Tuesday, December 31, 2013

NA DIVINA HORA DE NADA ESPERAR



"Quando a lua se envolve em túnica ligeira
E um alado segredo no ar fragrante ondeia, 
De Artemisa é a noite virgem e alta. Suave. 
Serenamente cheia de intacta novidade. 

No tempo isento escorre o sentimento casto
De terra e céu fundidos num delírio ermo e vasto, 
Sob um pudor de estrelas que tremem se as olhamos, 
Cai uma folha e fremem delicados os ramos. 

Alta e branca Artemisa entra no mar e desata 
A trança. Boiam na água seus cabelos de prata:
E a sombra num odor branco por jasmins a brotar
Escorre para os brilhos silenciosos do mar. 

Sem peso os pensamentos seguem inefáveis cursos
Que a brisa traz de um bosque interdito aos impuros. 
De leve quer voar a noite e só suspende
O seu voo uma haste de avencas que a prende. 

Alvo silêncio a lua impõe à treva e airosas
Nesse halo dançam fadas encantadas em rosas;
E tudo docemente vai para os termos divinos
De uma paz final. Sonho? Ou sonhada me sinto?

Ecoam no infinito cristais e nesse acorde
Minha alma é uma virgem prometida ao licorne. 
Ó sozinha e divina hora de nada esperar!
Apenas caem pérolas diáfanas do luar."


Natália Correia, Antologia Poética, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002, pp.224-225.

A ETERNIDADE



"A Eternidade é o sepulcro em que repousam as horas mortas. A Eternidade é a sombra do tempo - o tempo estagnado em abismáticas funduras. 
E o tempo é a Eternidade viva, a Eternidade em acção dramática e corpórea."


Teixeira de Pascoaes, O Bailado, Lisboa: Assírio & Alvim, 1987, p. 53. 

Monday, December 30, 2013

IMPRESSÃO (SERVINDO AINDA DE HOMENAGEM A WOJCIECH KILAR)



"- Há qualquer coisa nela que repugna - disse a irmã mais velha, cujo vocabulário agressivo era inexistente. Quando se dava ao trabalho de censurar alguém, limitava-se a chamar-lhe "uma pessoa de critério". Chamara assim a sogra odiosa, a quem devia vexames imperdoáveis e que a levara à beira da loucura.  - Tudo nela tem um ar sinistro, a começar pela beleza. - Acha-a assim bonita? - disse a irmã mais nova, tocada por um pressentimento de animal doméstico que vê o seu território invadido. - Não sei bem explicar... A beleza dela confunde-se com uma espécie de génio."


Agustina Bessa-Luís, Vale Abraão, 5ª ed. Lisboa: Guimarães Editores, 2005, p. 20. 

Sunday, December 29, 2013

O DESCONSERTO



"«Diz que não fala inglês», disse a Srª Nur, a minha bela tradutora. O presidente tinha falado e desviado o olhar.«Prefere falar em turco, embora fale consigo em alemão ou italiano.»
«Va bene», disse eu. «Allora, parliamo in italiano. Ma dove imparava questa lingua?»
O presidente dirigiu-se à Srª Nur em turco. 
«Diz ele: "Fala alemão?"»
«Não muito bem.»
O presidente disse mais qualquer coisa. 
«Ele falará em turco.»
«Pergunte-lhe o que é que ele faz. É escritor?»
«Essa», disse o homem através da Srª Nur, «é uma pergunta sem sentido. Uma pessoa não pode dizer em poucas palavras o que faz ou o que é. Isso leva meses, por vezes anos. Posso dizer-lhe o meu nome. Mais do que isso tem de descobrir por si.»
«Diga-lhe que dá muito trabalho», disse eu, e afastei-me."


Paul Theroux, O Grande Bazar Ferroviário, trad. José António Freitas e Silva, Lisboa: Quetzal, 2011, pp. 69-70. 

Saturday, December 28, 2013

VER


"Vivemos, porque os nossos olhos encarceraram as cousas e os seres em pequenas formas limitadas. Que seria de nós se as víssemos nos seus aspectos verdadeiros? A presença de uma árvore petrificar-nos-ia, de repente!Vivemos, porque os nossos olhos dão às cousas uma aparência banal e familiar. Se pudéssemos ver a nossa dor! Desvanescer-se-ia por encanto. Nada resiste ao fogo visionário que lampeja nas pupilas. Os desertos e as ruínas - uma obra dos nossos olhos, não do tempo. Os astrónomos, espreitando as regiões celestes, afugentaram os anjos e os deuses. O telescópio é que matou o Paganismo e converteu o Infinito num deserto.O que descobrimos do mundo é o que resta do seu desencanto, ao ser contemplado pelos homens; - os escombros dum incêndio."

