Tuesday, October 6, 2009

A RAZÃO EM TEORIA

"Eu penetro, retomo, inspecciono, penduro, arranco o selo, a minha vida morta não guarda nada, e ainda por cima o nada nunca fez mal a ninguém, o que me força a voltar ao interior é esta ausência desoladora que passa e por instantes me submerge, mas nela vejo claro, muito claro, mesmo o nada sei o que é e posso dizer o que tem dentro.
Tinha razão, Van Gogh, podemos viver para o infinito, satisfazer-nos apenas com o infinito, na terra e nas esferas há infinito bastante para saciar mil grandes génios, e se Van Gogh não pôde satisfazer o seu desejo, que era irradiá-lo durante toda a vida, foi porque a sociedade lho proibiu.
Redonda e conscientemente proibiu."


Antonin Artaud, Van Gogh, o suicidado da sociedade, trad. Aníbal Fernandes. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 51.

Wednesday, September 30, 2009

JANELAS VELHAS



" Prometeu

Não penseis que me calo de orgulho ou de arrogância. Mas um cuidado me devora o coração, ao ver-me assim insultado. E, no entanto, quem, senão eu, deu a estes deuses novos, sem reservas, privilégios honoríficos? Mas sobre isso eu me calo, pois vos diria o que já sabeis. Ouvi, porém, as desgraças dos mortais e como eles são pueris antes de eu os tornar inteligentes e senhores da razão. Quero falar, mas não para censurar os homens, antes para expor em pormenor a benevolência do que lhes dei. A princípio, quando viam, viam falsidades; quando ouviam, não entendiam; e, como as formas dos sonhos, misturavam tudo ao acaso, durante a longa existência; e não sabiam construir casas soalheiras de tijolo, nem sabiam trabalhar a madeira; viviam em antros subterrâneos, como formigas ligeiras, nas profundidades sem sol das cavernas. E não tinham indício seguro do Inverno, nem da florida Primavera, nem do fecundo Verão; mas faziam tudo sem discernimento, até eu lhes ensinar o enigmático nascer e o ocaso dos astros. Também descobri para eles os números, a principal das invenções engenhosas, e a combinação das letras, memória de tudo quanto existe, obreira mãe das musas. E fui o primeiro a pôr sob jugo os animais, submetendo-os ao cabresto ou aos corpos dos homens, para que sucedessem aos mortais nos trabalhos mais pesados, e atrelei aos carros cavalos dóceis, ornamento do luxo excessivo. E nenhum outro senão eu inventou para os marinheiros os navios de asas de linho, que vogam sobre o mar. E eu, que descobri tudo isto para os mortais - infeliz - não tenho maneira de me libertar do sofrimento presente."


Ésquilo, Prometeu Agrilhoado, trad. Ana Paula Quintela Sottomayor, Lisboa: Edições 70, 2008, p. 54.

Sunday, September 27, 2009

COMO UM VASO DE PRATA ENTRE O SOL E A SOMBRA



"- Isso é o que pensa. Mas não falemos disso. Já não quer encontrar-se com Nossa Senhora?
- Quero, mas ela virá quando quiser. Não vou maçá-la. Senão S. José ainda me bate com a vara de arquitecto. Bate-me na cabeça com ela.
Era uma mulher linda, madura como um fruto vermelho e prateado. Não se dizia isso do rabi Yo'Hanan, que redigiu o Talmud de Jerusalém e era rico, o que o impedia de estudar o livro santo? Ele era tão belo, um dos mais belos homens do mundo, e o Talmud diz assim: «Pegai num vaso de prata completamente novo e enchei-o de grãos de romã vermelha e colocai-o entre a sombra e o sol. Tal era assim a beleza de Rabi Yo Hanan». Como um vaso de prata entre o sol e a sombra, uma imagem deliciosa para falar da pura beleza humana que o Espírito amou."


Agustina Bessa-Luís, O Princípio da Incerteza - A Alma dos Ricos, 6ª edição. Lisboa: Guimarães Editores, 2005, p. 209.

Wednesday, September 23, 2009

TEMPO E LOUCURA



"Será possível narrar o tempo, o tempo em si e por si, o tempo como tal? Claro que não, isso seria uma perfeita loucura! Uma história em que se lesse «o tempo passava, decorria, fluía», e assim sucessivamente, não poderia ser designada narrativa por ninguém em seu perfeito juízo. Era como se um louco mantivesse uma única nota musical, ou um só acorde, ao longo de uma hora, e quisesse convencer-nos de que se tratava de música."


