Thursday, April 3, 2008
AUMENTAR INFINITAMENTE O PEDIDO QUE NASCE DA CARÊNCIA
"Não é para nós que o leite da vaca brota, mas nós o bebemos. A flor não foi feita para ser olhada por nós nem para que sintamos o seu cheiro, e nós a olhamos e cheiramos. A Via Láctea não existe para que saibamos da existência dela, mas nós sabemos. E nós sabemos Deus. E o que precisamos d'Ele extraímos. (Não sei o que chamo de Deus, mas assim pode ser chamado. ) Se só sabemos muito pouco de Deus, é porque precisamos pouco: só temos d'Ele o que fatalmente nos busca, só temos de Deus o que cabe em nós. (A nostalgia não é do Deus que nos falta, é a nostalgia de nós mesmos que não somos bastante; sentimos falta da nossa grandeza impossível - minha actualidade inalcançável é o meu paraíso perdido.)"
Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H., Lisboa: Relógio D'Água, 2000, p. 121.
Wednesday, April 2, 2008
REGRESSANDO À ELUCIDAÇÃO SENSÍVEL
"- Um móvel com olhos, a isso não chama também um voyeur?
- Como queira. Todos os seres com dois dedos de cabeça são voyeurs, Harrison. Não sabia?
- Não. Devo ter entrado em demasiados filmes de acção. Confesso que sinto o meu velho sexo a agitar-se.
- Não duvido. Por que não vai falar àquela mulher, uma vez que a deseja? Até é possível que ela o tenha reconhecido e que queira fazer cinema.
- Sou atreito a uma razoável dose de cinismo, como todos os móveis envelhecidos pelo tempo e a desilusão, mas o senhor bate-me aos pontos. O senhor pensa realmente aquilo que acabou de dizer?
- Não. Prefiro pensar que ela é tão indiferente quanto bela. Deste modo ela integra-se melhor na paisagem, faz parte da grande natureza que nos vê passar, a nós, seres transitórios, com um magnífico desprendimento.
- Não acredita no que disseram os poetas sobre a comunhão romântica das almas condenadas e a matéria da compaixão?
- Não. Deviam estar com os nervos bastante à flor da pele para proferirem tamanhas inépcias.
- O que é que procura, então, nesta paisagem?
- Já lho disse. Uma elucidação sensível. A indiferença ou até a crueldade não excluem a beleza e a inteligência."
Michel Rio, O Princípio da Incerteza, Lisboa: Ed. Teorema, 1997, pp. 20-21.
Monday, March 31, 2008
SEGUNDA-FEIRA DE PASCOELA
"Em verdade, ele viveu em tempos de trevas.
Os tempos ganharam em luz.
Os tempos ganharam em trevas.
Quando a luz diz: Eu sou as trevas,
Disse a verdade.
Quando as trevas dizem: Eu sou
A luz, não mentem."
Heiner Müller, O Anjo do Desespero, trad. João Barrento. Lisboa: Relógio D'Água, p. 21.
Thursday, March 20, 2008
SEMANA SANTA 3
"Há quatro lendas sobre Prometeu. A primeira conta que, por ter traído os deuses junto dos homens, foi agrilhoado ao Cáucaso e os deuses enviavam águias que lhe iam comendo o fígado, que renascia sempre de novo.
A segunda conta que Prometeu, devido às dores provocadas pelos golpes dos bicos, se foi metendo cada vez mais pelo rochedo adentro até se fundir com ele.
A terceira diz que, ao longo dos milénios, a sua traição foi esquecida, que os deuses esqueceram, as águias também, e até ele próprio.
A quarta conta que todos se cansaram daquilo que se tornara sem fundo. Cansaram-se os deuses, cansaram-se as águias. A ferida fechou de cansaço.
Restou o inexplicável monte rochoso."
Franz Kafka, Parábolas e outros Fragmentos, selecç. e trad. João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 89.
Wednesday, March 19, 2008
SEMANA SANTA 2
"- Sou, como direi?, sou um homem religioso.
- No entanto...
- Claro, não acredito em nada disso... nessas coisas... imortalidade da alma... Deus, o barroco Deus teológico... o bem comezinho, o mal comezinho... Detestável, tudo isso, as crenças e virtudes da baixa religiosidade.
- Talvez creia - disse eu - que vida e morte se abram uma para a outra, se alimentem, mutuamente. Que seja cada uma delas uma espécie de duplo da outra. Se animem e, por assim dizer, se justifiquem e signifiquem entre si.
