Tuesday, September 1, 2026

EX MACHINA

 


"A voz dele ergueu-se apaixonadamente.
- A mãe não é capaz de ver, nenhum de vocês, conferencistas, é capaz de ver que somos nós que estamos a morrer, e que aqui em baixo a única coisa verdadeiramente viva é a Máquina? Nós criámos a Máquina para que cumprisse a nossa vontade, mas agora não conseguimos que tal aconteça. Ela tirou-nos a noção de espaço e o sentido do tacto, obscureceu todas as relações humanas e reduziu o amor a um acto carnal, paralisou os nossos corpos e as nossas vontades, e agora obriga-nos a idolatrá-la. A Máquina desenvolve-se, mas não segundo as nossas orientações. A Máquina avança, mas não rumo aos nossos objectivos. Nós só existimos enquanto glóbulos sanguíneos que percorrem as nossas artérias, e se ela pudesse funcionar sem nós, deixar-nos-ia morrer. Oh, eu não tenho alternativa... à excepção de uma, a de contar repetidamente às pessoas que vi os montes de Wessex como o rei Alfredo os viu ao derrotar os dinamarqueses."


E. M. Forster, «A Máquina Pára», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, pp. 40-41. 

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