Thomas Mann, A Montanha Mágica, trad. Gilda Lopes Encarnação. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009: p. 611.

Monday, September 21, 2009

CONVITE À TRANSCENDÊNCIA

"- Nunca estive no mais perfeito juízo - disse Alfreda, como se não falasse com ele. - Não sei porque isso não há-de acontecer. Se Nossa Senhora foi rica e bem educada, é natural que atenda o meu pedido. É um convite que lhe faço e ofereço-lhe toda a comodidade. Em vez de me aparecer em cima duma árvore, abro-lhe as portas da minha casa onde podemos conversar à vontade. Acha que isto é maluqueira?
- Não acho nada - disse o Touro Azul. - Tem uma certa lógica, mas nada me garante que os milagres tenham alguma lógica."


Agustina Bessa-Luís, O Princípio da Incerteza - A Alma dos Ricos, 6ª edição. Lisboa: Guimarães Editores, 2005, p. 123.

Sunday, September 20, 2009

OPORTUNIDADE DE RESPOSTA


"E um dia, ao saber Camilo céptico, Camilo com noites de sombrio desespero, palpando a coronha do revólver, não foi de propósito procurá-lo para lhe pregar Deus?
Era uma dessas tardes trágicas de Seide, de que o grande escritor fala nos Serões. A natureza chorava revolvida: a acácia de Jorge batia-lhe devagarinho nos vidros. Quem é que o chama? Atormentado de dores, ouve vozes, vê fantasmas, e sai do horror com blasfémias e sarcasmos. Junqueiro encontra-o mergulhado na dolorosa tinta do crepúsculo, com a pala que escrevia sobre os olhos, absorto, calado, desesperado, o rosto marcado de dedadas, «esboçado numa argila cor de mel», segundo o retrato de Ricardo Jorge. Eu tinha-lhe medo... O poeta tenta arrancá-lo ao negrume que o envolve: desenrola teorias, explicações, argumentos; ataca-o a fundo, persuade-o talvez... Já o julga abalado e convertido, quando dessa figura, só osso e dor, saem enfim estas palavras irónicas:
... - Sim, sim, Junqueiro, você convencia-me se eu não tivesse ainda no estômago, desde o almoço, três bolinhos de bacalhau, que me estão aqui como três Voltaires."


Raul Brandão, Memórias (Tomo I), vol. I. Lisboa: Relógio D'Água, 1998, pp. 60-61.

Tuesday, September 15, 2009

AQUELE QUE FEZ O OUVIDO, NÃO OUVIRÁ?

"Hans Füchs tirou do canto da boca o cachimbo fumegante:
- E o senhor acredita em Deus, Major Taborda?
- Por que não havia de acreditar? Ou o senhor pensa que eu me presumo ser de geração espontânea? Para a compreensão do Universo, estamos limitados por nossos sentidos. Se eu tenho um defeito de visão, vejo duas coisas em vez de uma, ou não vejo nada. Isto não quer dizer que as coisas deixem de existir, ou que existam conforme eu as veja. O próprio cérebro humano, tão bem guardado na caixa craniana, não tem percepção para tudo, por mais genial que seja. Onde está o mundo? Para onde vai o tempo? Se não consigo ter uma noção exacta dessas idéias essenciais, mesmo com as fórmulas matemáticas mais transcendentes, devo baixar a cabeça, com humildade, e admitir que há uma inteligência superior à do homem, que conduz o equilíbrio do Universo e que também me criou, como criou o senhor. Essa inteligência é Deus. Não o Deus que ameaça e castiga implacavelmente, mas o Deus que se comunica com o homem mais rude e primitivo na hora de suas aflições. Um Deus que perdoa os meus erros. Há na Bíblia um versículo que jamais esqueci. É o que nos diz, num dos Salmos: «Aquele que fez ouvido, não ouvirá? Aquele que formou o olho, não verá?» O senhor dirá que são idéias simplistas. São. Mas Deus também é simples. A simplicidade é a grande lei do Universo. Só a achamos complicada quando ela nos escapa, ou por estupidez, ou por ignorância, ou por orgulho besta. Depois de cento e cinqüenta e dois anos neste mundo, é o que tenho de mais importante a lhe dizer. Não é muita coisa, reconheço. Mas não creio que, pelo fato de ser hoje o homem mais velho do mundo, eu tenha também de ser o mais sábio."


