Monday, October 9, 2023

O FRUTO DOS JARDINS

 



"É terrível como acaba o ano,
Com vinho dourado e o fruto dos jardins.
Em redor, silenciam-se, maravilhosas, as florestas,
Que são as companheiras do solitário.

Diz então o camponês: que bom!
E vós, sinos da tarde, longos e suaves,
Dai ainda uma coragem alegre para o fim
O traço das aves em voo saúda a viagem.

É o tempo do amor.
No barco que desce o rio azul,
Com que beleza uma imagem se liga a outra imagem.
Tudo submerge em sossego e silêncio."


Georg Trakl, Poemas, trad. e pref. António de Castro Caeiro, Lisboa: Abysmo, 2019, p. 57.

Sunday, October 8, 2023

CONTURBADA

 



"«O que são os impostos?», quis saber a criança, interessada, embora menos do que antes.
    O pai explicou. Deu pormenores. De impostos sabia ele, infelizmente, umas coisas. Mas depois, quando a criança voltou ao pequeno écran, ficou a pensar naquela conturbada região do globo. É que a frase trouxe-lhe à memória outra, do passado, que era este oásis de paz num mundo conturbado. Porque há palavras que agradam a quem fala, a quem escreve, nada a fazer."



Maria Judite de Carvalho, "Este Tempo", in Obras Completas, vol. V, Lisboa: Minotauro, 2019, p. 93.

Saturday, October 7, 2023

ANIVERSÁRIO

 



"Abre as mãos para a brisa
e sobre os ramos tenros
depõe um ósculo de afectos
Não acordes o seu sono verde
respira apenas
a tépida apojadura
como se tivesses renascido
no ciclo da primavera
Recordarás depois ao meio dia
o cego milagre."


Carlos Seixo, Fim de Tarde e Outros Devaneios, Barcelona: autografía editorial, 2023, p. 107.

Friday, October 6, 2023

E TEMPO

 


"Sim, e tempo? E tempo para nos desligarmos da corrente contínua que nos arrasta, para pararmos um pouco, para olharmos em volta com um bocadinho de atenção, para escutarmos o mundo, para esquecermos o trabalho que amanhã - ou daqui por pouco - teremos de recomeçar, para, enfim, nos sentarmos naquela cadeira tão confortável, mesmo em frente do quadro, a ouvir no gira-discos, que tem um som mais-que-perfeito, aquele disco tão belo que nos ofereceram? E tempo para apreciar o conforto da cadeira, a beleza da música e do quadro, a qualidade do som?"

Maria Judite de Carvalho, "Este Tempo", in Obras Completas, vol. V, Lisboa: Minotauro, 2019, p. 38. 

Thursday, October 5, 2023

DE AMORE

 



"Entrou no que chama os domínios
de Deus
sem declarar ser hóspede,
sem sequer o grão de pó que se infiltra
na mente
em exaltação desértica.

Sem sentir essa penugem que dizem ser dos anjos
a aflorar-lhe
a lâmina
dos seus lábios de insecto.

Ouvira os recitais compassivos
das mulheres domésticas, a prédica acabrunhada
dos teólogos,
não se negara nunca à beleza
dos girassóis indefesos nos seus campos
de indústria.

Entrou nos recintos de Deus
um pouco desabrigado, mas de unhas limpas
e de peito aberto ao que viesse.

De Deus, porque assim lhe disseram os amigos,
porque não eram só as sobras do silêncio,
o chão tão devoluto,
o trabalho arrumado a um canto

Era a sua cabeça em cima duma tábua,
e a sua vida ao lado:
um pequeno embrulho indefinido
a marcar presença
nesses labirintos avessos
aos francos, directos, respiradouros
da morte.

Algumas destas coisas que falamos podem ser eternas,
escrevem-lhe os autores.
A própria flor aberta pela mão do sol
enalteceu-lhe a vista.

Agora, parado, nesses aposentos
de estátuas, ideias e milagres, de crises roedoras
como animais iníquos que se alimentam
do medo,
o amoroso pasma, sente o peso dos tempos
e reza o que lhe resta do sexo,
espesso,
com a solitária mão, mecânica,
fechada."


