Tuesday, June 24, 2025

ORVALHADA

 




"Orvalho de Verão:
brilharam toda a noite
avencas e áruns."


Carlos Poças Falcão, Arte Nenhuma, Língua Morta/Livraria Snob, 2020, p. 400. 

Sunday, June 22, 2025

A VIDA É ASSIM

 



"- Mas os deuses são reais, não são?
- Sim, sim. Claro. Como não? Para quê ligar tanto à questão? Tu o disseste. Há doze olímpicos, com o estranho último acrescento. Mas são como os hexâmetros... como a poesia... a vida é assim. Podemos fazer um debate sobre tudo, questionar tudo e angustiarmo-nos sobre isso como, bem, Sócrates. Nesse sentido ele era sábio. Mas não notas que aqui e além, quando ele fazia as pessoas parar na rua (não os amigos, mas transeuntes), elas estavam ansiosas por se libertarem? Não era o mundo delas, compreendes? Elas próprias não questionavam cada um dos passos porque o andar ocorria naturalmente."


William Golding, A Duas Vozes, trad. J. Teixeira de Aguilar, Bibliotex Editor, 2003, p. 63. 

Saturday, June 21, 2025

SANGUÍNEA GLÓRIA

 



"É uma coisa terrível a casa onde Deus prepara a sua
sanguínea glória. O silêncio bate-lhe nas portas, nas mesinhas-de-
cabeceira. As horas são as maiores batalhas deste Deus, que olha
devagar os nossos sonhos, o princípio e o fim da nossa genealogia.
Há uma matemática impossível nos seus olhos, uma grande inocência
nas asas das gaivotas."


Mário Rui Cordeiro, A Nau Eléctrica, Lisboa: Ulmeiro, 1984, p. 24.

Friday, June 20, 2025

O MOVIMENTO DE CHEGAR ÀS COISAS

 



"Vazia te iluminas de coisas desastrosas.
E vires entre as coisas te ilumina
o movimento de chegar às coisas
longamente esquecidas.

Esquecidas e movendo-te nas horas
de agora tão tranquila
que se te vê dourar-se a sombra,
cada vez menos sombra e mais antiga.

Mas quando as coisas de mover-se voltam
ao grande tempo que seria
antigas coisas aparecem novas,

as tuas mãos, movendo o que movia
teu gesto de ver coisas desastrosas,
abrem lugares que graves te iluminam."



Fernando Echevarría, A Base e o Timbre, in Obra Inacabada, Porto: Edições Afrontamento, 2006, p. 72.

Thursday, June 19, 2025

AOS BOCADOS

 



"No interesse de tapar os buracos da atmosfera, a raça humana ainda pode cooperar para sobreviver, embora tenha as minhas dúvidas. Para um novo centro aguentar, temos de entender porque é que as coisas estão a cair aos bocados - que é o que está a acontecer. Passei a minha vida a tentar compreender de que é que os outros parecem precisar e que eu não preciso - especificamente um sentido de divindade, preferivelmente singular, antropomórfico e, para explicar a confusão geral que fez na terra, uma espécie de deus bizarro, inescrutável e ciumento. Não tenho dúvidas de que dentro desta linha, está para vir algo de novo mas, entretanto, é preciso dizer qualquer coisa sobre o caos criativo. Claro que a ordem, quando imposta de cima para baixo, nunca dura muito tempo."


Gore Vidal, «Sobre o caos», in Chris Miller (coord.), A Palavra Dissidente - As Conferências da Amnistia de Oxford - 1995, trad. José Vaz Pereira, Lisboa: Difel, 1996, p.168. 

RITUAL


 

"Todas estas coisas explique-as o bispo aos que recebem a comunhão. Depois de partir o pão, ao apresentar cada pedaço, diga: O pão do Céu em Jesus Cristo. Aquele que o recebe responda: Amen. Se os presbíteros não forem suficientes, peguem nos cálices os diáconos, e coloquem-se em boa ordem: em primeiro lugar o que segura a água, em segundo o que segura o leite, em terceiro o que segura o vinho."


Hipólito de Roma, Tradição Apostólica, s. trad., Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2020, pp. 65-66.  

Monday, June 16, 2025

SIGO A MARGEM

 




"Não, não tenho nos bolsos
punhado algum de terra
para firmar os dedos.

