Tuesday, June 23, 2026

HALLUCINADO

 



"Cancei-me de tentar o teu segredo;
No teu olhar sem côr, - frio escalpello, -
O meu olhar quebrei, a debatel-o,
Como a onda na crista d'um rochedo.

Segredo d'essa alma, e meu degredo
E minha obcessão! Para bebel-o,
Fui teu labio oscular, n'um pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, hallucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
D'esse entreaberto labio gelado...

D'esse labio de mármore, discreto,
Severo como um tumulo fechado,
Sereno como um pelago quieto."


Camilo Pessanha, Clepsydra, ed. Paulo Franchetti, Lisboa: Relógio D'Água, 1995, p. 85.

No comments: