Sunday, April 14, 2019

ENTRADA




"As aparências do Mediterrâneo têm também o seu papel a desempenhar. A especificidade da sua posição e a homogeneidade do seu espaço provocam a impressão de que ele é um mundo em si mesmo e o centro do mundo: mar enquadrado por terra, terra rodeada de mar. O Sol que sobre ele se ergue e profusamente o ilumina parece estar no céu só por causa dele e só a ele pertencer. (Os cosmógrafos e os geógrafos da Antiguidade transmitiram algo desta divagação nas suas teorias e exprimiram-na nas suas cartas.) A influência dos raios solares dá lugar a certos fenómenos psicológicos, efémeros e persistentes. A vastidão e a limpidez dos céus suscitam acaso estados místicos e despertam o temor do além. O Mediterrâneo erigiu monumentos à fé e à superstição, à grandeza e à vaidade."

Pedrag Matvejevitch, Breviário Mediterrânico, trad. Pedro Tamen, Lisboa: Quetzal, 2019, p. 25. 

Saturday, April 13, 2019

PSICOPOMPO


"Pois bem: a realidade que realmente não tem cor, nem rosto, e se mantém intangível: aquela cuja visão só é proporcionada ao condutor da alma pelo intelecto."

Platão, Fedro, 247c, trad. Pinharanda Gomes, 6ª ed., Lisboa: Guimarães Editores, 2000, p. 61.

Friday, April 12, 2019

O DOLO





"«Ai, pobre de mim! Será de novo um dos imortais a tecer
um dolo, dizendo-me para abandonar a jangada?
Mas não me deixarei ainda convencer, pois longe está
a terra que vi com os olhos, onde ela disse que me salvaria.»"


Homero, Odisseia, V, 356-359, trad. Frederico Lourenço, Lisboa: Biblioteca Editores Independentes/Cotovia, 2010 (reimpr.), p. 101. 

Wednesday, April 10, 2019

ANIVERSÁRIO






"A árvore foi a forma de te ver
E desci para abrir a casa.
De me teres visitado e avistado
Entre os ramos
Fizeste-me passagem
Da folha ao voo do pássaro
Do sol à doçura do fruto.
Para me encontrares me deste
A pequenez."


Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 166. 

Tuesday, April 9, 2019

APRESSAR




"Assim falou; e não lhe desobedeceu Hera, a deusa dos alvos braços,
mas dirigiu-se das montanhas do Ida ao alto Olimpo. 
E tal como se apressa o pensamento do homem, que atravessou
vasta extensão de terra e assim pensa no seu espírito experiente
«quem me dera estar aqui, ou ali», formulando muitos desejos - 
assim rapidamente se apressou com afinco a excelsa Hera."


Homero, Ilíada, XV, 78-83, trad. Frederico Lourenço, Lisboa: Cotovia, 2009 [reimp.], p.300. 

Monday, April 8, 2019

IDÍLIOS




"Em resumo: passei a transportar essa árvore na algibeira (cabia lá, garanto-vos!) para a colocar onde me conviesse, sem pedir licença à Musa, que trago sempre a meu lado de sentinela: nas mesas dos cafés, na sala de espera dos dentistas, naquela nuvem, nas conferência de bocejo respeitoso... Uma árvore estranha para idílios e tempestades com braços animais e movediços que ora se cobriam de flores ora de ventosas de sanguessugas.
Uma árvore com um sol enforcado ou uma ave suicida, conforme as urgências da Poesia..."


José Gomes Ferreira, A Memória das Palavras, 5.ª ed., Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1991, p. 60. 

Sunday, April 7, 2019

O FILHO DO HOMEM



"Resta a outra profecia, a segunda. Quando voltará o Filho do Homem sobre a nuvem do Céu, precedido pelas trevas e anunciado pelas trombetas dos anjos? Ninguém, disse Jesus, pode dizer qual é o dia da sua vinda. O Filho do Homem é comparado ao relâmpago que salta num momento do nascente ao poente; ao ladrão que vem furtivamente de noite; ao amo que se afastou para longe e volta inesperadamente para surpreender os seus servidores. Deveis estar vigiantes e preparados."

Giovanni Papini, História de Cristo, trad. Francisco Costa, Lisboa: Livros do Brasil, 2006, p. 267. 