Armando Silva Carvalho, De Amore, Lisboa: Assírio & Alvim, 2012, pp. 19-20.

Monday, October 2, 2023

MONTE CÓRDOVA

 



"Com suas mãos, fabricara Angélica um cruzeiro tosco defronte da capela, e pusera ao lado um banquinho de pedra bruta, sobre duas que lhe serviam de pedestais. Ora dizia-se que, por desoras, a bruxa saía, a evocar dali o demónio, e o colhia às mãos com conjúrios e sortilégios, e o amarrava à cruz, de modo que todas as suas curas prosperavam enquanto o cão tinhoso estivesse preso. Um padre bem- intencionado daqueles sítios foi-lhe perguntar se, de feito, ela conseguia ter o diabo em prisão. Angélica, mais compadecida que pasmada da pergunta, disse ao padre:
- Se Deus omnipotente o deixa em liberdade, como hei-de eu, pobre pecadora, prendê-lo?"

Camilo Castelo Branco, A Bruxa de Monte Córdova, Lisboa: Círculo de Leitores, 1982, p. 180.

Sunday, October 1, 2023

CHAVES

 


"A caridade deu-me a chave da minha vocação. Compreendi que se a Igreja tinha um corpo composto de vários membros, o mais necessário, o mais nobre de todos não lhe faltava: compreendi que a Igreja tinha um coração, e que esse coração estava ardendo de amor. Compreendi que só o Amor fazia agir os membros da Igreja; que se o Amor se apagasse, os Apóstolos já não anunciariam o Evangelho, os mártires recusar-se-iam a derramar o seu sangue... Compreendi que o Amor encerra todas as Vocações, que o Amor é tudo, que abarca todos os tempos e todos os lugares... numa palavra, que é Eterno!... Então, num transporte de alegria delirante, exclamei:«Ó Jesus, meu Amor! encontrei finalmente a minha vocação: a minha vocação é o Amor!..."

Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, História de uma Alma, Paço de Arcos: Edições do Carmelo, 1996, p. 250. 

Saturday, September 30, 2023

EXPOSIÇÃO


 "Ainda que fosse possível determinar o valor de certo dote em determinado momento, esses valores mudarão; e dentro de um século, é muito possível que se tenham alterado completamente. «- Daqui a cem anos, as mulheres terão deixado de ser o sexo fraco», pensei, no momento em que chegava à porta de casa. Participarão, logicamente, em todas as actividades e exercícios que outrora lhes foram negados. A ama carregará o carvão. A lojista andará de carro. Todas as noções baseadas nos factos, observados quando as mulheres eram o sexo fraco, terão desaparecido - como, por exemplo (nesta altura um destacamento de soldados marchava pela rua), o de que as mulheres dos pastores de igreja e dos jardineiros vivem mais tempo. Eliminem essa protecção, exponham-nas aos mesmos exercícios e actividades, façam-nas soldados, marinheiros e motoristas, estivadores, e as mulheres não morrerão tão jovens e tão rapidamente, de molde a que os homens possam dizer: - « - Hoje vi uma mulher», como era hábito dizerem: «- Vi um avião». Tudo pode acontecer, quando as mulheres deixarem de ser «protegidas», concluí, abrindo a porta. «Mas afinal o que tem tudo isto a ver com o assunto do meu ensaio, As Mulheres e a Ficção?», interroguei-me, entrando em casa."


Virginia Woolf, Um quarto que seja seu, trad. Maria Isabel Barreno, 2.ª ed., Lisboa: Vega, 1985, p. 55. 

Friday, September 29, 2023

MIGUEL

 



"O mundo, ó luz, te absorve e te devora,
Mas revives no mundo mais intensa,
Mais próxima de Deus a cada hora,
Nas vidas todas desta vida imensa,
Vidas sem fim, almas sem fim,
Que o segredo do amor junta e condensa,
Por meus olhos magnéticos, em mim!"


Guerra Junqueiro, "Oração à Luz", in Obras (Poesia), 2.ª ed., Porto: Lello & Irmão - Editores, 1974, p. 945.

