Monday, June 16, 2025

SIGO A MARGEM

 




"Não, não tenho nos bolsos
punhado algum de terra
para firmar os dedos.

Sigo a margem do rio
e logo a água enche
o sulco das pegadas.
E sei assim que a margem
firme é só um momento
que não regressa, pois
a terra é logo água."


Manuel Amaral, Gente Terras Dia a Dia - poemas, Porto: Unicepe, 2003, p. 82.

Sunday, June 15, 2025

VELHA CASA

 


"Numa casa velha não moram só os seus habitantes vivos, mas também, e sobretudo, as almas dos que já partiram, deixando atrás de si um rasto invisível, que nos envolve como um nevoeiro."


Fernanda de Castro, Ao Fim da Memória - Memórias II [1937-1987], Lisboa: Editorial Verbo,  1987, p. 267. 

Saturday, June 14, 2025

ANTIGAS FLORES

 




"Revejo antigos lugares onde tudo parece imaginário; há desenhos
no asfalto, inscrições nas paredes. Receosas gentes passam e não
olham, perplexas ou esquecidas. Chamo a isto angústia, contorno
a tristeza, revejo antigas flores, habito lugares abandonados
e falo com alguma certeza, da loucura dos que evocam o mar.
Porque se escondem?
Subo e desço assim as escadas do teu sonho, não te solicito a presença,
nem o consentimento, pois sei que ávida desapareces no silêncio
das vidraças. Se explodes és o medo e esvoaceias num círculo de
cintilações; se me invocas és uma ave doente, incendiando espaços
estelares.
Podes partir, esgotar-se em lágrimas. Nunca te merecemos, somos o
vinho mortal com que adormeceste, as palavras que ninguém pôde
entender.
Quanto atravessas o destino premeditado das nossas mãos e me
esperas, falta-te a pureza, quero dizer, muita claridade.
Somos uma pequena aglomeração de coisas transparentes, quem nos
conhece, quem pode atravessar connosco a dor, erguê-la até ao fim
nessas cidades estranhas?"


Mário Rui Cordeiro, A Nau Eléctrica, Lisboa: Ulmeiro, 1984, p. 19.

MILAGREIRO

 


"No tempo que demorou em Pádua, saiu um dia Santo António a pregar fora de portas, e muito povo seguiu atrás dele para o ouvir. E, entre os mais, também havia uma senhora nobre que, ao passar num campo, empurrada da multidão, caiu no lodaçal.
No perigo de se ver para ali enlameada e estragado o vestido novo que trazia a estrear, humildosamente se encomendou a Deus e a Santo António. É que sobretudo temia-se das sanhas do marido, se fosse aparecer em casa com o vestido ensujado."


Livro dos Milagres ou Florinhas de Santo António de Lisboa, 2.ª ed, trad. Frei Fernando Félix Lopes, OFM, Braga: Editorial Franciscana, 2019, XXVII, p. 77.

Tuesday, June 10, 2025

O BOM JESUS

 



"Assim, o que é e onde está o rosto de Deus para aquele que acredita na sua presença real entre nós? A resposta é que encontramos essa presença em toda a parte, em tudo o que sofre e renuncia por causa de outro. Coisas com rosto são iluminadas pela subjetividade que neles brilha, e que espalha ao seu redor uma auréola de proibições."


Roger Scruton, O Rosto de Deus, trad. Marcelo Felix, Lisboa: Edições 70, 2023, pp. 213-214.

DIA DE PORTUGAL

 




"Se temos nove dez poetas
à escala europeia
ou só quatro ou mesmo talvez
com muito boa vontade três

aflige-me bastante menos
que o problema do Serra:

quantas queijeiras restam
fiéis à rude bordaleira?
para onde vai Portugal?"


Fernando Assis Pacheco, A Musa Irregular, 3.ª ed., Porto: Edições Asa, 1997, p. 203.

Sunday, June 8, 2025

PROCURA

 




"Procuro o lento cimo da transformação
Um som intenso. O vento na árvore fechada
A árvore parada que não vem ao meu encontro.
Chamo-a com assobios, convoco os pássaros
E amo a lenta floração dos bandos.
Procuro o cimo de um voo, um planalto
Muito extenso. E amo tanto
A árvore que abre a flor em silêncio."


Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 261.