Saturday, April 6, 2019

QUANTO MAIS




"Naquele tempo havia uma árvore solitária, uma cerejeira solitária, uma árvore solitária,
que bebia na margem do rio Eufrates. 
A fúria do suão arrancou-a pela raiz e amputou-a de ramos, 
o Eufrates sobre ela as vagas precipitou.
Uma mulher, devota da palavra de An, 
uma mulher, devota da palavra de Enlil, 
recolheu-a com as suas mãos e levou-a a Unug, 
para o sagrado jardim de Innana a levou.
A mulher não plantou a árvore com as mãos, plantou-a com os pés, 
a mulher não irrigou a árvore com as mãos, irrigou-a com os pés.
Disse ela: «Quanto mais até ser um trono esplendoroso em que me possa sentar?»
Disse ela: «Quanto mais até ser um puro leito em que me possa deitar?»
Antes de cinco anos, [dez anos transcorreram,]
tanto a árvore espessara, nem o córtice podia fender-se.
Nas raízes, uma Serpente-Que-Ignora-Esconjuros fizera o seu ninho, 
nos ramos, o pássaro de Anzu chocara a sua ninhada, 
no tronco, um Súcubo edificara a sua casa. 
A donzela que ri de coração cheio, 
a sagrada Innana, como chorava ela!"


Épico de Gilgames, tábua XII, trad. Francisco Luís Parreira, Lisboa: Assírio & Alvim, 2017, p.  158. 

Friday, April 5, 2019

TORMENTA



"Durante seis dias e sete noites
uivaram os ventos; as chuvadas, 
os vendavais, o Dilúvio - devastaram a terra.
Mas, ao chegar o sétimo dia, [destroçada a terra, 
o furacão belicoso] amainou, o Dilúvio cessou.
O oceano, que esbravejara como a mulher que dá à luz, 
sossegava, a tormenta apaziguava, findava o Dilúvio.
Contemplei os céus, montava a calmaria, 
mas a humanidade fora reduzida a argila.
A paisagem era plana como uma campa rasa."


Épico de Gilgames, tábua XI, trad. Francisco Luís Parreira, Lisboa: Assírio & Alvim, 2017, p. 147. 

Thursday, April 4, 2019

CATÁBASE




"Disse Gilgames, a ele, ao guerreiro Samas:
«Após cruzar, após esgotar estas desolações, 
descido ao Mundo Inferior, terei por pouco o descanso?
Lá, terei a eternidade toda para dormir!
Que os meus olhos vejam o sol e eu me sacie de luz!
A que distância estão as trevas e quanta luz há nelas?
Alguma vez poderão os mortos banhar-se nos raios do sol?»"


Épico de Gilgames, tábua IX, trad. Francisco Luís Parreira, Lisboa: Assírio & Alvim, 2017, pp. 123-124. 

Wednesday, April 3, 2019

PORTA



"Enkidu ergueu [os olhos, fitando a porta,]
e para a porta falou como se fora humana:
«Ó tu, porta das florestas, privada de sentido, 
desluzida de entendimento, ao contrário de mim.»"


Épico de Gilgames, tábua VII, trad. Francisco Luís Parreira, Lisboa: Assírio & Alvim, 2017, p. 107. 

Tuesday, April 2, 2019

SAMAS



"Samas, lá dos céus, retorquiu:
«Jovem, tu em tua casa és um amo, mas na montanha serás o quê?»
«Ó Samas, deixa-me dizer-to, presta atenção às minhas palavras!
Deixa-me dizer-to, queiras tu meditá-lo!
Na minha cidade, morre um homem e o coração aflige-se, 
perece um homem e o coração enche-se de dor. 
Fui ao cimo da muralha e estiquei o pescoço, 
o meu olhar foi cair sobre um cadáver que ia rio abaixo, flutuando nas águas:
também eu serei assim, assim mesmo serei eu!
"Nenhum homem, por alto que seja, pode alcandorar-se ao céu, 
nenhum homem, por amplo que seja, pode abraçar a montanha!"


Épico de Gilgames, tábua II, trad. Francisco Luís Parreira, Lisboa: Assírio & Alvim, 2017, p. 63. 

