Saturday, September 14, 2019

ARGUMENTAÇÃO




"Pelo quarto, que empestava a fenol, viam-se moscas mortas. Oscar perguntou-me se eu queria ouvir um sermão ou se preferia que brincássemos aos enterros. No guarda-fato guardava um caixãozinho para bebé. Respondi-lhe que não acreditava em Deus, e então Oscar coçou a cabeça, assegurando-me ao mesmo tempo que a existência de Deus estava cientificamente provada, que o maior cientista do mundo era um russo chamado Einstein, e que esse Einstein tinha entrevisto o rosto de Deus nas suas fórmulas matemáticas. Disse-lhe que tão-pouco acreditava em histórias da carochinha e pouco depois estávamos zangados. Ele, que era mais forte do que eu, torceu-me o braço e exigiu que eu reconhecesse a existência de Deus. Senti dores, tive medo, mas não gritei por socorro porque era muito possível que ele fosse maluco, e eu sabia que os idiotas têm de levar avante a sua vontade, de contrário nunca se sabe o que pode acontecer. Apressei-me a dizer que sim, que acreditava que Deus existia."


Ingmar Bergman, Lanterna Mágica, trad. Alexandre Pastor, Lisboa: Relógio d'Água, 2012, p. 297. 

Friday, September 13, 2019

IMAGEM



"Tradicionalmente, o Inferno e o Limbo eram figurados de maneira diferente. O primeiro, por uma grande torre arruinada com uma goela de dragão servindo de porta. O segundo, com uma torre colada ao Inferno. Nas artes plásticas, o Paraíso era muitas vezes figurado pela fachada de uma igreja."

Maria José Palla, A Palavra e a Imagem, Lisboa: Editorial Estampa, 1996, p. 18. 

Thursday, September 12, 2019

PENSÉE




"O meu amigo Erland Josephson disse uma vez que devemos evitar conhecer pessoas, porque então começamos a gostar delas."

Ingmar Bergman, Lanterna Mágica, trad. Alexandre Pastor, Lisboa: Relógio d'Água, 2012, p. 272. 

Wednesday, September 11, 2019

ESTRUTURA



«Mais algumas linhas sobre Grevenius. Tinha visto um dos meus primeiros filmes e queixou-se. De mau humor, disse-me que o filme, a meio, tinha "um furo". Defendi-me, explicando-lhe que o actor, no filme, fazia o papel de um medíocre. A isto replicou Grevenius: "O papel de um medíocre nunca deve ser representado por um medíocre, o de uma mulher ordinária por uma mulher ordinária, o de uma prima-dona presumida por uma prima-dona presumida."»

Ingmar Bergman, Lanterna Mágica, trad. Alexandre Pastor, Lisboa: Relógio d'Água, 2012, p. 171. 

Tuesday, September 10, 2019

FIRME



"Quando, firmes, de pé, e frente a frente, 
As nossas duas almas se encontrarem, 
E, em silêncio, as asas alongarem, 
Co'os extremos rompendo em chama ardente, 

O mundo deixarão dificilmente,
Por mais que as fira. Temo que as separem
Os anjos que, cantando, as rodearam, 
Quebrando o seu silêncio fundo e quente. 

Ficarão mais unidas, não saindo
Do mundo. Este, volúvel, pressentindo
Almas esquivas, há-de abandoná-las;

Elas sempre um recanto hão-de encontrar, 
Onde se possam, por um tempo, amar, 
Com as trevas e a morte a rodeá-las."


Elizabeth Barrett Browning, Sonetos Portugueses, trad. Manuel Corrêa de Barros, Lisboa: Relógio d' Água,  1991, p. 55. 

Sunday, September 8, 2019

COMO ABELHA NUM COPO



"Não te queixes do rosto pensativo
E triste que te mostro. Para o lado 
Oposto ao que o teu olha, está voltado;
Não pode reflectir clarão tão vivo. 

Tu, se pensas em mim, não tens motivo
De recear, pois o meu ser, cansado, 
No círculo em que a dor o tem fechado, 
Como abelha num copo, está cativo.

Mas eu só penso em ti, considerando, 
P'ra além do amor, o fim do amor; prevendo
Que tudo há-de, por ti, ser olvidado.

Como quem, de alto monte contemplando, 
Um fresco vale, está, ao longe, veno
Brilhar, depois do rio, o mar salgado."


Elizabeth Barrett Browning, Sonetos Portugueses, trad. Manuel Corrêa de Barros, Lisboa: Relógio d' Água,  1991, p. 41. 