DE SPIRITU SANCTU

 




"O Espírito Santo vivificador
tudo move e de tudo é raiz,
de toda a impureza purifica,
lavando máculas e ungindo feridas:
vida fulgente e digna de quem o louva,
suscita e ressuscita todas as coisas."


Hildegard von Bingen, Flor Brilhante, introd. e trad. Joaquim Félix de Carvalho e José Tolentino Mendonça, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 47.

OUTEIRO MAIOR

 


"O Condestável era pouco mais do que um pardieiro, com salas de tábua corrida cortadas pela invenção mais recente do corredor. O corredor, mobilado com grandes sofás de crina vindos de antigas mudanças para casas cada vez mais exíguas, correspondia a uma varanda interior sobre uma espécie de claustro ou pátio habitado por uma nogueira gigante. Há sempre uma árvore particular nas memórias duma pessoa triste."


Agustina Bessa-Luís, Antes do Degelo, 2ª ed. Lisboa: Guimarães Editores, 2004, p. 309. 

Saturday, June 7, 2025

CASA FEITA DE PEDRAS

 


"14. Permiti, portanto, que eles escapem a esta pena, e ponderai fugir vós mesmos. Entretanto, deixai-os alcançar a coroa que lhes está destinada. Não temais. Não vão separar-se de vós, mas antes preparar-vos no céu cintilantes moradas, nas quais viverão justamente convosco e com os vossos filhos em perpétuo regozijo. Se eles vos afastam da vossa casa feita de pedras, quanto mais não vos deve incitar a beleza daquelas casas, onde existem radiosas salas de ouro puro, que têm leitos feitos de pedras preciosas e pérolas? Ali a flor das purpúreas rosas jamais murcha; ali os bosques floridos desabrocham em perpétua exuberância: ali os tenros prados são sempre banhados por rios de mel; ali a vegetação rescende a flor de açafrão e os nutritivos campos são incomensuravelmente ricos em encantadores perfumes. Ali respiramos as brisas que carregam a vida eterna; ali há uma luz sem sombra, uma serenidade sem névoa, e os olhos desfrutam do dia sem as trevas da noite."


«Paixão de São Sebastião e companheiros», in Maria João Toscano Rico, São Sebastião - Santos e Milagres na Idade Média em Portugal (Textos da Antiguidade Tardia e Alta Idade Média), volume 4, Lisboa: Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2013, p. 32. 

Friday, June 6, 2025

O OURO

 



"António (A ferver; ciúme) - O ouro é mais bonito, não é?...

Joana (Provocante.) - E é. Mil vezes, cem mil vezes mais bonito... É sim senhor!

Rita - E mais rico. Mais rico que é que ele é! Feio, o meu António? Oiçam isto, amigas, oiçam isto...

Joana - Feio, feio, feio como os sapos da terra! Todos os homens são feios, todos são ruins como a peste... Deles, até o cheiro envenena!..."


Bernardo Santareno, O Crime de Aldeia Velha, Ato I, cena V, 3.ª ed., Lisboa: Edições Ática, 1970, p. 34.

Thursday, June 5, 2025

ATAVISMO

 



"Custódia - E olha que os homens...

Rita - Ora, ora! os homens são outra coisa: são machos... Toda a vida assim foi: acham a terra macia e pronto! botam logo a semente...Sempre foi assim. Mas elas! elas é que são..."


Bernardo Santareno, O Crime de Aldeia Velha, Ato I, cena III, 3.ª ed., Lisboa: Edições Ática, 1970, p. 20.

Tuesday, June 3, 2025

GNOSE

 


"O conhecimento de Deus é um conhecimento vivido. É um conhecimento que exige a participação  do corpo chamado pela água, pelo vinho, pelo gesto ou pelo óleo: qualquer coisa de sensível que nos faz participar de qualquer coisa de absoluto."


António Alçada Baptista, Peregrinação Interior, vol. I, 8.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1999, p. 179. 

Sunday, June 1, 2025

MENINO

 




"O menino tem um arco.

É de plástico.

(Mas é de ouro
ou de ferro
ou de prata
- quem o sabe?)

E com ele
o menino colhe flores
e estrelas e algas
da funda claridade.
Nunca pássaros.

Esses pousam no arco
enquanto o menino dorme
sob as árvores,
como um guerreiro cansado."


