Wednesday, July 8, 2026

PROFANO

 


"Ele apercebeu-se da resistência por mim ainda antes de eu lhe responder o que quer que fosse, como, aliás, sucedia sempre.
- Já sei - exclamou resignado: - é a velha história. Não leves a coisa demasiado a sério! Mas sempre quero dizer-te o seguinte: estamos perante um dos pontos fracos bem evidentes nesta nova religião. Refiro-me ao aspecto de este Deus da Antiga e da Nova Aliança ser uma figura soberba, mas não representar aquilo que, efectivamente, seria necessário. Ele é o bem, o louvável, o amoroso, o belo e também o nobre e o sentimental... muito bem! Porém, o mundo é igualmente constituído pelo resto e tudo isto é muito simplesmente imputado ao Demónio; toda esta parcela do mundo, metade do universo, é soterrada e sepucralmente silenciada. Precisamente do mesmo modo que chamam a Deus «o pai de todos os seres vivos», mas se escusam a tudo quanto diga respeito à sexualidade, da qual toda a vida depende e, se bem calhar, consideram-na coisa do demónio e pecaminosa! Não tenho nada contra o facto de se adorar este Deus Jeová, absolutamente nada; mas acho que deveríamos adorar tudo, considerar tudo sagrado, todo o universo e não somente esta metade isolada e sancionada. Neste caso, teríamos de, a par do ofício divino, celebrar igualmente um ofício satânico. Isso já estaria correcto. Ou, então, deveríamos conceber um Deus que abarcasse também o demónio no seu seio, diante do qual não fosse necessário esconder-se quando sucedem as coisas mais naturais deste mundo."


Hermann Hesse, Demian, trad. Isabel de Almeida e Sousa, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989, p. 59. 

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