




"E, enfim, os indivíduos sensatos estavam de acordo para negar redonda e sinceramente o despautério. De que natureza seria, pois, aquele amor?
Em primeiro lugar, o amor é uma aventura a dois; o facto, porém, de ser isso não implica que seja igual para ambos os componentes. Há o que ama e há o amado. Muitas vezes, este último constitui apenas um estímulo para o amor acumulado que jaz até aí no amante, o qual bem sabe que isso é uma coisa solitária. Depois, vem a conhecer nova e estranha solidão, o que o faz sofrer ainda mais. De modo que só lhe resta um processo: guardar o amor dentro de si tanto quanto puder; criar um mundo interior, intenso e completo. Digamos aqui que este amante de quem falamos não precisa necessariamente de ser jovem nem destinado ao casamento: pode ser homem, mulher, criança - enfim, qualquer entidade terrena."


Carson McCullers, A Balada do Café Triste, trad. Cabral do Nascimento, Lisboa: Círculo de Leitores, 1989, pp. 42-43. 

Monday, June 26, 2023

PLANO DE IMAGEM

 


"O plano de imagem é portanto essa espécie de lugar neutro (na medida em que não é afectado pela vontade) onde a imagem emerge como um devir, constituindo-se como lugar de manifestação de uma espécie de inconsciente da imagem na acepção em que a psicanálise admite que o inconsciente se organiza como uma linguagem."


Bernardo Pinto de Almeida, O Plano de Imagem, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996, p. 42. 

Sunday, June 25, 2023

TEMPO QUENTE

 



"Cum rézão ou sem rézão, 
João Capixaba, um caúchêro,
das bandas de Sairé,
me contou que a cabôquinha,
numa festa, im Caeté,
no dia de S. João,
só cum vaquêro dansou, 
e prú via disso a festa
im tempo quente acabou!!!"


Catullo da Paixão Cearense, Luar do Sertão e outros Poemas Escolhidos, selec. Guimarães Martins, 3.ª ed. , Rio de Janeiro: Ediouro, 1998, p. 95.

Saturday, June 24, 2023

JOANINO

 



"Quem é este mancebo, envolto em peles, 
Errante nas agruras do deserto, 
Não tendo a quem pedir sustento incerto
Para a fome matar?

Quem é esse infeliz, que pede às fragas
Um leito onde repouse os membros lassos, 
Nos instantes que dá ao sono, escassos, 
Em que deixa d' orar?"


Camilo Castelo Branco, Duas épocas da vida, 3.ª ed., Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1906, pp. 232-233. 

Friday, June 23, 2023

PERENEMENTE

 


"Só no amor, na renúncia e na dedicação residia a felicidade humana. O corpo precisa apenas de um bocado de pão. A alma, essa, necessita de mais abundante alimento, porque a sua fome de ideal arde perenemente, eternamente insatisfeita. Se o mundo era mau, e o homem se revelava, como há cem mil anos, o lobo do homem, era porque, dezanove séculos depois do Calvário, ainda a doutrina de Cristo se não gravara nos corações. E parecia-lhe tão simples a solução do problema! Toda ela se encontrava em duas linhas do Sermão da Montanha: «pão para todas as bocas, perdão para todas as dívidas». No dia em que os fartos repartissem com os esfomeados, e se apagasse nas almas o ressentimento de todos os agravos, a humanidade seria feliz, - e sobre a terra, até então empapada de lágrimas e sangue, desceria, num deslumbramento, o reino de Deus..."

 

Campos Monteiro, Camilo Alcoforado, 7.ª ed., Porto: Livraria Figueirinhas, s.d., pp. 106-107. 

PROPRIEDADE

 



"Jean-Jacques Antier - Para compreender os fenómenos psíquicos, tentemos ficar solidamente agarrados a uma realidade bem material, que é a vida. Os místicos possuem um corpo de carne e de sangue, o mesmo que todos os homens. Mas, primeiro, o que é a vida?
Jean Guitton - É uma propriedade emergente da matéria, um fenómeno que obedece a uma espécie de necessidade inscrita no coração do inanimado."


