"Tornara-se intocável e Harriet, com o seu hábito antigo de tocar, encontrava-se de súbito num dilema, numa angústia. Assaltavam-na anseios fantasmagóricos de uma precisão alarmante. Sentimentos muito idênticos ao suplício de um amor não correspondido faziam-na corar e tremer. Com efeito, assemelhava-se de forma terrível a um estado de paixão. Queria abraçá-lo de novo, cobri-lo de beijos, desenlear com dedos acariciadores aquele cabelo loiro e sujo e agora de um comprimento absurdo. Mas nada era mais impossível. No último ano, como se fosse para a confundir mais, adquirira uma beleza espantosa. Aquilo a que Blaise chamava o «sorriso arcaico» de David obcecava-a como um enigma erótico."
Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 20.
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