Sunday, December 31, 2023

FINDA

 



"Como feiticeiros, prevemos o movimento da maré e da nuvem, e também a fome e o fim.

Meu amigo, descreve-me as velas brancas trémulas de vento. O cristal em teus lábios não se quebrará, os gestos não se fatigam nem se ausentam.



Em errância e deslumbramento perguntarei e responderás."



Filomena Cabral, Amatus, Porto: Edições Afrontamento, 1990, pp. 28-29.

PARA ARDER

 



"O mudo amor só queima
o corpo aos pirilampos. Para arder,
irrigo com o mais difícil sangue
palavras que propaguem
o perfume da madeira morta."


Andreia C. Faria, Canina, Lisboa: Tinta-da-China, 2022, p. 62.

DESCE AGORA A NUVEM QUE COBRE O HORIZONTE

 



"Desce agora a nuvem que cobre o horizonte.
Abolido o exterior tudo vive desse desequilíbrio.
A própria paisagem deixa de coincidir com o seu exterior
e o sentimento com o interior ( íntimo, o que sinto).
Pouco a pouco, contudo, a forma invade-a (a cor):
ela é esse exterior
em que o conforto (o interior) se simplifique,
precise (limpo). Se o desenhamos
esfuma-se, abole-se logo o contorno
e em vez dele fica a luz
que íntima flutua."


Fernando Guerreiro, Metal de Fusão, Lisboa: Black Sun Editores/100 cabeças, 2023.

PASSAGEM DE ANO

 




"duas horas à frente
uma hora atrás
um pé no escuro

que pena não saber polaco
ou russo
ou português camoniano
para ler nas línguas originais
como uma pedante da tradução
a todo o vapor de
água faz favor"


Rosa Oliveira, Tardio, Lisboa: Tinta-da-China, 2017, p. 77.

ESTACIONAR

 


"Num certo oásis estacionámos, a recompor-nos da extrema fadiga. E, enquanto ia eu retouçando a erva, muito verde, que por ali medrava, cortava a Virgem algumas folhas de hera, que entretecia, até as conformar num diadema lindíssimo. Com ele, cingiu a fronte de seu Filho, que em Si parecia não caber, de terno contentamento."


Mário Cláudio, A Fuga para o Egipto, Lisboa: Quetzal, 1987, p. 32. 

Saturday, December 30, 2023

VIVER


 

"Viver com os deuses. Fazê-lo é mostrar-lhes que a tua alma aceita o que lhe é dado e age como o espírito pede - o espírito que nos foi dado para nos encaminhar e orientar, um fragmento do Todo. A nossa mente, a nossa razão."


Marco Aurélio, Meditações, Livro V, 27, trad. Liliana Sousa, Cultura Editora, 2017, p. 63.

DELIBERADO

 


"No séc. XIII, o Castelo parece ter sofrido um deliberado incêndio destruidor, ateado pelo próprio alcaide, D. rodrigo Gonçalves Pereira, ultrajado na sua honra por um frade de Bouro que ele teria surpreendido em flagrante delito com sua mulher, D. Inês Sanchez. O alcaide, sobrevindo, mandou trancar as portas do castelo e ordenou que lhe chegassem o fogo - e, com inflexível crueza, sacrificou e reduziu a torresmos não só o frade e a mulher adúltera, mas todos os homens e mulheres, servos e parentes, novos e velhos, que dentro se encontravam. «Alguns perguntaram-lhe (diz o Conde D. Pedro de Barcelos, que relata o cas) por que razão fizera essa total cremação e o alcaide teria respondido que aquela maldade havia já 17 dias que se cometia e que não podia ser que tanto durasse sem que essas criaturas não entendessem alguma coisa em que pusessem suspeita - a qual suspeita deviam descobrir.» Passado pouco tempo, o alcaide casou com D. Sanchez Henriques Portocarrero. Um dos seus descendentes, por esse casamento, foi D. Gonçalves Pereira, arcebispo de Braga e avô do Condestável D. Nuno."


Sant'Anna Dionísio, Guia de Portugal, 4.º volume, Tomo II, 3.ª ed., Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996, pp. 857-858. 

Friday, December 29, 2023

O MAIS NOBRE RAMO

 


"Lothario. Será pelo menos tão compreensível como a ideia de que ela pode ser atraída das profundezas para a luz pela sagacidade humana e pela arte humana. Seja como for, continua a ser um milagre; digam o que disserem.