- Quer exprimi-lo desse modo? - as mãos traçam subtilmente um gesto de irónica concessão. - Talvez seja isso... Aos vinte e cinco anos fui viajar. Estive em muitos países. Vivi alguns anos em várias das maiores cidades do mundo. Valeu a pena. Não há raças nem países. O homem é estúpido. E precisa que o amem, precisa amar. Um pouco repugnante, não? Mas pode-se amá-lo, assim repugnante."
Herberto Helder, Os Passos em Volta, 9ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, p. 141.
Tuesday, March 18, 2008
SEMANA SANTA 1
"Se a palavra perdida perdida é, se a palavra proferida proferida é
Se a ensurdecida, emudecida palavra
Está emudecida, ensurdecida;
Inerte é a palavra emudecida, o Verbo ensurdecido,
o Verbo sem palavra, o Verbo dentro
Do mundo e para o mundo;
E fez-se luz nas trevas e
Contra o Verbo o mundo perturbado ainda rodopiava
Em torno do Verbo silencioso.
Ó meu povo, que fiz eu de ti."
(...)
Rogará a irmã velada por
Aqueles que caminham nas trevas, que te escolheram
e se te opõem,
Aqueles que se dilaceram no corno de entre estação e
Estação, tempo e tempo, entre a
Hora e a Hora, a palavra e a palavra, o poder e o poder,
Aqueles que esperam
Nas trevas? Rogará a irmã velada
Pelas crianças que junto aos portais
Se recusam a partir e não sabem rezar;
Rogará por aqueles que escolheram e se opõem
Ó meu povo, que fiz eu de ti."
T. S. Eliot, Quarta-Feira de Cinzas, trad. Rui Knopfli, Lisboa: Relógio D'Água, 1998, pp. 21-23.
Sunday, March 16, 2008
MAR DA TRANQUILIDADE
"Todo o meu ser se cala e escuta, quando o meigo sopro do ar me roça o peito. Perdido na azul distância, ergo muitas vezes o olhar para o éter e mergulho-o no mar sagrado, e é como se um espírito familiar me abrisse os braços, como se a dor da solidão se diluisse na vida divina."
Friedrich Hölderlin, Hipérion ou o Eremita da Grécia, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 23.
Sunday, March 9, 2008
AND DEATH SHALL HAVE NO DOMINION
"E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio."
Dylan Thomas, A Mão ao Assinar Este Papel, trad. Fernando Guimarães, 2ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 1998, pp. 39-39.
Thursday, March 6, 2008
LONG WAY TO RUIN
"Estou cansado...
Com as árvores entabulei conversas.
Com as ovelhas sofri os horrores da seca.
Com os pássaros cantei nas florestas.
Amei as raparigas da aldeia.
Ergui os olhos para o Sol.
Vi o mar.
Trabalhei com o oleiro.
Engoli o pó da estrada.
Vi as flores da melancolia no campo do meu pai.
Vi a morte nos olhos do meu amigo.
Estendi a mão para as almas dos afogados.
Estou cansado..."
Thomas Bernard, Na Terra e no Inferno, trad. José A. Palma Caetano, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000, p. 181.
Monday, March 3, 2008
TEMPOS DE MORTE, ESPERANÇA DE VIDA
(museu arqueológico, Istambul)
"A morte é um mal. Assim os deuses
o entendem. Se o não fosse,
também eles morreriam."
Safo, 67 (201 L-P), trad. Albano Martins, in O Essencial de Alceu e Safo, Lisboa: IN-CM, 1996, p. 56.
Saturday, March 1, 2008
IMPRESSÕES A POSITIVO
Está calada. Todos os sons frente ao seu olhar calado.
- não há alegria na criação de personagens. Digo: é contra a alegria: escrevo as palavras que prolongam a ausência, escrevo para continuar a morrer, para não acabar de morrer: eis a eternidade: a da voz que me usa e se distancia de mim. Nada percebo do que diz: sou o sítio de uma voz que me exclui. De vez em quando, esqueço-me. De vez em quando, lembro-me. Só a dor é vigilante. E o sono que me olha."
Rui Nunes, Grito, 2ª ed., Lisboa: Relógio D'Água, 1998, p. 42.
Thursday, February 28, 2008
QUE FAREI ?
"Que farei
quando já nenhum palheiro mendigar para a minha existência,
quando o feno arder em aldeias húmidas,
sem coroar a minha vida?
Que farei
quando a floresta crescer apenas na minha fantasia,
quando os regatos só já forem artérias vazias e lavadas?
Que farei
quando já das ervas não vier qualquer mensagem?
Que farei
quando estiver esquecido por todos, por todos...?"