Monday, April 1, 2019

PERMEÁVEL



"Entrou pela noite, solícito, 
uma folha per-
meável às estrelas
no lugar da boca: 
resta ainda
alguma coisa a desfazer sem freio
ao encontro das árvores."



Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde - Antologia Poética, trad. João Barrento e Y. K. Centeno, 2.ª ed., Lisboa: Ed. Cotovia, 1996, pp. 149; 151. 

Sunday, March 31, 2019

ASAS



"O Apóstolo diz-nos que no princípio era a Palavra. Nada nos garante quanto ao final."


George Steiner, Linguagem e Silêncio - Ensaios sobre a Literatura, a Linguagem e o Inumano, tad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Gradiva, 2014, p. 33. 

Saturday, March 30, 2019

JAZER



"Aqui jaz o Sol
Que criou a aurora
E deu luz ao dia
E apascentou a tarde

O mágico pastor
De mãos luminosas
Que fecundou as rosas
E as despetelou.

Aqui jaz o Sol
O andrógino meigo
E violento, que
Possuiu a forma
De todas as mulheres
E morreu no mar."


Vinícius de Moraes, "Encontro do Cotidiano", in Obra Poética, Rio de Janeiro: Aguilar, 1968, pp. 274-275.

Friday, March 29, 2019

CRISTAL (para a Divina Agnès Varda)



"Desabotoa-se por fim a cena
que se desenhava no baço
da janela do sonho (o sonho
é uma espécie de vidraça?)

e tudo o que se realiza vive
da necessidade, agora
que o motor do instante se agita
e vibra sua perfeição. Enfim, 

vem à luz a experiência
que se vinha elaborando no laboratório
de algum andar do sonho (o sonho
é uma espécie de edifício?): o mar

nasce de amar, e - cristalinas - águas
sem margens usurpam a cidade, 
arrastam inocentes, os amantes 
gozam, é justo que seja assim."


Eucanãa Ferraz, Cinemateca, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2009, p. 34. 

Thursday, March 28, 2019

O SABER



"Falámos da vida escolar, dos meus tempos de estudante, e afirmei-lhe que esses tempos eram em verdade os mais felizes da vida de um homem, mas que os jovens não sabem disso.
- Se soubéssemos do futuro - acrescentei -, não poderíamos suportá-lo."


Maurice Baring, O Trono e o Altar, trad. Jorge de Sena, Lisboa: Editores Associados/Unibolso, s.d., p. 66. 

Wednesday, March 27, 2019

OS PRODÍGIOS



"Desertei das falanges do ouro
para vir sitiar a tua sombra.
Movias-te como se jamais te prendesse
outra lealdade
que não a interrogação
de um cais. E, porém, 
os teus olhos silenciosos, 
somando as imagens.
Qual pano, 
desce sobre a cidade o músculo
das coisas prementes. 
Das safras de pólvora colhi a tua incerteza
de rapariga. Depois, perdi-te
entre os prodígios."

Vasco Gato, Cerco Voluntário, Porto: Cadernos do Campo Alegre, 2009, p. 14. 

Tuesday, March 26, 2019

SERVIÇO



"A loucura serve-se aos cálices
galopa na solidão
à espreita do próximo abrigo

A loucura estoira 
num bar de cães
atira facadas
pela noite dentro

A loucura entontece
molda as palavras
torna-nos frágeis
e invencíveis

A loucura
não tem cura."


António Pedro Ribeiro, Café Paraíso, 2.ª ed., Porto: Edição Bairro dos Livros/Cultureprint, 2012, p. 47. 

Monday, March 25, 2019

TER NOS OLHOS



"É preciso estar cego
ou ter nos olhos aparas de vidro, 
cal viva,
areia a ferver, 
para não ver a luz que brota em nossos actos, 
que ilumina por dentro a nossa língua, 
a nossa palavra diária.

É preciso querer morrer sem um sinal de glória e de alegria, 
sem participação nos hinos futuros, 
sem ficar na lembrança dos homens que hão-de julgar o passado 
sombrio da Terra. 

É preciso querer já em vida ser passado, 
obstáculo sangrento, 
coisa morta, 
seco olvido."


Rafael Alberti, Antologia Poética, selec. e trad. Albano Martins, Porto: Campo das Letras, 1998, p. 47.