Josué Montello, Largo do Desterro, Lisboa: Livros do Brasil, 1993, p. 291
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Sunday, September 13, 2009

A QUESTÃO DA PERDIÇÃO (1)

"J.-C. C. - Descobrimos as primeiras bibliotecas assírias, quando não conhecíamos nada da escrita cuneiforme. Sempre a questão da perdição. O que salvar? O que transmitir e como transmitir? Como ter a certeza de que a linguagem que utilizo hoje será compreendida amanhã e depois de amanhã? Não é possível conceber uma civilização que não se coloque esta questão. O Umberto evoca a situação em que todos os códigos linguísticos terão desaparecido e em que todas as línguas permanecerão mudas e obscuras. Podemos igualmente imaginar o contrário. Se eu desenhar hoje um grafitti sem sentido num muro, amanhã poderá acontecer alguém afirmar tê-lo decifrado. Diverti-me durante um ano a inventar escritas. Estou certo de que outros poderiam amanhã encontrar-lhe um sentido."

Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, A Obsessão do Fogo, Lisboa: Difel, 2009, pp.168-169.

Wednesday, September 9, 2009

ESQUECER O SOFRIMENTO


" HÉCUBA

Ó filhos, vossa mãe, abandonada numa cidade deserta, está privada de vós.
Que lamentos! Que lutos!
Lágrimas deslizam sobre lágrimas <........>
no nosso lar. Ao menos quem morreu esqueceu-se do sofrimento.

CORO

Para quem sofreu a desgraça, como são doces as lágrimas,
os lamentos dos trenos e a música que causa tristeza!

ANDRÓMACA

Ó mãe daquele guerreiro que outrora derrubou mais homens
com a sua lança, ó mãe de Heitor, vês esta desgraça?

HÉCUBA

Vejo a acção dos deuses, como eles erguem às alturas o que nada
vale, e destroem o que parece ter grande valor."



Eurípides, As Troianas, trad. Maria Helena da Rocha Pereira, Lisboa: Edições 70, 1996, p. 61.

Monday, September 7, 2009

A ESCADA DO CÉU


"Não me lembro de mortos nos teus interiores.
Os mortos, muitos já, que pesam como pedras vivas
Na bagageira usada do meu pensamento,
Esses mortos não invadem com as nódoas de memória
A tua, tão transportadora, e feita ao mundo
Na desordem fútil do esquecimento vão.

Mortos subtis, de repente nus, ou então cobertos
Duma terra adversa ao teu rodar atento
Surgem como sombras de amor e logo se dispersam
Sem que as palavras sirvam de refrão à existência
Muda ou gravada na alma um instante passageiro,
Urgentes ou cativos da minha vida móvel.

Mortos que nadam nesse lago do nada e acendem
Na bagagem o fogo que consome
As imagens de outrora e nunca saberão
Como pronunciar vivos a palavra mortos
Agora que contigo vou e não sei enfrentar
O reflectir do tempo no espelho vão da hora."


Armando Silva Carvalho, O Amante Japonês, Lisboa: Assírio & Alvim, 2008, p. 51.

Sunday, September 6, 2009

EXERCÍCIO DE MAIÊUTICA

"- Corrupção, decomposição - repetia Hans Castorp -, mas isso é um processo de combustão, se não estou em erro, combinação com o oxigénio.
- Absolutamente correcto. Oxidação.
- E a vida?
- Também. Também essa, meu caro. A vida é, na sua essência, uma mera combustão das proteínas celulares, combustão essa que produz o calor animal que tanto nos agrada, do qual alguns de nós sofrem em demasia. Pois é, viver é morrer, não há como embelezar essa evidência - une destruction organique, como certo francês uma vez o formulou na sua leviandade inata. E é o cheiro que ela tem, a vida. Se não temos essa impressão, é porque o nosso juízo se corrompeu.
- E se nos interessarmos pela vida - ensaiou Hans Castorp - interessamo-nos também pela morte, não é verdade?
- Bom, em todo o caso, subsiste sempre uma certa diferença entre elas. Há vida quando a forma se conserva no devir da matéria.
- Mas para que queremos conservar a forma?
- Para quê? Bem, olhe que não há humanismo nenhum no que acaba de dizer.
- A forma é afectação.
- Não há dúvida de que o senhor hoje está muito resoluto. Verdadeiramente desenfreado. Mas basta por hoje - disse o conselheiro. - Estou a ficar melancólico (...)"