Thursday, September 28, 2023

FUGACIDADE

 



"Assim como sem nada que as antecipe,
elas aí estão, seja noite seja dia,
não será fácil afirmar
que têm nascimento.
Assim como sem se aperceberem desaparecem,
não fazem ideia do que seja morrer.
Em matéria de fugacidade
não há quem lhes chegue."


Hans Magnus Enzensberger, 66 poemas, trad. Alberto Pimenta, s. l.: Edições do Saguão, 2019, p. 171.

Wednesday, September 27, 2023

A MEMÓRIA EXPLORA O PASSADO

 


"A voz do meu amor veio no vento como uma grande
borboleta perdida e o seu rosto ficou a suportar a luz
da manhã na ombreira da porta

Veio com a sua cor íntima, súbita alvéola caucionando
o resgate, trazer até mim as mãos com que pretendo
amassar os elementos, amadurecendo o trigo para as
reservas do assalto

A vontade da luta começou a levedar como se os
ponteiros do relógio já tivessem atingido a hora

Tentáculos misteriosos incendiaram os archotes da
cólera e laminaram o frio coração das carpideiras.

O momento foi único como a contorção dos corpos
sob a violenta queimadura do orgasmo."


Egito Gonçalves, O Amor Desagua em Delta, Porto: Editorial Inova, 1971, p. 88.

Tuesday, September 26, 2023

RUÍNAS

 



"E é triste ver assim ir desfolhando,
Vê-las levadas na amplidão do ar, 
As ilusões que andámos levantando
Sobre o peito das mães, o eterno altar, 

Nem sabe a gente já como, nem quando, 
Há-de a nossa alma um dia descansar!
Que as almas vão perdidas, vão boiando
Nesta corrente eléctrica do mar!...

Ó ciência, minha amante, ó sonho belo!
És fria como a folha dum cutelo...
Nunca o teu lábio conheceu piedade!

Mas caia embora o velho paraíso, 
Caia a fé, caia Deus! sendo preciso, 
Em nome do Direito e da Verdade."


Guerra Junqueiro, Obras (Poesia), 2.ª ed., Porto: Lello & Irmão - Editores, 1974, p. 769. 

Monday, September 25, 2023

FIRST THINGS FIRST

 



"Em princípio não temos grandes objecções
contra purgatório, reencarnação, paraíso.
Se tem de ser, faz favor!
Para já, no entanto,
temos outras prioridades.

O caixote do gato, o saldo da conta
e o insuportável estado do mundo
não podem deixar de nos preocupar,
para não falar da internet
e das notícias sobre o nível da água.

Às vezes nem sabemos já
onde temos a cabeça
com tanto problema.
Está sempre a morrer gente,
e a cada momento nasce mais alguém.

Então não dá para reflectir
sobre questões concernentes
à nossa própria imortalidade.
Primeiro uma olhadela
à agenda,

depois logo se vê."


Hans Magnus Enzensberger, 66 poemas, trad. Alberto Pimenta, s. l.: Edições do Saguão, 2019, p. 147.

Sunday, September 24, 2023

PODERIO

 


"Sempre gostara de paisagens solitárias: grandes praias desertas sem outras pegadas que não fossem as suas - que poderio! - os longos horizontes da planície, as cidades àquela hora mansa, e levemente angustiada também, em que as pessoas dormem ou chamam laboriosamente por um sono que se lhes recusa. Agora, porém, esses velhos quadros entrevistos pareciam-lhe grosseiras, terrestres imitações daquela solidão impoluta, tão grande e tão perfeita, que estava a atravessar. Para além da dupla vidraça tudo era possível, até a branca, suave mão de um Deus protector a avançar para ele. Até um pouco de ectoplasma vagabundo. Até o anjo da morte, até esse. Coisas vulgares, prováveis, não!"


Maria Judite de Carvalho, "As Palavras Poupadas", in Obras Completas, vol. I, Lisboa: Minotauro, 2021, p. 233. 

Saturday, September 23, 2023

TEMPO MADURO (OUTONO)

 


"O tempo é imaturo mas tudo acontece
Vertiginosamente como se fosse o fim.
Do beijo no seio à posse completa
Vai apenas o tempo de quebrar a relva.