Jean Guitton, Os Misteriosos Poderes da Fé - Diálogo com Jean-Jacques Antier, Lisboa: Âncora Editora, 2000, pp. 58-59.

Wednesday, June 21, 2023

HORA DE VERÃO

 



"Mais do que devo, gosto
de andar na praia, 
de a visitar em dias, 
e saber sempre
que não fomos à praia, 
nem um, nem dois.
O teu corpo na areia
fulva, tão fina, 
onde ele nunca deitou.
Nem eu, tampouco, 
me estendo nessa toalha.
Mas não será
por isso que vou hoje
deixar de ver
a largura tostada
dos nossos dorsos, 
o vermelhão da luz
sobre a tua pele, 
o protector solar
no teu nariz, 
mancha sexy, molhada, 
quando sorris, 
as costas encostadas, 
espraiadas praias. 
Será melhor usar
o protector
também, se fores tu
a colocar-mo.
Aqui, no guarda-sol, 
ninguém nos vê.
Ninguém nos viu na praia, 
só eu vi todos
os que por lá passavam, 
um pouco como
tu, a fazer passeios
à beira-mar, 
a fumar no calor, 
nós os dois, juntos, 
crendo inventar um novo
lugar comum."


Amândio Reis, Antilha, Lisboa: Língua Morta, 2022, pp. 54-55. 

Tuesday, June 20, 2023

PATOLOGIA

 



"J.-J.-A. - O místico é um ser faminto de Deus!
J. G. - A folha deve ser decomposta, e como que comprimida em botão para se tornar flor; e esta poderia ser entendida como uma doença da planta. Esta patologia faria com que a natureza vegetal tivesse acesso à improbabilidade de uma promoção furtiva, instável, maravilhosa, estranha, à cor e ao perfume. A vida mística é uma mutação. Os místicos são mutantes, isto é, tipos de humanidade adiantados sobre os outros. Eles prefiguram a humanidade do futuro temporal-eterno. Pré-adaptados ao futuro, representam, a título de amostragens excepcionais, a humanidade futura, se esta quiser ter acesso à sua experiência e participar nela de algum modo."


Jean Guitton, Os Misteriosos Poderes da Fé - Diálogo com Jean-Jacques Antier, Lisboa: Âncora Editora, 2000, p. 49. 

Monday, June 19, 2023

QUARTO ABANDONADO

 



"Janelas, canteiros de flores coloridas, 
Toca de lá um órgão cá para dentro.
Sombras dançam sobre papéis de parede, 
Maravilhosa e louca a sucessão.

Os arbustos sopram um buraco de luz, 
Agita-se um enxame de mosquitos.
Longe, ceifam no campo as foices
E uma água antiga canta. 

De quem é a respiração que me acaricia?
Andorinhas desenham sinais loucos.
Suave, desliza para aí
O bosque dourado, rumo ao sem fim. 

Cintilam chamas nos canteiros. 
Louca sucessão confusa, em êxtase,
Ao longo do papel de parede amarelecido.
Alguém espreita pela porta adentro.

Cheiro doce a incenso e pêra
E o crepúsculo desce sobre vidros e arcas.
Lentamente dobra-se a fronte quente
Em direcção às estrelas alvas."


Georg Trakl, Poemas, trad. e pref. António de Castro Caeiro, Lisboa: Abysmo, 2019, p. 33. 

Sunday, June 18, 2023

PROFETAS

 



"se te invoco Deus
é para saber porque não se escrevem
poemas felizes.

respondendo
volta ao teu silêncio.

aliás quantos profetas te perguntaram
se eras feliz?

talvez nas suas grutas fosse impossível
alguém ser maior que tu.

portanto sendo mortal
é justo que te pergunte:
porque não há poemas felizes?

(bons poemas pelo menos)

nunca ninguém me disse:
recita.

fiquei sempre aqui assombrado
à espera de uma bênção.

e todas as rosas continuaram
a pronunciar o mesmo cheiro
mesmo quando cheirava a rosas."



Pedro Braga Falcão, os deuses da resina [em três livros], Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2022, p. 67.