Sigo a margem do rio
e logo a água enche
o sulco das pegadas.
E sei assim que a margem
firme é só um momento
que não regressa, pois
a terra é logo água."


Manuel Amaral, Gente Terras Dia a Dia - poemas, Porto: Unicepe, 2003, p. 82.

Sunday, June 15, 2025

VELHA CASA

 


"Numa casa velha não moram só os seus habitantes vivos, mas também, e sobretudo, as almas dos que já partiram, deixando atrás de si um rasto invisível, que nos envolve como um nevoeiro."


Fernanda de Castro, Ao Fim da Memória - Memórias II [1937-1987], Lisboa: Editorial Verbo,  1987, p. 267. 

Saturday, June 14, 2025

ANTIGAS FLORES

 




"Revejo antigos lugares onde tudo parece imaginário; há desenhos
no asfalto, inscrições nas paredes. Receosas gentes passam e não
olham, perplexas ou esquecidas. Chamo a isto angústia, contorno
a tristeza, revejo antigas flores, habito lugares abandonados
e falo com alguma certeza, da loucura dos que evocam o mar.
Porque se escondem?
Subo e desço assim as escadas do teu sonho, não te solicito a presença,
nem o consentimento, pois sei que ávida desapareces no silêncio
das vidraças. Se explodes és o medo e esvoaceias num círculo de
cintilações; se me invocas és uma ave doente, incendiando espaços
estelares.
Podes partir, esgotar-se em lágrimas. Nunca te merecemos, somos o
vinho mortal com que adormeceste, as palavras que ninguém pôde
entender.
Quanto atravessas o destino premeditado das nossas mãos e me
esperas, falta-te a pureza, quero dizer, muita claridade.
Somos uma pequena aglomeração de coisas transparentes, quem nos
conhece, quem pode atravessar connosco a dor, erguê-la até ao fim
nessas cidades estranhas?"


Mário Rui Cordeiro, A Nau Eléctrica, Lisboa: Ulmeiro, 1984, p. 19.

MILAGREIRO

 


"No tempo que demorou em Pádua, saiu um dia Santo António a pregar fora de portas, e muito povo seguiu atrás dele para o ouvir. E, entre os mais, também havia uma senhora nobre que, ao passar num campo, empurrada da multidão, caiu no lodaçal.
No perigo de se ver para ali enlameada e estragado o vestido novo que trazia a estrear, humildosamente se encomendou a Deus e a Santo António. É que sobretudo temia-se das sanhas do marido, se fosse aparecer em casa com o vestido ensujado."


Livro dos Milagres ou Florinhas de Santo António de Lisboa, 2.ª ed, trad. Frei Fernando Félix Lopes, OFM, Braga: Editorial Franciscana, 2019, XXVII, p. 77.

Tuesday, June 10, 2025

O BOM JESUS

 



"Assim, o que é e onde está o rosto de Deus para aquele que acredita na sua presença real entre nós? A resposta é que encontramos essa presença em toda a parte, em tudo o que sofre e renuncia por causa de outro. Coisas com rosto são iluminadas pela subjetividade que neles brilha, e que espalha ao seu redor uma auréola de proibições."


Roger Scruton, O Rosto de Deus, trad. Marcelo Felix, Lisboa: Edições 70, 2023, pp. 213-214.

DIA DE PORTUGAL

 




"Se temos nove dez poetas
à escala europeia
ou só quatro ou mesmo talvez
com muito boa vontade três

aflige-me bastante menos
que o problema do Serra:

quantas queijeiras restam
fiéis à rude bordaleira?
para onde vai Portugal?"


Fernando Assis Pacheco, A Musa Irregular, 3.ª ed., Porto: Edições Asa, 1997, p. 203.

Sunday, June 8, 2025

PROCURA

 




"Procuro o lento cimo da transformação
Um som intenso. O vento na árvore fechada
A árvore parada que não vem ao meu encontro.
Chamo-a com assobios, convoco os pássaros
E amo a lenta floração dos bandos.
Procuro o cimo de um voo, um planalto
Muito extenso. E amo tanto
A árvore que abre a flor em silêncio."


Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 261.

DE SPIRITU SANCTU

 




"O Espírito Santo vivificador
tudo move e de tudo é raiz,
de toda a impureza purifica,
lavando máculas e ungindo feridas:
vida fulgente e digna de quem o louva,
suscita e ressuscita todas as coisas."