Thomas Mann, A Montanha Mágica, trad. Gilda Lopes Encarnação. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009: p. 302.

Wednesday, September 2, 2009

PELA PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA



"O sol é a tua ausência que se abrasa.
A lua é a tua ausência enfraquecida.
A tua ausência é toda a minha vida
E os meus versos também e a minha casa."


Teixeira de Pascoaes, "Elegias", in Para a Luz, Vida Etérea, Elegias, O Doido e a Morte, Lisboa: Assírio & Alvim, 1998, p. 238.

Tuesday, September 1, 2009

O DEUS CERCADO



"Um homem que morre é o menos manipulado dos homens. A sua solidão é irreversível e impede-o de confundir a opção com a experiência. Os moribundos todos se parecem nessa infinita certeza duma situação feita já não de palavras mas de zumbidos e o gotejar de pingos de vento, no ouvido; um vento em que se enrola o profundo uso da vida; a crueldade faz-se um vão desperdício, o gesto humano, que foi carícia ou ameaça, solta-se como disperso duma grande máquina e deserta do seu sentido inicial. A viagem do moribundo é mais longa que a existência mais duradoura; em poucos minutos ele percorre espaços imensos, e tem encontro com formas que reconhece sem nunca lhe ser permitido imaginá-las. Todo o homem que morre é um deus cercado de poderes que teve e não gozou, porque temeu a sua divindade."


Agustina Bessa-Luís, O Mosteiro, 5ª edição. Lisboa: Guimarães Editores, 2005, p. 175.

Monday, August 31, 2009

PEDRAS NA ILUSÃO DA INCONSCIÊNCIA


"Entre mim e as coisas mediavam ínfimos e fraternos sentimentos, que eram elas continuando-se no meu ser; ou ele a prolongar-se em árvores, montes e penedos e, no distanciamento infinito, em lágrimas e lágrimas acesas.
Eu não tinha ainda essa existência individual, definida ou isolada num pequeno espaço material. A existência, como todos os calhaus, é um produto da razão, que nasce, por sua vez, da acção da realidade sobre nós, porque o homem é o único animal impressionável à acção da realidade, o único animal racional. Os outros animais não sofrem desilusões, os contactos brutos e dolorosos que nos dão a consciência do mundo exterior.
A infância é uma nuvem, como a velhice é uma pedra: nuvem que abrange tudo, pedra que tudo restringe à sua forma dura e recortada."


Teixeira de Pascoaes, Livro de Memórias, Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, p. 65.

Wednesday, August 26, 2009

FOR TO EXIST ON THE EARTH IS BEYOND ANY POWER TO NAME


"So that they last, and confirm our hymnic song against death.

And our tender thought about all who lived, strived, and never succeeded in naming.

For to exist on the earth is beyond any power to name,

Fraternally, we help each other, forgetting our grievances,
translating each other into other tongues, members, indeed, of a wandering crew.

How then could I not be grateful, if early I was called and the
incomprehensible contradiction has not disminished my wonder?

At every sunrise I renounce the doubts of night and greet the new day of a most precious delusion."



Czeslaw Miloz, Facing the River, trad. do autor e de Robert Hass. New Jersey: The Ecco Press, 1995, pp. 14-15.

Friday, August 21, 2009

A SUBTRACÇÃO DO FUTURO


"O futuro é esta subtracção? pergunta Margarida, nem adrianos nem antinoos, sequer um amo-te absoluto para o baptismo de uma cidade, nem um império, nem os bárbaros na fronteira, nem os tempos de dizer que se deve entrar na morte com os olhos abertos, nem guerras para declarar, nem o ódio que se vota aos poderosos, hoje, os anjos seculares retraíram as asas e escolheram um lugar severo para talvez definitivamente adormecerem"


Rui Nunes, "Quem da Pátria sai a si mesmo escapa?", Lisboa: Relógio D'Água, 1983, p. 70.

Thursday, August 20, 2009

O HOMEM FELIZ



"Não, o homem feliz não é o que tem camisa, como o da história que Padre Barnabé nos contava, no seminário. O homem feliz é o que não tem passado. O maior dos castigos, para o qual só há pior no inferno, é a gente recordar. Lembrança que vem de repente e ataca como uma pontada debaixo das costelas, ali onde se diz que fica o coração. Alguém pode ter tudo, mocidade, dinheiro no bolso, um bom cavalo debaixo das pernas, o mundo todo ao seu dispor. Mas não pode usufruir nada disso, por quê? Porque tem as lembranças perturbando. O passado te persegue, como um cão perverso nos teus calcanhares. Não há dia claro, nem céu azul, nem esperança de futuro, que resista ao assalto das lembranças."


