Friday, June 16, 2023

LEVEZA DE OCASIÃO

 



"os deuses não têm templos
apenas céu.

ou são as divindades que nos assaltam
à espera de um sacrifício?

por tudo isso e por estes rios
é preciso que os contemples.

é preciso que haja tempo e forma
para a sua leveza de ocasião."


Pedro Braga Falcão, os deuses da resina [em três livros], Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2022, p. 49. 

Thursday, June 15, 2023

PRINCÍPIO



"Novamente, princípio [arkhé] quer dizer aquele tópico inicial a partir do qual uma coisa é primeiro entendida, sendo por isso também denominado o «princípio» de uma coisa, tal como sucede com as hipóteses de demonstração. Visto isto, «causa», por outro lado, pode ter efetivamente um número semelhante de diferentes aceções, uma vez serem as causas «princípios». Por conseguinte, constitui propriedade comum serem todos os «princípios» a primeira coisa a partir da qual algo existe, se gera ou se conhece; sendo consequentemente alguns princípios intrínsecos às coisas, enquanto outros, por seu lado, não o são. Assim, «natureza» supõe um princípio, assim como também o «elemento» e o «entendimento», a «escolha», a «essência» e a «causa final»; sendo, em muitas ocorrências, o bem e o belo os princípios tanto do conhecimento como do movimento."


 Aristóteles, Metafísica, V, 1012b 34- 1013a 20, trad. Carlos Humberto Gomes, Lisboa: Edições 70, 2021, pp. 175-176. 

Tuesday, June 13, 2023

ANTONIANO

 



"Os homens copiavam os anjos;
Os anjos copiavam os homens; 
Ambos copiavam a inocência;
A inocência copiava as feras.

As feras devoraram os homens;
Os anjos devoraram as feras.
A inocência vestiu-se de roxo
Pelo luto das futuras eras."


Natália Correia, Poesia Completa, 3.ª ed., Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, p. 119. 

Monday, June 12, 2023

INTERSTÍCIO

 


"A quem ali chegasse de noite, pela primeira vez, parecer-lhe-ia, no dia seguinte, ter caído de algum avião, pois não enxergava interstício na muralha de pedra por onde se insinuasse a fita de um carreiro. Era um mundo à parte aquele, perdido, ignorado do outro na corcova gigante daquela serra. Nem os rios lá chegavam, nem poços ali afloravam, não gorgolejava uma nascente e, contudo, a vegetação manava, como oásis, nos pequenos vales abertos entre os outeiros nascidos naqueles píncaros."


Lília da Fonseca, O Relógio Parado, Lisboa: Arcádia, 1961, p. 40. 

Sunday, June 11, 2023

AVALIAR

 


"Quando Deus, cuja beleza é impossível de avaliar, deu à Natureza a beleza que a caracteriza, transformou-a num curso de água impossível de secar, sempre em movimento, a fonte de toda a beleza, e cujas margens e profundezas ninguém conseguiu sondar. Assim, não seria apropriado da minha parte fornecer uma descrição tanto do seu corpo quanto do seu rosto, que é de tal maneira fresco e encantador, que nenhum lírio de Maio, nenhuma rosa no seu ramo, nenhum floco de neve no seu tronco, se mostram tão vermelhos ou tão brancos. Acabaria por me ver obrigado a pagar pela minha ousadia caso me atrevesse a compará-la fosse ao que fosse, já que homem algum está em condições de compreender a sua beleza ou o seu valor."


Guillaume de Lorris e Jean de Meun, O Romance da Rosa, trad. Lucília Mateus Rodrigues, Mem Martins: Publicações Europa-América, 2001, IX , p. 265. 

ORDEM TERRENA

 


"Abandonei por duas semanas o meu amado jardim junto ao Wannsee para regressar à paisagem mediterrânica. «Mediterrâneo» significa literalmente no meio da terra. Portanto, estou particularmente próximo da terra. A proximidade da terra enche-me de felicidade. Mas o meio digital destrói a terra, essa maravilhosa criação de Deus. Amo a ordem terrena. Nunca a abandonarei. Experimento um sentimento de fidelidade profunda, de profundo apego a esse precioso dom de Deus. Penso que a religião não significa senão esta profunda compenetração que, no entanto, me faz livre. Ser livre não significa ficar ocioso nem estar livre de compromissos. Para mim, em momentos como este, liberdade significa passar o tempo no jardim."

 

Byung-Chul Han, Louvor da Terra - Uma Viagem ao Jardim, trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Relógio D'Água, 2020, p. 115. 

Friday, June 9, 2023

HABITÁCULO

 


"Que alegria e que terror teres vindo. Conseguirei voltar a habitar este espaço outra vez sem ti?"