Thomas Bernard, Na Terra e no Inferno, trad. José A. Palma Caetano, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000, p. 49
Sunday, February 24, 2008
PUXAR O MUNDO SOBRE MIM, COMO UM VÉU
Todo-o-Mundo
Só, senta-se debaixo de uma macieira
Hugo von Hofmannsthal, Jedermann (Todo-o-Mundo), trad. João Barrento, Lisboa: Livraria Estante Editora, 1986, p. 56
Thursday, February 21, 2008
LAMENTAÇÕES 3 E 4
"O silêncio é o que tememos,
Há um Resgate na Voz -
Mas Silêncio é Infinidade.
Não tem sequer uma face."
(Silence is all we dread.
There's Ranson in a Voice -
But Silence is Infinity.
Himself have not a face.)
2
"Suave como o massacre dos Sóis
Mortos pelos sabres do anoitecer."
(Soft as the massacre of Suns
By Evening's Sabres slain)
Emily Dickinson, 80 Poemas de Emily Dickinson, trad. Jorge de Sena, Lisboa: Ed. 70, 1979, pp. 142-145.
Tuesday, February 19, 2008
CIDADES VISÍVEIS, INFERNOS E OUTROS LUGARES CONFESSÁVEIS
"E já o Grão Kan folheava no seu atlas os mapas das cidades que nos ameaçam nos pesadelos e nas maldições: Enoch, Babilónia, Yahoo, Butua, Brave New World.
Diz - Tudo é inútil, se o último local de desembarque tiver de ser a cidade infernal, e é lá no fundo que, numa espiral cada vez mais apertada, nos chupará a corrente.
E Polo: - o inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe um lugar."
Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, trad. José Colaço Barreiros, 10ª ed., Lisboa: Ed. Teorema, 2006, pp. 165-166.
Friday, February 15, 2008
POUR REAL LIFE DOWN ON ME
Continuava à procura de algo, mas não ousava abrir os olhos diante das pessoas. Tinha momentos em que até o riso de uma criança eu temia."
Friedrich Hölderlin, Hipérion ou o Eremita da Grécia, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 64.
Wednesday, February 13, 2008
LAMENTAÇÕES 2
"J'ai perdu ma force et ma vie,
Et mes amis et ma gaieté;
j'ai perdu jusq'à la fierté
Qui faisait croire à mon génie.
Quand j'ai connu la Verité,
j'ai cru que c'était une amie;
Quand je l'ai comprise et sentie,
J'en étais déjà dégoûté.
Et pourtant elle est éternelle,
Et ceux qui se sont passés d'elle
Ici-bas ont tout ignoré.
Dieu parle, il faut qu'on lui réponde.
Le seul bien qui me reste au monde
Est d'avoir quelquefois pleuré."
Alfred de Musset, in Ripert, Pierre, Dictionnaire Anthologique de la Poésie Française, Paris: MaxiLivres, 1998, p. 159.
Sunday, February 10, 2008
LAMENTAÇÕES 1
"Trinta raios convergem para o meio
mas é o vazio do centro
que faz avançar o carro.
Molda-se a argila para fazer vasos,
mas é do vazio interno
que depende o seu uso.
Uma casa é fendida por portas e janelas,
é ainda o vazio
que a torna habitável.
O Ser dá possibilidades,
mas é pelo não ser que as utilizamos."
Lao Tse, Tao Te King, trad. António Melo, 6ª ed. Lisboa: Ed. Estampa, 2000, p. 23.
Saturday, February 9, 2008
OS OLHOS DAS CRIANÇAS
"Estes olhos vazios e brilhantes
que na criança se abrem para o mundo.
não amam,
não temem,
não odeiam,
não sabem como a morte existe.
São terríveis.
Porque a vida é isto.
O amor, o medo, o ódio, a mesma morte.
e este desejo de possuir alguém,
os aprendemos. Nunca mais olhamos
com tal vazio dentro das pupilas.
São terríveis.
Porque a vida é isto."
Jorge de Sena, Peregrinatio ad loca infecta, in Poesia-III, Lisboa: Ed. 70, 1989, pp. 64-65.
Friday, February 8, 2008
ELOGIO DA DISTÂNCIA (LOB DER FERNE)
"Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.
Aqui, coração
que andou entre os homens, arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:
Mais negro no negro, estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.
Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.
Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.
Na fonte dos teus olhos
um enforcado estrangula o baraço."
Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde - Antologia Poética, trad. João Barrento e Y. K. Centeno, 2ª ed., Lisboa: Ed. Cotovia, 1996, p. 13.