Rachel de Queiroz, Memorial de Maria Moura, Lisboa: Edição «Livros do Brasil», 1994, p. 188.

Tuesday, August 18, 2009

PARAÍSO IRRECUPERADO



"- Esperava esse acolhimento - respondeu o demónio. - Todos os homens odeiam os infelizes; como sou detestado! Eu, mais miserável que qualquer ser humano! E no entanto, tu, o meu criador, detestas e repeles com desprezo a tua criatura, a quem estás ligado por cadeias que só podem ser quebradas com a morte de um de nós. Queres então matar-me! Como ousas jogar assim com a vida? Cumpre o teu dever para comigo que eu cumprirei o meu para contigo para o resto da humanidade. Se estás disposto a aceder às minhas condições, deixar-vos-ei em paz; mas se recusares, hei-de saciar-me no sangue dos amigos que te restam!
- Monstro horrendo! Demónio que és! As torturas do inferno são vingança muito doce para os crimes que cometeste! Censuras-me o ter-te criado; vem cá, então, para que possa extinguir a centelha de vida que tão imprudentemente te conferi!
O meu furor não tinha limites. Saltei sobre ele, impulsionado por todos os sentimentos que podem armar um homem para que mate outro.
Repeliu-me sem esforço e disse:
- Acalma-te!... Escuta, antes de dares livre curso ao teu ódio! Não terei já sofrido bastante para que tu procures ainda aumentar a minha infelicidade? A minha vida, a minha triste vida, é-me ainda querida e defendê-la-ei. Não te esqueças que me fizeste mais forte que tu. Mas não quero lutar contigo. Sou criação tua e serei doce e obediente para com o meu amo e senhor, se quiseres desempenhar o papel que a ti cabe. Oh! Frankenstein, se és justo para com os outros não me esmagues a mim, credor da tua justiça, da tua demência e do teu afecto. Eu deveria ser o teu Adão; mas afinal sou o anjo caído que baniste do paraíso. Por todo o lado vejo uma felicidade de que estou irremediavelmente excluído. Eu era benevolente e bom; o desgosto transformou-me num demónio! Faz-me feliz e tornar-me-ei virtuoso..."


Mary Shelley, Frankenstein, trad. Mário Martins de Carvalho, 2ª edição. Lisboa: Editorial Estampa, 1972, pp. 80-81.

Thursday, August 13, 2009

AND YOU TWIST THE DARKNESS IN YOUR FINGERS

"E tu revolves o escuro nos teus dedos, tu
Que és ligeiramente mais velho...
Quem és tu, no fim de contas?
E é cor de areia,
O escuro, à medida que se coa pela tua mão
Pois que sentido faz qualquer coisa,
A hora e a areia? Esse barco
Remando para a margem? Serei eu maravilha,
Estrategicamente, sob a luz
Do longo sepulcro que escondeu a morte e me escondeu a mim?"


John Ashbery, Auto-Retrato Num Espelho Convexo e outros poemas, trad. António M. Feijó. Lisboa: Relógio D'Água, 1995, p. 25.

QUEM ANDOU PELA TERRA EM MÍSERO ABANDONO

"Eu não vos tenho medo, ó pallidas creanças,
Que verteis sobre mim lagrimas compungidas
E negras maldições, agudas como lanças,
Chorae, desenrolae as vossas longas tranças,
Levantae para o céu as mãos arrependidas,
Que eu não vos tenho medo, ó brancas Margaridas,
O' sombras immortaes das pallidas creanças.

Eu hei de ir para o céu por mal dos meus peccados:
O céu é hoje em dia um velho pardieiro,
Um grande casarão, sem vidros, sem telhados,
Aonde vão dormir os corpos arruinados
Que já não têm saúde, e já não têm dinheiro.

Quem andou pela terra em misero abandono,
Aos encontrões da sorte, ao vento, á chuva, aos frios,
A velha meretriz, os magros cães sem dono,
Os rotos histriões, os santos e os vadios,
Todos lá vão dormir o derradeiro somno."



Guerra Junqueiro, A Morte de D. João, 10ª ed., Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1921, p. 269.