Saturday, October 31, 2026

FEITIÇOS

 



"Vejo-te, outra vez, pela berma das levadas,
descer para o vale.
É a hora do lobo e dos medos nos invernos
antigos.
Na aldeia súbita que se desvenda, elas dançam
em círculo,
agitando as lanternas,
mas tu não sabes que prodígio se constrói no
âmago das trevas.
Elas cantam,
mas tu,
viajante das noites profundas, não conheces
o idioma das rainhas destronadas pelo dia.
A sua música de guizos vai para onde vais.
A água das levadas pára, transformada
em pedra.
O mar é negro e sobe até ao céu e depois
cai, como a grande solidão,
sobre as espáduas.
Em frente, na colina do terror, o teu filho
chora."


José Agostinho Baptista, Ahora y en la hora de nuestra muerte / Agora e na hora da nossa morte, trad. Antón Castro, Zaragoza: Olifante, 2001, p. 122.

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