Abre-se uma porta no teu sangue rubro
Onde se tornam concretos os enigmas...
As árvores despenteiam-se, dão sombra
E o espasmo constrói o teu futuro."


Egito Gonçalves, O Amor Desagua em Delta, Porto: Editorial Inova, 1971, p. 18. 

Friday, September 22, 2023

RETOUR À L' EXPÉDITEUR

            


"Muito obrigado pelas nuvens.
Muito obrigado pelo cravo bem temperado
e, por que não, pelas botas de Inverno forradas.
Muito obrigado pelo meu cérebro singular
e pelos outros órgãos todos que não estão à vista,
pelo ar, e naturalmente pelo vinho de Bordéus.
Muito agradecido por não se me acabar o isqueiro,
e os agudos anseios, e a piedade, a incessante piedade.
Muito obrigado pelas quatro estações,
pelo algarismo e e pela cafeína,
e claro pelos morangos no prato
pintado por Chardin, e também pelo sono,
pelo sono muito especialmente,
e, não vá eu esquecer-me,
igualmente pelo início e pelo fim
e pelos minutos de permeio,
um obrigado muito encarecido,
e por que não também pelas toupeiras lá fora no jardim."




Hans Magnus Enzensberger, 66 poemas, trad. Alberto Pimenta, s. l.: Edições do Saguão, 2019, p. 117.

Wednesday, September 20, 2023

ACORDAR

 


"Acordar velha seria o ideal. Não um pouco velha com alguns cabelos brancos e rugas a ter que disfarçar com cremes apropriados e fonds de teint muito espessos. Não. O que ela gostaria era de acordar totalmente velha, velha como a avó Cândida, velha sem remissão. Que boa coisa poder finalmente ser ela, natural mesmo por pouco tempo, sem mentira. Não se fazer de velha como dantes nem mais nova como lhe acontecia agora, nem mostrar-se mais inteligente nem mais estúpida conforme falava com este ou com aquele, nem fingir que gostava nem que deixara de gostar."


Maria Judite de Carvalho, "Tanta Gente, Mariana", in Obras Completas, vol. I, Lisboa: Minotauro, 2021, p. 65. 

Monday, September 18, 2023

A FÉ NA FÉ

 



"Não fosse a fé na fé
e seria apenas um
na procissão dos mortos vivos
Mas sempre formei o discurso
à luz de uma candeia
Por isso também nunca cheguei
à esfera onde giram as estrelas
Mas a modesta candeia
como guia
sendo trémula a luz
alumia."


Carlos Seixo, Fim de Tarde e Outros Devaneios, Barcelona: autografía editorial, 2023, p. 54.

Sunday, September 17, 2023

A ROTAÇÃO DAS NUVENS

 



"Assumo a condição
de construtor de pontes
Sentado sobre a aresta da fronteira
a minha pátria
é fluida como a rotação das nuvens
e da minha toca apenas sei
a toca onde não sei estar
Sinto-me vassoura que voa
sem bruxa
que lhe puxe as crinas
com um pé nas raízes da sequóia
e um olho a piscar para a última estrela
da Ursa Menor
e o meu lugar é sempre
o resto da divisão por dois."



Carlos Seixo, Fim de Tarde e Outros Devaneios, Barcelona: autografía editorial, 2023, p. 14.

Saturday, September 16, 2023

PROVEITOSAMENTE

 


"Há tantas coisas em que nunca pensámos por falta de tempo! Na esperança, por exemplo. Quem vai perder cinco ou dez minutos a pensar na esperança, quando pode usá-los muito mais proveitosamente a ler um romance ou a falar ao telefone com uma amiga, a ir ao cinema ou a redigir ofícios no emprego? Pensar na esperança, que coisa imbecil! Até dá vontade de rir. Na esperança... Sempre há gente... E ela metida como areia nas pregas e nas bainhas da alma. Passam anos, passam vidas, aí vem o último dia e a última hora e o último minuto e ela então aparece a tornar inesperado aquilo por que esperávamos, a fazer o que já era amargo ainda mais amargo. A tornar mais difíceis as coisas."


Maria Judite de Carvalho, "Tanta Gente, Mariana", in Obras Completas, vol. I, Lisboa: Minotauro, 2021, p. 14.