Daniel Faria, Sétimo Dia, 1:14., Lisboa: Assírio & Alvim, 2021, p. 46. 

Thursday, June 8, 2023

O PÃO E O VINHO

 



"Temos
sobre a terra a tarefa de preparar para o altar
o pão e o vinho do sacrifício
que inscrevem na terra
o próprio céu.

O mais insondável dos mistérios é o céu esconder-se
num humilde pão. Porque Jesus é o próprio céu
vindo até nós, todas
as manhãs.

Rainhas
mais felizes do que nós certamente que não há.
As tarefas do seu estado não são uma prece
unitiva com o seu próprio
Esposo.

As maiores
honras deste mundo não se podem comparar
com a paz celeste e profunda
que Jesus nos quer
dar a provar:

É natural
que invejemos santamente o trabalho de nossas mãos,
a pequena e branca hóstia
onde se esconderá
o Cordeiro divino.
(...)"


Thérèse Martin, de Lisieux, O Alto Voo da Cotovia, trad. Maria Gabriela Llansol, Lisboa: Relógio D'Água, 1999, p. 237.

Tuesday, June 6, 2023

HONRADO BENEFÍCIO

 


"Os do castello mujto anojados por a morte de Nuno Gomçallvez, que lhe assi virom dar, nom teverom mentes no fogo que deitarom, estando mujto espamtados das razooens que dissera ao filho. O fogo era gramde per aazo do vemto, a que se remedio nom pode poer, e arderom todallas choças com quamto neelas sija, e mujta gente em ellas: e o filho de Nuno Gomçallvez manteve o castello como lhe seu padre mandou, e depois lhe deu elRei huum muj homrrado benefiçio, por quamto lhe prougue escolher vida de clerigo."

Fernão Lopes, Crónica de D. Fernando, LXXIX, Porto: Livraria Civilização, 1966, p. 208. 

Monday, June 5, 2023

SECULAR

 



"- Que é isto, demónio? Será que estás a ser impertinente? Que pessoas são essas de que nos estás a falar? Será então possível encontrar a religião num lar secular?
- Sim, meu senhor. Não é forçoso que alguém leve uma vida perversa e acabe por perder a alma porque enverga trajes mundanos. Tal seria uma lástima. A religião verdadeiramente sagrada pode muito bem habitar entre roupas coloridas. Temos presenciado a morte de muitos homens santos e de muitos santos religiosos, bem assim como de muitas mulheres devotas e religiosas, que sempre usaram trajes comuns e que ainda assim foram canonizados."


Guillaume de Lorris e Jean de Meun, O Romance da Rosa, trad. Lucília Mateus Rodrigues, Mem Martins: Publicações Europa-América, 2001, VI, p. 180.

Sunday, June 4, 2023

BOM JESUS

 


"Para este povo, gente simples do mar, gente então pobre que sentia na pele as agruras da vida dura cheia de incertezas quanto ao futuro, pois o seu sustento provinha do mar, por vezes tão generoso e não  raramente tão duro e hostil, durante muitos séculos - até ao século XVIII - o Senhor Jesus de Bouças, hoje de Matosinhos, pelos auxílios que lhe foi prestando pelos "milagres" realizados nesta vida ingrata de pescadores, tornou-se o Bom Jesus, e assim é designado até hoje, como expressão da bondade de Deus que por Seu Filho chega aos mais pobres e abandonados, aos marginalizados, e faz deles os favoritos do Reino, solidarizando-se com eles."


Pe. José Maria Gonçalves Fabião, Devoção, Romaria e Festa do Bom Jesus de Matosinhos. Sua Origem e Evolução, Matosinhos, 2001, p. 9. 

Saturday, June 3, 2023

BALIZAS


 "Este monte, ora ermo, silencioso e esquecido, já se viu regado de sangue: já sobre ele se ouviram gritos de combatentes, ânsias de moribundos, estridor de habitações incendiadas, sibilar de setas e estrondo de máquinas de guerra. Claros sinais de que aí viveram homens: porque é com estas balizas que eles costumam deixar assinalados os sítios que escolheram para habitar na terra."

 

Alexandre Herculano, "O Castelo de Faria", in Lendas e Narrativas, Tomo I, 28.ª ed., Lisboa: Livraria Bertand, s.d., p. 218. 

Thursday, June 1, 2023

INFÂNCIA




"Com o massacre da minha infância ficou
perdida a minha alegria primeira. Secou a 
raiz que havia de prender ao ventre de
todos os sorrisos. Tudo o que de feliz eu fui
depois disso, nasceu de artifícios inventados
à força. Na verdade, nunca saí daqui, da terra
onde a minha esperança se decompõe."


Virgínia do Carmo, Poemas simples para corações inteiros, Poética Edições, 2017, p. 39.

