Friday, September 11, 2026

ANDARILHOS

 



"Decorridos alguns segundos, que pareceram longuíssimos, Pessoa interrogou-nos com a distraída vacuidade de um gesto. Logo porém, e agora de viva voz, continuou o que lhe iria dentro e, evidentemente, sem de mim esperar qualquer espécie de resposta.
- Sabe, inspector? É essa gente turística que vai ao Louvre, onde, como presumo que o senhor não ignora, eu nunca fui. Incapazes de reflectir, esses andarilhos do simplesmente ver para dizerem aos outros que já viram, olham fatalmente a mobilidade oculta da estátua-enigma e limitam-se a lhar. Vêem que ela tem partidos os braços, que é como quem diz, que ela não tem braços. Só que tal rebanho não goza da capacidade para se interrogar, e eu pergunto-me qual na verdade seria, pela orientação dos cotos, o sentido exacto do seu gesto."


Fernando Luso Soares, O Poeta Era um Fingidor, Lisboa: Edições Cosmos, 1999, p. 26.

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