Ludoviko. Assim é. Ela é o mais nobre ramo da magia, e o homem isolado não é capaz de se elevar até à magia; mas onde quer que um qualquer instinto humano possa agir em conjunto com o espírito humano, desperta uma força mágica. Contei com esta força; sinto o vento espiritual que sopra no meio dos amigos; não vivo da esperança, mas sim da confiança na nova aurora da nova poesia. O resto está aqui, nestas páginas, se for agora o momento certo para as ler."


Friedrich Schlegel, Conversa sobre a Poesia, trad. Bruno C. Duarte, Lisboa: Imprensa da Universidade de Lisboa, 2021, p. 39. 

Thursday, December 28, 2023

HORIZONTE

 



"O horizonte é assim o que se opõe ao seu exterior:
e o sentimento ao interior (íntimo, o que sinto).
Material lacuna, estupro -
ou o que o Olhar, por fora,
como um círculo, limita..."


Fernando Guerreiro, Metal de Fusão, Lisboa: Black Sun Editores/100 cabeças, 2023.

Wednesday, December 27, 2023

FILHOS DE DEUS

 


"Queridos amigos, agora somos filhos de Deus, mas aquilo que havemos de ser ainda não é totalmente claro. O que sabemos é que, quando Jesus aparecer, havemos de ser iguais a ele, porque havemos de o ver tal como ele é. Todo aquele que tem esta esperança em Cristo purifica-se para ser puro como ele."


1 João 3, 2-3. 

SOCIÁVEL

 


"Ele será capaz de o fazer quando encontrar o centro, ao comunicar com aqueles que também o alcançaram por outra via e de outra maneira. O amor precisa de amor de volta. E, na verdade, mesmo o contacto com aqueles que apenas brincam na superfície colorida pode ser salutar e instrutivo para o verdadeiro poeta. Ele é um ser sociável."


Friedrich Schlegel, Conversa sobre a Poesia, trad. Bruno C. Duarte, Lisboa: Imprensa da Universidade de Lisboa, 2021, p. 13. 

Monday, December 25, 2023

SOBERANO

 



"Febo, sobre ti também o cisne alado claramente canta,
ao erguer-se da margem do redemoinhante rio
Peneu; e sobre ti o cantor, erguendo a lira clara,
com doce voz em primeiro e último lugar sempre cantará.
Por isso saúdo-te, soberano, e tu favorece o meu canto."


Hinos Homéricos, trad. José Pedro Moreira, Lisboa: Imprensa da Universidade de Lisboa, 2018, p. 95.

Sunday, December 24, 2023

MENINO ETERNO

 



"Descia a noite lenta, quando os dois
chegavam ao vetusto povoado;
em vão batem às portas; ao depois
vão pedir aos rebanhos gazalhado.

E alcançavam-no: uma penha escura e fria
prestes se faz um céu de plena luz;
José busca lugar para Maria,
os dois fazem lugar para Jesus.

Na catedral do mundo, àquela hora,
Maria é altar-mor onde se adora
o Eterno, o Imenso, o grande Criador.

Bendito seja tanto amor divino;
bendito seja o Amor feito Menino;
bendita a Mãe que o mostra ao nosso amor."


António Moreno, in António Salvado, Anunciação e Natal na Poesia Portuguesa, Lisboa: Editorial Polis, s.d., p. 165.

SUAVIZA




"A noite de Natal. Em meu país, agora,
o que não vai até romper o dia, a aurora!
As mesas de jantar na cidade e na aldeia
à luz das velas, ou à luz duma candeia,
entre risadas de crianças e cristais
(de que me chegam até mim só ais, só ais!).
Dois milhões de almas e outros tantos corações,
pondo de parte ódios, torturas, aflições,
que o mel suaviza e faz adormecer o vinho:
são todas em redor de uma toalha de linho!"


António Nobre, publ. A Águia, julho de 1911, in António Salvado, Anunciação e Natal na Poesia Portuguesa, Lisboa: Editorial Polis, s.d., p. 155.

Saturday, December 23, 2023

DELECTATIO

 


"Passemos às definições das várias espécies de prazer:
'Malevolência' é o prazer no mal dos outros, mesmo que não nos traga qualquer proveito.
'Deleite' é o prazer que nos encanta o espírito pela suavidade das sensações auditivas; e tal como há um prazer proveniente da audição, outros há que deleitam a vista, o tacto, o olfacto e o gosto; todas estas sensações são do mesmo género e impregnam a alma que se fossem prazeres no estado líquido.
'Jactância' é um prazer delirante, que se manifesta de forma insolente."