Wednesday, May 31, 2023

FORTUNA

 



"Lá no alto da montanha, inclinada por sobre a encosta ao invés de se erguer no planalto, encontra-se a casa da Fortuna, sendo que aquela parece estar sempre prestes a se desmoronar."

Guillaume de Lorris e Jean de Meun, O Romance da Rosa, trad. Lucília Mateus Rodrigues, Mem Martins: Publicações Europa-América, 2001, IV, p. 101. 

Tuesday, May 30, 2023

OLHAVAM

 



"quando  aqueles que chegavam
olhavam os que partiam
os que partiam choravam
os que ficavam sorriam"


Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação, Lisboa: Assírio & Alvim/BI, 2008, p. 75. 

Sunday, May 28, 2023

GRANDEZA DE DEUS

 



"O mundo está pleno da grandeza de Deus.
    Seu fulgor inflama, qual lâmina fulgurante;
    Une-se numa grandeza, qual óleo derramado
Exangue. Porque não reconhecemos hoje o seu poder?
Gerações trilharam o mundo, trilharam, trilharam;
    E tudo secou com o comércio, tudo definhou na labuta;
    E traz em si a mácula do homem e do seu odor: o solo
Está exangue agora, e nem o nosso palmilhar pode sentir.

E apesar de tudo isto, a natureza persiste;
    Ali, no mais fundo das coisas, vive o mais querido frescor;
E embora as derradeiras luzes se extingam no Oeste
    Ó, a manhã, na orla leste tocada pelo sol, emerge -
Porque o Espírito Santo por sobre o arco
    Do mundo cisma com seu cálido peito e com ah! Brilhantes asas."



Gerard Manley Hopkins, Poesia e Prosa Escolhidas, trad. Mário Avelar, Prior Velho: Paulinas Editora, 2016, p. 35. 

ANIVERSÁRIOS

 



"Atravessei, aspergida de luz, o braço de mar
que divide tudo o que existe. De um lado, eu,
do outro, o fim da terra. De onda em onda me fiz
tão pouco e depurada ancorei nas travessas cruas
desse extremo insular.

Conheci nesse dia a respiração ofegante das árvores.
E lágrimas de flor.

O choro do vento sacrificado a derramar-se,
avulso, lembrou-me a agonia de uma borboleta.

Sei que não há pássaros verdes no fim do mundo.
Mas nunca um lugar foi tanto céu."


Virgínia do Carmo, A menina que aprendeu a matar centopeias e outros poemas, Lisboa: Poética Edições, 2023, p. 52. 

Saturday, May 27, 2023

PERMANÊNCIA

 



"Nunca antes me sentira tão feliz. É certo que é possível uma pessoa curar-se, bastando-lhe para isso beijar uma flor tão encantadora e perfumada. Nunca me sentirei tão amargurado ao ponto de a lembrança de uma coisa destas não me encher de alegria e de felicidade. Ainda assim, tenho passado por muitas atribulações e conhecido muitas noites sem dormir desde o momento em que beijei aquela rosa. O mar nunca se mostrará tão calmo ao ponto de não ser perturbado por um pouco de vento. Quanto ao Amor, trata-se de uma coisa muito inconstante, que por vezes se acalma, por vezes provoca dor. A verdade é que o Amor raramente permanece inalterável."


Guillaume de Lorris e Jean de Meun, O Romance da Rosa, trad. Lucília Mateus Rodrigues, Mem Martins: Publicações Europa-América, 2001, III, pp. 59-60. 

Friday, May 26, 2023

SOB PÁLPEBRAS

 



"Às vezes a minha casa é apenas o espaço ínfimo
Entre o que sinto e o que não sei. 

Às vezes moro sob as pálpebras. 

Às vezes durmo sobre sombras
molhadas de mar. 

Às vezes é aí a minha casa."


Virgínia do Carmo, A menina que aprendeu a matar centopeias e outros poemas, Lisboa: Poética Edições, 2023, p. 34. 

Thursday, May 25, 2023

ALEGRIA (para a memória de Tina Turner)

 


"A Alegria cantava bem e de forma agradável, e ninguém teria sido capaz de fazer com que os refrões soassem melhor ou com maior clareza. Cantar era uma actividade que lhe assentava às mil maravilhas, já que a sua voz era bem límpida e pura, e ela estava longe de se mostrar desajeitada, antes sabendo bem como mover o corpo enquanto dançava, bem como bater os pés e mostrar-se cheia de graça. Sempre e em toda a parte, era seu hábito ser a primeira a cantar, já que o canto era a sua ocupação favorita."

 

Guillaume de Lorris e Jean de Meun, O Romance da Rosa, trad. Lucília Mateus Rodrigues, Mem Martins: Publicações Europa-América, 2001, II, p. 19.