"Orvalho de Verão:
brilharam toda a noite
avencas e áruns."
Carlos Poças Falcão, Arte Nenhuma, Língua Morta/Livraria Snob, 2020, p. 400.
"- Mas os deuses são reais, não são?- Sim, sim. Claro. Como não? Para quê ligar tanto à questão? Tu o disseste. Há doze olímpicos, com o estranho último acrescento. Mas são como os hexâmetros... como a poesia... a vida é assim. Podemos fazer um debate sobre tudo, questionar tudo e angustiarmo-nos sobre isso como, bem, Sócrates. Nesse sentido ele era sábio. Mas não notas que aqui e além, quando ele fazia as pessoas parar na rua (não os amigos, mas transeuntes), elas estavam ansiosas por se libertarem? Não era o mundo delas, compreendes? Elas próprias não questionavam cada um dos passos porque o andar ocorria naturalmente."William Golding, A Duas Vozes, trad. J. Teixeira de Aguilar, Bibliotex Editor, 2003, p. 63.
"No interesse de tapar os buracos da atmosfera, a raça humana ainda pode cooperar para sobreviver, embora tenha as minhas dúvidas. Para um novo centro aguentar, temos de entender porque é que as coisas estão a cair aos bocados - que é o que está a acontecer. Passei a minha vida a tentar compreender de que é que os outros parecem precisar e que eu não preciso - especificamente um sentido de divindade, preferivelmente singular, antropomórfico e, para explicar a confusão geral que fez na terra, uma espécie de deus bizarro, inescrutável e ciumento. Não tenho dúvidas de que dentro desta linha, está para vir algo de novo mas, entretanto, é preciso dizer qualquer coisa sobre o caos criativo. Claro que a ordem, quando imposta de cima para baixo, nunca dura muito tempo."
Gore Vidal, «Sobre o caos», in Chris Miller (coord.), A Palavra Dissidente - As Conferências da Amnistia de Oxford - 1995, trad. José Vaz Pereira, Lisboa: Difel, 1996, p.168.
"Todas estas coisas explique-as o bispo aos que recebem a comunhão. Depois de partir o pão, ao apresentar cada pedaço, diga: O pão do Céu em Jesus Cristo. Aquele que o recebe responda: Amen. Se os presbíteros não forem suficientes, peguem nos cálices os diáconos, e coloquem-se em boa ordem: em primeiro lugar o que segura a água, em segundo o que segura o leite, em terceiro o que segura o vinho."Hipólito de Roma, Tradição Apostólica, s. trad., Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2020, pp. 65-66.
"Numa casa velha não moram só os seus habitantes vivos, mas também, e sobretudo, as almas dos que já partiram, deixando atrás de si um rasto invisível, que nos envolve como um nevoeiro."
Fernanda de Castro, Ao Fim da Memória - Memórias II [1937-1987], Lisboa: Editorial Verbo, 1987, p. 267.
"No tempo que demorou em Pádua, saiu um dia Santo António a pregar fora de portas, e muito povo seguiu atrás dele para o ouvir. E, entre os mais, também havia uma senhora nobre que, ao passar num campo, empurrada da multidão, caiu no lodaçal.No perigo de se ver para ali enlameada e estragado o vestido novo que trazia a estrear, humildosamente se encomendou a Deus e a Santo António. É que sobretudo temia-se das sanhas do marido, se fosse aparecer em casa com o vestido ensujado."
Livro dos Milagres ou Florinhas de Santo António de Lisboa, 2.ª ed, trad. Frei Fernando Félix Lopes, OFM, Braga: Editorial Franciscana, 2019, XXVII, p. 77.
"Assim, o que é e onde está o rosto de Deus para aquele que acredita na sua presença real entre nós? A resposta é que encontramos essa presença em toda a parte, em tudo o que sofre e renuncia por causa de outro. Coisas com rosto são iluminadas pela subjetividade que neles brilha, e que espalha ao seu redor uma auréola de proibições."
Roger Scruton, O Rosto de Deus, trad. Marcelo Felix, Lisboa: Edições 70, 2023, pp. 213-214.
"O Condestável era pouco mais do que um pardieiro, com salas de tábua corrida cortadas pela invenção mais recente do corredor. O corredor, mobilado com grandes sofás de crina vindos de antigas mudanças para casas cada vez mais exíguas, correspondia a uma varanda interior sobre uma espécie de claustro ou pátio habitado por uma nogueira gigante. Há sempre uma árvore particular nas memórias duma pessoa triste."
Agustina Bessa-Luís, Antes do Degelo, 2ª ed. Lisboa: Guimarães Editores, 2004, p. 309.
"14. Permiti, portanto, que eles escapem a esta pena, e ponderai fugir vós mesmos. Entretanto, deixai-os alcançar a coroa que lhes está destinada. Não temais. Não vão separar-se de vós, mas antes preparar-vos no céu cintilantes moradas, nas quais viverão justamente convosco e com os vossos filhos em perpétuo regozijo. Se eles vos afastam da vossa casa feita de pedras, quanto mais não vos deve incitar a beleza daquelas casas, onde existem radiosas salas de ouro puro, que têm leitos feitos de pedras preciosas e pérolas? Ali a flor das purpúreas rosas jamais murcha; ali os bosques floridos desabrocham em perpétua exuberância: ali os tenros prados são sempre banhados por rios de mel; ali a vegetação rescende a flor de açafrão e os nutritivos campos são incomensuravelmente ricos em encantadores perfumes. Ali respiramos as brisas que carregam a vida eterna; ali há uma luz sem sombra, uma serenidade sem névoa, e os olhos desfrutam do dia sem as trevas da noite."
«Paixão de São Sebastião e companheiros», in Maria João Toscano Rico, São Sebastião - Santos e Milagres na Idade Média em Portugal (Textos da Antiguidade Tardia e Alta Idade Média), volume 4, Lisboa: Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2013, p. 32.
"O conhecimento de Deus é um conhecimento vivido. É um conhecimento que exige a participação do corpo chamado pela água, pelo vinho, pelo gesto ou pelo óleo: qualquer coisa de sensível que nos faz participar de qualquer coisa de absoluto."
António Alçada Baptista, Peregrinação Interior, vol. I, 8.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1999, p. 179.