Thursday, April 9, 2009
QUINTA-FEIRA SANTA
"Hubo luz que trajo
por hueso una almendra amarga.
Voz que por sonido,
el fleco de la lluvia
cortado por un hacha.
Alma que por cuerpo,
la funda de aire
de una doble espada.
Venas que por sangre
yel de mirra y de retama.
Cuerpo que por alma,
el vacío, nada."
Rafael Alberti, Sobre los Ángeles, Madrid: Cátedra, 2006, p.88.
Monday, April 6, 2009
BEATITUDE
"Envolvendo-me na divindade
Acendida. Atormentando-me. Beatitude
(De que me separo)
Ressurge incandescente e falante
Até que me redima na prece
Escreve Deus neste aparo
O grito inquieto fatigante.
(Ó Virgem e madre benigna formosíssima!)"
José Emílio-Nelson, "Absorção da Luz", in A Alegria do Mal, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2004, p. 76.
Friday, April 3, 2009
SAUDAÇÃO PARA AQUELES QUE SE OCULTAM
"Aqueles que se ocultam são promíscuos
alteram o perfil da contingência
e neles a ignorância é um olho
vazado pelo ácido do conhecimento.
Estão à sombra de novelos
que apenas sabem contemplar
pelo receio do desvendamento intolerável
de um fim
já terão consumido os seus brancos
futuros
dos quais hão-de extrair ensinamentos
preciosos. Mas a memória é um náufrago
absurdo agarrado
a pavorosos e absurdos pedaços
de nada.
Tendo sido impedidos de apreciar
o grito
dizem em voz sonâmbula:
- A palavra é uma categoria
da solidão
na qual o mundo esculpe
ambiciosamente
as suas máscaras."
Laureano Silveira, Os Secretos Felinos, Porto: Limiar, 1991, p. 21.
Wednesday, April 1, 2009
DE MENDACIO, PENSANDO UMA VEZ MAIS EM BERNARDO SOARES
"Porque é que, na maior parte das vezes, os homens na vida quotidiana dizem a verdade? Certamente, não porque um deus os proibiu mentir. Mas sim, em primeiro lugar, porque é mais cómodo, pois a mentira exige invenção, dissimulação e memória. (Por isso Swift diz: «Quem conta uma mentira raramente se apercebe do pesado fardo que toma sobre si; é que, para manter uma mentira, tem de inventar outras vinte.») Em seguida, porque, em circunstâncias simples, é vantajoso dizer directamente: quero isto, fiz aquilo, e outras coisas parecidas; portanto, porque a via da obrigação e da autoridade é mais segura que a do ardil. Se uma criança, porém, tiver sido educada em circunstâncias domésticas complicadas, então maneja a mentira com a mesma naturalidade e diz, involuntariamente, sempre aquilo que corresponde ao seu interesse; um sentido da verdade, uma repugnância ante a mentira em si, são-lhe completamente estranhos e inacessíveis, e, portanto, ela mente com toda a inocência."
Friedrich Nietzsche, Humano, Demasiado Humano, trad. Paulo Osório de Castro, Lisboa: Relógio D'Água, 1997, 54, p. 76.
Tuesday, March 31, 2009
LITANIAS DE QUARESMA
"Eloi Lama Sabactani -
Senhor Senhor por que me abandonaste?
Olho as lamas revoltas e procuro em vão um sinal
Eloi Lama Sabactani
O Grande Lama o lama dos Andes os sapatos sujos de lama
Eloi Lama Sabactani
Senhor Senhor por que me abandonaste?"
Jorge Sousa Braga, "Boca do Inferno" in O Poeta Nu, Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p. 72.
Sunday, March 29, 2009
DE REGRESSO AOS DEUSES
"De novo aos deuses, aos deuses devastadores que se entredevoram como caranguejos num cesto.
É apaixonante constatar que quanto mais antigo é um culto, mais terrível a imagem que faz dos deuses; e que só podemos compreender os deuses pelo seu lado terrível.
É que os deuses só valem pelo Génesis, pela batalha no caos.
Na matéria não há deuses. No equilíbrio não há deuses. Os deuses nascem da separação das forças e morrem da sua reunião.
Quanto mais próximos da criação, mais o seu aspecto é tremendo, mais as suas figuras correspondem às forças que contêm.
Platão fala da natureza dos deuses, identifica-os com os princípios, sem por isso nos deixar ver mais claro esses princípios que são forças e essas forças que são deuses."