Teixeira de Pascoaes, O Pobre Tolo, in Obras Completas, IX, Amadora: Livraria Bertrand, 1973, p. 120. 

Friday, December 27, 2013

SAIR



"Aqueles apitos cantavam fascínio: os caminhos-de-ferro são bazares irresistíveis, a serpentear perfeitamente equilibrados e independentes da paisagem, melhorando o nosso estado de espírito com velocidade e nunca perturbando a nossa bebida."

Paul Theroux, O Grande Bazar Ferroviário, trad. José António Freitas e Silva, Lisboa: Quetzal, 2011, p. 23. 

Thursday, December 26, 2013

DIA FRIO



"A ave que faltava ao dia
para que anoitecesse
em teus olhos seu voo principia
sobre meus olhos desce. 

São suas asas ou tuas pálpebras
o que em teus lábios roças?
Ou só o frio, frias lágrimas
numa face que é nossa?"


José Bento, Silabário, Lisboa: Relógio D'Água, 1992, p. 237. 

Wednesday, December 25, 2013

À NOITE DE NATAL




"Era noite de inverno longa e fria, 
Cobria-se de neve o verde prado;
O rio se detinha congelado, 
Mudava a folha cor, que ter soía. 

Quando nas palhas duma estrebaria, 
Entre dous animais brutos lançado, 
Sem ter outro lugar no povoado
O Minino Jesus pobre jazia. 

- Meu filho, meu amor, porque quereis
(Dizia Sua Mãe) nesta aspereza 
Acrescentar-me as dores que passais?

Aqui nestes meus braços estareis;
Que, se Vos força amor sofrer crueza, 
O meu não pode agora sofrer mais."


Frei Agostinho da Cruz, Poesias Selectas, 2ª ed., Porto: Editorial Domingos Barreira, s.d., pp. 41-42. 

Tuesday, December 24, 2013

LADAINHA PARA QUALQUER NATAL



"Não seja esta noite, agora e sempre, 
Igual às outras noites. 
Não seja esta noite, agora e sempre, 
Igual às outras noites:
Tumba de carne viva em ódio amortalhada, 
Anunciando sangue e pranto e morte. 
Não seja esta noite, agora e sempre, 
Igual às outras noites. 
Que esta noite não seja para sempre
De fome pra lá de tantas portas
Como flor viçosa em campa rasa. 
Que esta noite não seja para sempre
De amor vendido a horas mortas
E o pudor lembrando e a raiva queimando. 

Não seja esta noite, agora e sempre, 
Igual às outras noites. 
Não seja esta noite, agora e sempre, 
Igual às outras noites:
Chaga aberta, como rubra flor de pesadelo, 
Escorrendo sangue e pranto e morte. 
Não seja esta noite, agora e sempre, 
Igual às outras noites. 
E seja para sempre esta noite
Cheia de graça na terra dos homens. 

Assim seja"


Tomaz Kim, Obra Poética, Lisboa: IN-CM, 2001, p. 248. 

Monday, December 23, 2013

ANTEVÉSPERA



"Para que pedir às noites sem fim o mistério, 
e à infância que passou a saudade, 
e ao teu corpo virgem a poesia?

Para que tentar ouvir no vento um apelo, 
e no futuro uma esperança
e no teu amor a resignação?

Para quê? - Se um silêncio implacável
não tardará a cair sobre os homens!"


Tomaz Kim, Obra Poética, Lisboa: IN-CM, 2001, p.135. 

Sunday, December 22, 2013

O INVERNO



"Agora que já é inverno (ah! Dezembro, 
tão culpado de nostalgia) temo, Senhor, 
que os teus olhos já não sejam crédito 
dos meus dias nem destes versos. O amor, 

que de todas as nossas aflições poderá ser
a mais inesquecível, a brisa amarga que nos perdoou
a vida. Em Deus ou na morte ou noutra matéria
tão insubstancial encontrarei

a desculpa volúvel da minha escrita. 
Temo, Senhor, que a sombra dos teus caminhos
já só me seja calma. Aceita, canção, 
que salva do desejo, te salves da mágoa."


José Alberto Oliveira, O Que Vai Acontecer?, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 28. 

SOLSTÍCIO



"Assim o sábio Deus nos concede algum sentido da profecia mas não demasiado; tal como o faz com os pássaros que sentem a chegada do Inverno mas não a noite gelada que os fará tombar dos ramos."