Saturday, September 7, 2019

PÍTON




"Então Foibos Apolo disse-lhe altivamente:
«Agora putrefactos aqui sobre a terra que alimenta os homens...»
E as trevas velaram os olhos da besta, e o ardor sagrado do sol fê-la apodrecer precisamente nesse lugar que desde então se chamou Píton, que quer dizer putrefacção.
Decerto, as velhas divindades veneradas não se deixam alojar assim sem resistência do seu terreno e dos seus fiéis; vencidas, não desaparecem totalmente; subsiste delas um cadáver que se enterra nas consciências, que apodrece provocando pesadelos, uma terrível perturbação mental."


Michel Butor, O Espírito do Lugar, trad. Rui Guedes da Silva, Lisboa: Arcádia, 1963, p. 69. 

Friday, September 6, 2019

CRIATURAS



"(Há que admitir a nossa ausência do mundo, a nossa confortável segurança perante as marionetas inspiradas com que as crianças sonham. Há que admitir a nossa irrealidade que respeita as deambulações dessas criaturas incómodas."

Edmond Jabès, A Obscura Palavra do Deserto (Uma Antologia), trad. Pedro Tamen, Lisboa: Cotovia, 1991, p. 29. 

Wednesday, September 4, 2019

NO PARQUE


"Ser daquela cidade, de Paris... e não ter de ver, todas as manhãs, a mãe com quem se encontrava no Bois e com quem dava um curto passeio na Allée des Acacias (o que levava Bella Karol a pensar ter cumprido o seu dever e a não ter de se preocupar mais com a filha até ao dia seguinte, salvo se surgisse alguma doença grave), não ter de a ver com aquela jaqueta irlandesa, com aquelas pintinhas no véu do chapéu, com aquelas saias arrastando as folhas mortas, a caminhar com um ar empenachado, de «cavalo de carro fúnebre», característico das mulheres daquele tempo, em direção a um canto da alameda onde as esperava um argentino de tez escura..."

Irène Némirovsky, O Vinho da Solidão, trad. Júlia Ferreira e José Cláudio, Lisboa: Relógio D'Água, 2013, pp. 57-58. 

Tuesday, September 3, 2019

A COR


"No espelho do armário viu, sem a reconhecer, uma menina de oito anos envergando um vestido azul e um grande avental branco, com uma cara pálida, aturdida pela violência da sua vida interior, com os dedos manchados de tinta e as pernas fortes e sólidas, calçadas com meias de algodão e grossas botinas amarelas com atacadores."

Irène Némirovsky, O Vinho da Solidão, trad. Júlia Ferreira e José Cláudio, Lisboa: Relógio D'Água, 2013, p. 23. 

Monday, September 2, 2019

DÉCIMO PRIMEIRO ANO




"Precisava de falar-te ao ouvido
De manter sobre a rodilha do silêncio
A escrita.
Precisava dos teus joelhos. Da tua porta aberta.
Da indigência. E da fadiga.
Da tua sombra sobre a minha sombra
E da tua casa.
E do chão."


Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 20. 

Sunday, September 1, 2019

LANÇADO



"Como herói primitivo, com Héracles, lançado para diante da hidra com cem cabeças, o homem moderno sente que tem de recomeçar tudo, compreender de outra maneira, dominar de outra maneira e que se encontra perante uma floresta de ameaças, não lhe servindo a ciência senão para melhor lhe fazer ver a extensão."

René Huyghe, Sentido e Destino da Arte (II), trad. João Gama, Lisboa: Edições 70, 1986, p. 283. 

Saturday, August 31, 2019

CONTRASTES




"A luz da lâmpada aumentava o brilho dos olhos azuis-cinzentos de Anne e prolongava-lhe a sombra das pestanas pintadas no escuro, dando-lhe uma expressão de misteriosa tristeza. 
- São os contrastes que tornam as pessoas interessantes. Gosto de pessoas inconsequentes - declarou ela."


Patricia Highsmith, O Desconhecido do Norte Expresso, trad. Elisa Lopes Ribeiro, Lisboa: Livros do Brasil, sd., pp. 80-81. 

Friday, August 30, 2019

A SAGRADA FACE




"A dentadura encravou-se! Rezai,
prometei abstinência por um ano
para quem a prótese malfeita se despegue da boca.
Ó Deus, como éreis bom, 
rosas, dentes postiços, 
touceiras de coqueirinho, 
a profusão dos milagres. 
Casimiro de Abreu, que não era santo, 
mas que estava nos livros, 
também ele dizia, como Jó, 
como meu pai e minha mãe diziam:
«um Ser que nós não vemos
é maior que o mar que nós tememos...»
Que faço agora que Vos descubro em silêncio, 
mas, dentro de mim, em nossos ossos, 
vertiginosa doçura?
Os dentistas fazem as próteses, não Vós, 
a terra é que gera as rosas. 
Desde a juventude pedi, quero ver Teus Rosto, 
mostra-me a Tua Face. 
Então é este o esplendor, 
este deserto ardente, claro, 
de tão claro sem caminhos!
Esta doçura nova me empobrece, 
nascer sem pai, sem mãe, 
objeto de um amor em si mesma gerado. 
Flor não é Deus, terra não é, eu não sou. 
Pobre e desvalida entrego-me ao que seja
esta força de perdão e de descanso, 
paciência infinita. 
Quase posso dizer, eu amo."


