Thursday, July 16, 2026

SOL MADURO

 



"Deixem-se de conversas:
para mim são favas contadas.
Hei-de ser capaz de vos explicar que só muito a custo
num corpo alagado de sol maduro, um corpo de laranjeira atulhada
de frutos,
resiste sem mácula ao desfazer repentino do verão
(esse baldio agachado de pressentimentos).
E um corpo neste estado, vulnerável,
a tresandar a raves,
põe-se a contar pelos dedos os brincos desirmanados,
os sapatos cambados, as portas sem batente,
a observar filamentos de lâmpadas incapazes
de entrar em falência.
Deixem-se de conversas:
para mim são favas contadas.
Hei-de ser capaz de vos explicar que no desfazer repentino
do verão
(esse espartilho quase vitoriano),
um corpo alagado de sol maduro, domador de labirintos
está ali sentado como quem não quer na esplanada do café,
bate fortemente com os punhos no horizonte
que não é nem deixa de ser assim tão longe,
e a única coisa que sente é que continua espantosamente
vivo. Pleno de eternidade."


Josefa de Maltezinho, Fracturas Expostas, Vila Nova de Famalicão: Húmus, 2022, p. 100.

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