"Filhos. Trememos que sejam atropelados na rua, espreitamos ansiados a sua respiração ofegante em suas noites febris e nas crianças um qualquer nada faz subir o termómetro e o pavor na alma dos pais, descobrimos com riso o alvorejar do primeiro dente, as graças dos primeiros sorrisos que já nos entendem conhecem, os bracitos estendidos para nós, os gargarejos que são as suas primeiras falas monólogos incoerentes e logo mais depois o soletrar aldrabado das primeiras palavras, as mais importantes para nós e eles: ma-mã, pa-pá, papa papinha, dá, teté..., as gracinhas amorosamente pacientemente ensinadas por avós tias amas criadas: como vai a tua vidinha? e o puto com a mãozita abanica para dizer assim-assim... Filhos: lemos com assustado alvoroço notícias terríveis macabras nos jornais de crianças raptadas violadas assassinadas e pomos num calafrio o caso em nós neles; olhamos para longe para os anos futuros já rapazes e ficamos dementes de os adivinhar vê-los fardados, mortos ou então heróis assassinados, ou estropiados ou bêbedos ou doidos de crueldades que nem relatam e praticaram, a que assistiram, ou cornudos, que é o costume nas guerras."
Luiz Pacheco, «O caso das criancinhas desaparecidas», in Ser Livre em Português - Antologia, ed. Rui Sousa e Sofia A. Carvalho, Lisboa: Tinta-da-China, 2026, p. 116.

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