Antonin Artaud, Heliogabalo ou o Anarquista Coroado, trad. Mário Cesariny, Lisboa: Assírio & Alvim, 1991, p. 60
Friday, March 27, 2009
ESCREVER COMO QUEM MORRE
"escrevo como choro:
para não morrer.
Algures, no momento mais pobre do dia, escrevo para os deuses obscuros do futuro. Porque abre toda a interrogação para um espaço repleto de certezas? Sou o centro de uma geometria circunstancial. Dobro-me sobre a terra para esquecer. Anjos iguais a todos os anjos repetem-me a resposta que rejeito.
quando os pássaros voam, tempos malignos obscurecem uma flor. Se todas as flores escurecessem?"
Rui Nunes, O Mensageiro Diferido. Lisboa: Relógio D'Água, 2004, p. 94.
Sunday, March 22, 2009
MÊS DE STRINDBERG 4
"Por baixo da sua pele mais ou menos peluda existem dois rostos, pelo menos dois. Uma lenda romana diz-nos que não havia beleza exterior comparável à de Jesus Cristo, mas em momentos de cólera era de uma fealdade repelente e bestial."
August Strindberg, Inferno, trad. Aníbal Fernandes. Lisboa: Assírio & Alvim, 1988, p. 62.
Friday, March 20, 2009
MÊS DE STRINDBERG 3
"De resto, para que servem, nos sepulcros, estas flores? As flores, vivas-mortas que levam uma existência sedentária e não opõem resistência nenhuma a quem as ataca, que preferem sofrer a fazer mal, estimulam os amores carnais, multiplicam-se sem luta e morrem sem queixa. Seres superiores que realizaram o sonho de Buda, pois nada desejam e tudo suportam, absortas em si mesmas, até à pretendida inconsciência.
Será por isto que os sábios indianos imitam a vida passiva da planta, abstendo-se de ter relações com o mundo exterior através de um olhar, um sinal, uma palavra?"
August Strindberg, Inferno, trad. Aníbal Fernandes. Lisboa: Assírio & Alvim, 1988, p. 62.
Sunday, March 15, 2009
MÊS DE STRINDBERG 2
"Não voltei a acreditar que o segredo do Universo estivesse desvendado, e saí - umas vezes só, outras acompanhado - para reflectir na grande desordem que acabei por achar de infinita coerência. (...)
Aqui tendes o meu Universo, como o criei e a mim se revelou.
Se quiseres seguir-me, ó peregrino, ó transeunte, irás respirar mais livremente, pois no meu Universo reina a desordem e aí mesmo é que a liberdade existe."
August Strindberg, Inferno, trad. Aníbal Fernandes. Lisboa: Assírio & Alvim, 1988, p. 47.
Saturday, March 7, 2009
MÊS DE STRINDBERG 1
"Quanto a esta árvore, se lhe comerdes o fruto ficareis conscientes do bem e do mal. Sabereis, então, como a vida é um mal e vós não sois deuses; como o Maligno vos cegou e a vossa existência só serve ao riso dos deuses. Comei e tereis o dom da libertação das dores, a alegria da morte!"
August Strindberg, Inferno, trad. Aníbal Fernandes. Lisboa: Assírio & Alvim, 1988, p. 18.
Friday, March 6, 2009
CINZA FUNÉREA DE POESIA
"Na treva a alma se oculta
enquanto dura a trégua.
Ao longe, na luz, inculta,
a borboleta vem. Cego-a.
Por dentro as sinto,
Alma e borboleta,
o corpo de sangue tinto,
as mãos de tinta preta.
Escondida uma, venérea,
tonta a outra agoniza;
ó vida, cinza funérea
de poesia, de mim campa lisa."
Vasco Graça Moura, "O Voo de Igitur num Copo de Dados", in Obra Poética (1972-1985). Lisboa: Quetzal Editores, 1991, p. 269.
Tuesday, March 3, 2009
DEUSES ANTIGOS 3
"Nesta figura isenta de pecado,
que a obra erecta o significa, isenta
de ocultos mecanismos, tão sem mácula
que alguém se possa aventurar a ver,
um universo vibra de sossego,
imagem cristalina, paraíso
invariável na engrenagem, porque
a construção do método emanou,
sem sobressalto, com rigor imenso
que a inoperância bem ensina, exacta."
Luís Adriano Carlos, Invenção do Problema, 2ª ed. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2006, p. 49.