Marco Túlio Cícero, Textos Filosóficos II - Diálogos em Túsculo, trad. J. A. Segurado e Campos, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2014, IV, IX20, p. 228. 

Friday, December 22, 2023

MEDITAÇÃO

 


"Por isso aprovo a postura dos Cirenaicos, que utilizam como arma contra todos os eventuais golpes do acaso uma contínua meditação prévia sobre a possibilidade da sua ocorrência, o que diminui o impacto no momento em que ocorrem. Concordo com eles também quando dizem que o mal deriva da opinião, e não da natureza, pois se ele estivesse na natureza das coisas, como é que a meditação prévia o tornaria mais suportável?"


Marco Túlio Cícero, Textos Filosóficos II - Diálogos em Túsculo, trad. J. A. Segurado e Campos, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2014, XV31, p. 174. 

Thursday, December 21, 2023

ANIVERSÁRIO



"os felizes dissociam-se de ausências ritmadas, rupturas, e afirmam que a descrença veicula o frio vindo das profundezas desconhecidas; contudo, o esquecimento significa perda, a tangibilidade de sistemas apaziguadores arquivados e longínquos; a doçura, em seu toque lânguido, recorda a mentira, na carência.
Barcos ébrios navegam no silêncio, cortando lagos imóveis, em migração serena: os salgueiros escondem vozes. Assim se imagina a paragem do tempo, a angústia da cegueira, a crónica de um amor sem data escondido nas pregas do esquecimento que a si mesmo se apaga."


William Beckford, História do Califa Vathek, trad. Mário Cláudio, Porto: Afrontamento, 1982, p. 21.

Wednesday, December 20, 2023

AS DÁDIVAS

 



"Na manhã seguinte, o Califa mandou-o chamar, e disse-lhe: «Volta a ler o que já me leste; não me canso de ouvir a promessa que me é feita, e cuja concretização anseio por alcançar».
Imediatamente, o velho assestou as suas lunetas verdes, mas estas logo lhe deslizaram do nariz, ao verificar que os caracteres que lera na véspera haviam sido substituídos por outros de diferente sentido.
«Que se passa?», perguntou o Califa, «porque estás tu tão espantado?»
«Soberano do mundo», redarguiu o velho, «estes sabres contêm hoje uma língua diversa da de ontem».
«Que dizes?», exclamou Vathek; «Mas não importa. Explica-me, se podes, o que se contém nos sabres».
«E maldito sejas tu!, gritou o Califa, num acesso de indignação; «hoje estás privado de entendimento; sai da minha vista; só te será queimada metade da barba, porque ontem tiveste a sorte de adivinhar; quanto aos presentes, eu nunca retiro as minhas dádivas»."




William Beckford, História do Califa Vathek, trad. Mário Cláudio, Porto: Afrontamento, 1982, p. 27.

SUPRACELESTE

 


"Assim, num dos seus significados, 'Ilimitado' é o equivalente abstacto de 'imortal e imperecível' ou 'divino'. E esta isenção do ciclo do tempo, com os seus limites e as suas distinções entre nascer, existir e perecer, está associada à imagem espacial de uma região supraceleste, para lá do universo em transformação. A imaginação popular confunde ainda a ideia de um céu imutável no espaço distante com a noção de uma eternidade para além do alcance do tempo."

 

F. M. Cornford, Principium Sapientiae - as origens do pensamento grego, 2.ª ed., Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1981, p. 283. 

Monday, December 18, 2023

A IMAGEM

 


"A imagem, que tais alturas lhe deram de sua própria grandeza, transtornou-o por completo; estava prestes a cair em adoração a si mesmo  quando, erguendo os olhos aos céus, viu as estrelas tão altas sobre a sua cabeça  como altas pareciam quando vistas da superfície da terra. Mas a si próprio se consolava desta transitória percepção de sua pequenez, com a convicção de parecer grande aos olhos de todos; desvanescia-se na ideia de que a luz de seu espirito iria além do que os olhos podem alcançar, ditando às estrelas as leis de seu destino."


William Beckford, História do Califa Vathek, trad. Mário Cláudio, Porto: Afrontamento, 1982, p. 17.