"A respeito da comida, observa o que puderes, mas não comas nada do que é sacrificado aos ídolos, pois esse culto é reservado a deuses mortos."
Didaqué, s. trad., Lisboa: Paulus, 2013, VI-3, p. 23.
" - Manduca, jam coctum est - sussurrou Guilherme.- O quê? - perguntou Jorge, que pensava que ele aludia a algum alimento que lhe era apresentado.- São as palavras que, segundo Ambrósio, foram pronunciadas por São Lourenço na grelha, quando convidou os carrascos a voltá-lo do outro lado, como também recorda Prudêncio no Peristephanon - disse Guilherme com ar de santo. - São Lourenço sabia portanto rir e fazer coisas ridículas embora fosse para humilhar os seus próprios inimigos.- O que demonstra que o riso é coisa bastante próxima da morte e da corrupção do corpo - rebateu Jorge, com um grunhido, e devo admitir que se comportou como bom lógico."
"- As imagens marginais induzem muitas vezes a sorrir, mas com fins de edificação - respondeu. - Como os sermões para tocar a imaginação das piedosas multidões é preciso inserir exempla, não raro facetos, assim também o discurso das imagens deve permitir estas nugae. Para cada virtude e para cada pecado há um exemplo tirado dos bestiários e os animais fazem-se figura do mundo humano."
"Refiro ao senhor: um outro doutor, doutor rapaz, que explorava as pedras turmalinas no vale de Araçuaí, discorreu me dizendo que a vida da gente encarna e reencarna, por progresso próprio, mas que Deus não há. Estremeço. Como não ter Deus ?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar - é tudo contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada - erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Dor não dói até em criancinhas e em bichos, e nos doidos - não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimento? E as pessoas não nascem sempre? Ah, medo não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver - a gente sabendo que ele não existe, aí é que toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo."
"Somos no futuro, imaginando; e recordando, somos no passado. O presente pertence aos bichos da terra e ao nosso corpo. É o instante em que ele nos dói, o instante em que ele pousa os pés nas brasas e se houve um gemido. Ser é ser em esperança, em luz da aurora, que a vida brota do futuro e precipita-se, morta, no passado."
"O pecado é mais fecundo que a virtude. A virtude é ponto de chegada e não caminho a percorrer; e chegar é parar. O valor não está na criatura mas no seu trabalho. O que há de belo numa estátua não é ela própria: é o esforço do artista que, em seus relevos, transparece, como um palpitar de vida no mármore, grito aprisionado no silêncio."
"Nessa íntima auréola é que vivemos e tocamos nas cousas exteriores. Interiormente é que tocamos o exterior. É com os dedos da alma que pegamos numa pedra: e a pedra, a si mesma, se reconhece, em nossas mãos."
"A vida é desejo sempre insatisfeito, um desejo maior que o desejado. A fome idealiza o fruto, para o tornar inatingível. A nossa vida é o nosso fantasma, à nossa frente, e nós, atrás dele, pobre animal atrás do dono."