Saturday, February 28, 2009
A FRESCO
"O homem é feito de um pouco de lama e água. Porque não havia uma mulher de ser feita de orvalho, vapores terrestres e raios de luz, partículas de arco-íris condensadas? Onde o possível? Onde o impossível?..."
Jacques Cazotte, O Diabo Enamorado, trad. Manuel João Gomes. Lisboa: Vega, 1991, p. 78.
Jacques Cazotte, O Diabo Enamorado, trad. Manuel João Gomes. Lisboa: Vega, 1991, p. 78.
Thursday, February 26, 2009
CREPÚSCULO/QUARESMA
"Así vaga sombra de luz y de nieblas,
mística y aérea dudosa visión,
ya brilla, o la esconden las densas tinieblas
cual dulce esperanza, cual vana ilusión."
José de Espronceda, El Estudiante de Salamanca, 23ª ed. Madrid: Cátedra, 2005, p. 61.
Friday, February 20, 2009
DEUSES ANTIGOS 2
"Este túmulo não tem dentro um cadáver.
Este cadáver, aqui fora, não tem túmulo:
é, ao mesmo tempo, o morto e o túmulo."
Anónimo, in do mundo grego outro sol, selecç. e trad. Albano Martins. Porto: Edições Asa, 2001 p. 311.
Saturday, February 14, 2009
DEUSES ANTIGOS 1
"Serons-nous plus tard semblables à ces cratères où les vulcans ne viennent plus et où l'herbe jaunit sur sa tige?"
René Char, Fureur et mystère, Paris: Gallimard, 2006, p. 120.
Monday, February 9, 2009
PARA QUE SERVEM POETAS EM TEMPO DE INDIGÊNCIA?
"Mas nós, amigo, chegamos demasiado tarde. Certo é que os deuses vivem,
Mas acima de nós, lá em cima, noutro mundo.
Aí o seu domínio é infinito e parecem não se importar
Se estamos vivos, tanto nos querem poupar.
Pois nem sempre pode um frágil vaso contê-los,
O homem apenas algum tempo suporta a plenitude divina.
Depois toda a nossa vida é sonhar com eles. Mas os erros,
Tal como o sono, ajudam, e a necessidade e a noite fortalecem,
Até que haja suficientes heróis, criados em berço de bronze,
De coração corajoso, como dantes, semelhantes aos Celestiais.
Depois eles chegam, trovejantes. Entretanto penso por vezes
Que é melhor dormir do que estar assim sem companheiros,
Nem sei perseverar assim, nem que fazer entretanto,
Nem que dizer, pois para que servem poetas em tempo de indigência?
Mas eles são, dizes, como sacerdotes santos do deus do vinho,
Que em noite santa vagueavam de terra em terra."
Friedrich Hölderlin, "O Pão e o Vinho", in Elegias, trad. Maria Teresa Dias Furtado. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000, 7: p. 75.
Sunday, February 8, 2009
ARGUMENTO ORNITOLÓGICO
"Fecho os olhos e vejo um bando de pássaros. A visão dura um segundo ou talvez menos; não sei quantos pássaros vi. Era definido ou indefinido o seu número? O problema envolve a existência de Deus. Se Deus existe, o número é definido, porque Deus sabe quantos pássaros eu vi. Se Deus não existe, o número é indefinido, porque ninguém pode fazer a conta. Nesse caso, vi menos de dez pássaros (digamos) e mais de um, mas não vi nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três ou dois pássaros. Vi um número entre dez e um, que não é nove, oito, sete, seis, cinco, etc. Esse número inteiro é inconcebível; ergo, Deus existe.
Jorge Luis Borges, "O Fazedor", in Obras Completas, vol. II, Lisboa: Teorema, 1998, p. 161.
Jorge Luis Borges, "O Fazedor", in Obras Completas, vol. II, Lisboa: Teorema, 1998, p. 161.
Friday, February 6, 2009
O PROJECTO DE SILÊNCIO DOS DEUSES
(Alte Museum, Berlim)
"Dividido o projecto pelos deuses,
cabe ao suporte refazer o mundo
nas projecções da alma e do teorema.
Eles conduzem o tratado, eles
operam no destino, por objecto
que a vida circunscreve a cada lapso.
Recupera-se a luz constantemente,
e a frase ocupa dois momentos só:
entre a resolução de nada e a
periferia de qualquer silêncio."
Luís Adriano Carlos, Invenção do Problema, 2ª edição, Quasi Edições: Vila Nova de Famalicão, 2006. p. 33.
Subscribe to:
Posts (Atom)