Adélia Prado, "O Pelicano", in Com Licença Poética - Antologia, org. Abel Barros Baptista, Lisboa: Cotovia, 2003, p. 72. 

Thursday, August 29, 2019

LADO



"Achei que a interpretação de Cristo realçava o lado humano da sua natureza sem, contudo, negar que Ele é Deus, o que para mim era compreensível. O lado divino não compreende inteiramente o que o lado humano tem de fazer, que Ele tem de se transformar a si próprio e finalmente chegar ao sacrifício da cruz - Cristo, o homem, apenas apreende isto aos poucos, gradualmente."

Scorcese por Scorcese, org. David Thompson e Ian Christie, trad. Ana Paula Magalhães, Lisboa: Edições 70, 1991, p. 144. 

Wednesday, August 28, 2019

FUNDO


"«Os fundos», continuou, «devem embelezar. Mais do que isso devem imprimir imortalidade à pessoa retratada, independentemente da duração da sua existência.»"


Rose Tremain, Restauração, trad. Adelaide Cervaens Rodrigues e Teresa Carvalho, Porto: Edições Asa, 1996, p. 44. 

DEFINIÇÕES


"Deus está em toda a parte. Giordano Bruno já o dizia: «Um espírito encontra-se em toas as coisas e não existe corpo, por mais pequeno que seja, que não contenha em si uma parcela da substância divina que o anima». Cada átomo é, pois, provido de alma e assim o éter cósmico. Pode-se, portanto, definir Deus como a soma infinita de todas as forças naturais ou a soma de todas as forças atómicas e de todas as vibrações do éter. Chega-se assim essencialmente ao ponto que o anterior conferente, o qual definiu Deus: a lei suprema do mundo e o representa como a obra do espaço geral. Importa pouco o nome desta matéria tão elevada da crença, bastando a identidade da ideia fundamental, a unidade de Deus e do mundo, do espírito e da natureza. Pelo contrário, o homoteísmo, a ideia antropomórfica de Deus faz descer este conceito cósmico supremo até ao vertebrado gasoso."

Ernest Haeckel, O Monismo, trad. Fonseca Cardoso, 3.ª ed., Porto: Lello & Irmão, 1947, p. 66. 

Tuesday, August 27, 2019

CRUELDADE


"Meg chegou numa manhã bastante fria de Setembro. Ao ver-me com a minha bata e a boina soltou uma gargalhada de troça. Fiquei mais incomodado ainda porque enquanto despia a capa fez queixas sobre o ambiente frio e sombrio do meu Estúdio. 
«Está virado a Norte como deve ser», comentei, começando a afiar o pedaço de carvão. «Os artistas têm que trabalhar com a luz do Norte.»
«Porquê?» perguntou Meg Storey. 
Levantei os olhos. Não queria admitir perante esta impertinente libertina de taberna que não fazia a menor ideia. 
«Porque», respondi abruptamente, « a luz do Norte é cruel.»"


Rose Tremain, Restauração, trad. Adelaide Cervaens Rodrigues e Teresa Carvalho, Porto: Edições Asa, 1996, pp. 39-40. 

Monday, August 26, 2019

A CRIAÇÃO


“Criar a vida? Muito bem: criemos. A partir do nada: de putrefacção, de cadáveres desenterrados dos cemitérios, daquilo que mais medo mete aos homens desde que o mundo é mundo – a morte.”

Cathy Berheim, Mary Shelley, trad. José Álfaro, Lisboa: Antígona, 2014, p. 89.

CONSELHO


“Para Mary Shelley, o apocalipse serve apenas para sublinhar a impotência humana: a incapacidade para fazer face aos flagelos naturais é tão grave como os próprios flagelos. Além disso, ela tende a acreditar que se os seus contemporâneos vivem tão mal é porque uma parte eles adere às desgraças que os atingem. Basta que um só, de entre eles, seja portador da frágil aliança entre o prazer de viver e o desejo de conhecer para que a humanidade não esteja completamente perdida.”


Cathy Berheim, Mary Shelley, trad. José Álfaro, Lisboa: Antígona, 2014, p. 151.