Glória de Sant'Anna, Amaranto - Poesia 1951-1983, Lisboa: INCM, 1988, p. 116.

Saturday, May 31, 2025

ABAIXO DE DEUS


 
"Abaixo de Deus são os Poetas, que têm criado o mundo, porque, no mundo que existia antes deles, não valia a pena viver. Criaram o amor, que era uma bestialidade e que não existia; a paisagem, o céu, a natureza, tudo que é belo e que não existe; a vida enfim, a vida, esplêndida e dramática - que não realidade não existe. O que existe é atroz. Todos os vestidos do universo os devemos aos Poetas; toda a vida artificial, com que conseguimos dominar a realidade, a que devemos aos Poetas, e se fosse possível despir a alma (não é) de tudo o que os grandes sonhadores têm inventado, a vida seria horrível e mais nos valia morrer. Esteja o amigo certo de que morríamos de dor e de espanto."

Raul Brandão, «Incoerentes Versos de Eduardo Miranda», in A pedra ainda espera dar flor - Dispersos 1891-1930, org. Vasco Rosa, Lisboa: Quetzal, 2013, p. 192. 

UNIVERSO ÍGNEO

 


"Para se ser grande é preciso sempre sofrer-se. É esta a maneira simples de entendermos o universo ígneo. Não ter nada, nem possuir nada. Ser mais pobre que os pobres e ter uma alma em fogo. Que pintor não daria um Santo - um daqueles homens nus como as ervas, escondidos nas lapas, sozinhos, com a montanha; criaturas que tanto amavam a natureza, que ao enxergá-la larga, gigântea, doirada, não podiam suster as lágrimas e que dormiam com a tábua do peito de encontro à terra, para lhe sentirem pulsar o coração! Homens que tinham em si amor para repartirem com tudo o que existe - ou seja, estrelas ou calhaus."


Raul Brandão, «Júlio Ramos», in A pedra ainda espera dar flor - Dispersos 1891-1930, org. Vasco Rosa, Lisboa: Quetzal, 2013, p. 182. 

Friday, May 30, 2025

FRUTO SOLAR

 



"Um fruto solar anunciado
numa operária que trabalha no amor.

Um que rompe a terra após a chuva
e de novo lhe cai. Amargo arado.

Fruto solar. De sol e cálcio.
Alcalino até ao coração.

O tanque resumido. Ou corpo húmido.
Toda a luz cabe numa boca

de limos, de volume. Espaço clar
e habitado em rio na garganta.

Um fruto, um claustro anunciado
num corpo de operário em combustão."


Nuno Guimarães, Entre Sílabas e Lavas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2024, p. 47.

Thursday, May 29, 2025

ANIVERSÁRIO


 
"Assim, eu acho que há ostras e depois há as pérolas, boas ou más. Aceitar do homem uma ideia ou um retrato é um logro em que cai a nossa ingenuidade. Homem é uma coisa que só se decide à hora da morte de cada um. A gente tem que ir olhando para as pessoas como quem espia para um pátio duma prisão a ver como se comportam os diferentes prisioneiros e, às vezes, há um que salta o muro. Porque raros são aqueles que conhecem a lei e, conhecendo-a, a aceitam ou a enfrentam."


António Alçada Baptista, Peregrinação Interior, vol. I, 8.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1999, p. 65.

Tuesday, May 27, 2025

O GÉNERO HUMANO


 

"O género humano é mais ou menos isto: um imenso viveiro de ostras, onde umas dão pérolas e outras poderiam tê-las dado."

 

António Alçada Baptista, Peregrinação Interior, vol. I, 8.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1999, p. 64. 

Sunday, May 25, 2025

REPOUSO EXTERIOR


 
"Seguro então a vida em pleno
solo. Aí me deito
com os sinais perpétuos: árvores,
bosque, sombra, a permanência
de objectos olhados ou suspensos.
Agora, a outra lei - extractos
de sol sobre a retina - cede. Ao fácil

vento, à comoção do ar
pensado, onde se vive. Deste lugar os
elementos se afastam. Estão mortos,
inactivos no foco. Ou pela sombra
gravados, suspensos de algum livro.
Criaram-se da luz! São objectos
perecíveis: na imprecisão
da imagem, no seu repouso
exterior - entre a ciência e a vista."


Nuno Guimarães, Entre Sílabas e Lavas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2024, p. 89.