Mary Renault, O Jovem Persa, trad. Mário Avelar, 2ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 336. 

Saturday, December 21, 2013

ANIVERSÁRIO



"Tudo é sabido onde
alguma coisa fala de si própria
e de falar de isso
e de falar de falar. 

Aquilo que está cada vez mais longe, 
a pura falta de coisa nenhuma, 
é o que Conhece e É
a sua indizível inexistência. 

Nós, os maus, onde 
é fora de fora de tudo, 
eternamente regressamos
ao sítio de onde nunca saímos."


Manuel António Pina, Todas as Palavras, 3ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 2013, p. 86. 

Friday, December 20, 2013

MARINHA



"Os homens e as mulheres
adormecidos na praia
que nuvens procuram 
agarrar?

No sono das mulheres
cavalos passam correndo
em ruas que soam 
como tambores.

Os homens têm espelhos de bolso
onde os gestos das amadas
(as amadas demoradas
se repetem). 

Vi apenas que no céu do sonho
a lua morta já não mexia mais."


João Cabral de Melo Neto, Pedra do Sono, in Poesia Completa, Lisboa: IN-CM, 1986, p. 448. 

Thursday, December 19, 2013

EXTREMIDADES



"Agora tu e eu somos cada um
em si
e na medida em que paramos
nas extremidades do tempo
vemos reaparecer o perfil do futuro
alguém diz: «A paixão
é o predador e a vítima, 
o amor é um espelho no deserto»"


Laureano Silveira, Os Secretos Felinos, Porto: Limiar, 1991, p. 32. 

Wednesday, December 18, 2013

TAPETE D' ÁGUA


"Num tapete de água
vou bordando os meus dias, 
os meus deuses e as minhas doenças. 

Num tapete de verdura
vou bordando os meus sofrimentos vermelhos, 
as minhas manhãs azuis,
as minhas aldeias amarelas e os meus pães de mel amarelos também. 

Num tapete de terra
vou bordando a minha efemeridade. 
Nele vou bordando a minha noite
e a minha fome, 
a minha tristeza
e o navio de guerra dos meus desesperos, 
que vai deslizando p'ra mil outras águas, 
para as águas do desassossego, 
para as águas da imortalidade."


Thomas Bernhard, Na Terra e no Inferno, trad. José A. Palma Caetano, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000, p. 125. 

EFÉMERO


"Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade
E é como se agora este pobre, este único, este efêmero instante do mundo
Estivesse pintado numa tela, sempre..."


Mário Quintana, A cor do invisível, Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p. 66. 

Tuesday, December 17, 2013

A COR (HOMENAGEM A MAGRITTE)



"O seu único defeito foi o de insuflar-me durante algum tempo um cinismo desabusado pelas coisas do amor, que, dada a minha idade e a minha experiência, devia parecer mais divertido do que impressionante. Eu repetia muitas vezes para mim certos conceitos lapidares, entre outros este, de Oscar Wilde: «O pecado é a única nota de cor viva que subsiste no mundo moderno.» Tornava-o meu com absoluta convicção, mais segura ainda, penso, do que se o tivesse posto em prática. Acreditava que a minha vida se poderia fazer sobre esta frase, inspirar-se nela, brotar dela como uma perversa imagem de Épinal: esquecia a morte do Tempo, a descontinuidade, os bons sentimentos quotidianos. Em imaginação criava uma vida de baixezas e de torpezas."


Françoise Sagan, Bom Dia Tristeza, trad. Maria da Graça Azambuja, Lisboa: Ulisseia, 1954, pp. 39-40. 

Monday, December 16, 2013

HOMENAGEM A MANET ("LE BALCON")



"Para nós, como para outros fugitivos, 
Como as inúmeras flores que não sabem contar
E todos os bichos que não precisam de lembrar, 
É no presente que estamos vivos."


W.H. Auden, Outro Tempo, trad. Margarida Vale de Gato, Lisboa: Relógio D'Água, 2003, p. 119. 

Sunday, December 15, 2013

RUMO



"A este sentimento desconhecido, cujo tormento, cuja doçura me obcecam, hesito em pôr o nome, o belo e grave nome de tristeza. É um sentimento tão completo, tão egoísta, que quase me envergonho dele, uma vez que sempre considerei a tristeza um tanto convencional. Não a conhecia ainda; mas somente o tédio, a pena e raramente o remorso. Hoje sinto-a envolver-me, enervante e doce como uma seda, a separar-me dos outros."


Françoise Sagan, Bom Dia Tristeza, trad. Maria da Graça Azambuja, Lisboa: Ulisseia, 1954, p. 19.