"Coleccionava pormenores singulares
da linguagem: a presença do sujeito,
a exuberância do verbo,
a descrição da paisagem
Perdia-se em figuras de estilo
quando entrava no interior de cada livro,
recolhendo os lugares desabitados
nas palavras ambíguas, indecisas,
quase misteriosas.
Analisava as modulações de cada sílaba,
reescrevendo-a sobre a pele.
De tanto procurar, colou-se-lhe ao corpo
o equívoco de uma sombra impessoal
que não reconhecia como sua."
Graça Pires, «A solidão é como o vento», in Poemas Escolhidos [2012-2025], Lisboa: Poética Edições, 2026, p. 135.
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