Hildegard von Bingen, Flor Brilhante, introd. e trad. Joaquim Félix de Carvalho e José Tolentino Mendonça, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 47.

OUTEIRO MAIOR

 


"O Condestável era pouco mais do que um pardieiro, com salas de tábua corrida cortadas pela invenção mais recente do corredor. O corredor, mobilado com grandes sofás de crina vindos de antigas mudanças para casas cada vez mais exíguas, correspondia a uma varanda interior sobre uma espécie de claustro ou pátio habitado por uma nogueira gigante. Há sempre uma árvore particular nas memórias duma pessoa triste."


Agustina Bessa-Luís, Antes do Degelo, 2ª ed. Lisboa: Guimarães Editores, 2004, p. 309. 

Saturday, June 7, 2025

CASA FEITA DE PEDRAS

 


"14. Permiti, portanto, que eles escapem a esta pena, e ponderai fugir vós mesmos. Entretanto, deixai-os alcançar a coroa que lhes está destinada. Não temais. Não vão separar-se de vós, mas antes preparar-vos no céu cintilantes moradas, nas quais viverão justamente convosco e com os vossos filhos em perpétuo regozijo. Se eles vos afastam da vossa casa feita de pedras, quanto mais não vos deve incitar a beleza daquelas casas, onde existem radiosas salas de ouro puro, que têm leitos feitos de pedras preciosas e pérolas? Ali a flor das purpúreas rosas jamais murcha; ali os bosques floridos desabrocham em perpétua exuberância: ali os tenros prados são sempre banhados por rios de mel; ali a vegetação rescende a flor de açafrão e os nutritivos campos são incomensuravelmente ricos em encantadores perfumes. Ali respiramos as brisas que carregam a vida eterna; ali há uma luz sem sombra, uma serenidade sem névoa, e os olhos desfrutam do dia sem as trevas da noite."


«Paixão de São Sebastião e companheiros», in Maria João Toscano Rico, São Sebastião - Santos e Milagres na Idade Média em Portugal (Textos da Antiguidade Tardia e Alta Idade Média), volume 4, Lisboa: Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2013, p. 32. 

Friday, June 6, 2025

O OURO

 



"António (A ferver; ciúme) - O ouro é mais bonito, não é?...

Joana (Provocante.) - E é. Mil vezes, cem mil vezes mais bonito... É sim senhor!

Rita - E mais rico. Mais rico que é que ele é! Feio, o meu António? Oiçam isto, amigas, oiçam isto...

Joana - Feio, feio, feio como os sapos da terra! Todos os homens são feios, todos são ruins como a peste... Deles, até o cheiro envenena!..."


Bernardo Santareno, O Crime de Aldeia Velha, Ato I, cena V, 3.ª ed., Lisboa: Edições Ática, 1970, p. 34.

Thursday, June 5, 2025

ATAVISMO

 



"Custódia - E olha que os homens...

Rita - Ora, ora! os homens são outra coisa: são machos... Toda a vida assim foi: acham a terra macia e pronto! botam logo a semente...Sempre foi assim. Mas elas! elas é que são..."


Bernardo Santareno, O Crime de Aldeia Velha, Ato I, cena III, 3.ª ed., Lisboa: Edições Ática, 1970, p. 20.

Tuesday, June 3, 2025

GNOSE

 


"O conhecimento de Deus é um conhecimento vivido. É um conhecimento que exige a participação  do corpo chamado pela água, pelo vinho, pelo gesto ou pelo óleo: qualquer coisa de sensível que nos faz participar de qualquer coisa de absoluto."


António Alçada Baptista, Peregrinação Interior, vol. I, 8.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1999, p. 179. 

Sunday, June 1, 2025

MENINO

 




"O menino tem um arco.

É de plástico.

(Mas é de ouro
ou de ferro
ou de prata
- quem o sabe?)

E com ele
o menino colhe flores
e estrelas e algas
da funda claridade.
Nunca pássaros.

Esses pousam no arco
enquanto o menino dorme
sob as árvores,
como um guerreiro cansado."


Glória de Sant'Anna, Amaranto - Poesia 1951-1983, Lisboa: INCM, 1988, p. 116.