Sunday, December 23, 2007

A SABEDORIA DAS SOMBRAS



"Sabe-o melhor do que nós,
a gata, entre livros e livros
que terá a sorte de não ler.
Aproxima-se, não tem pressa,
vem-nos recordar que estamos
vivos - menos felizes, mas vivos -
à mercê de um verso, da sombra
pálida dos livros, da música
contrária à evidência de haver mundo."


Manuel de Freitas, Blues for Mary Jane, Lisboa: & etc, 2004, p. 37.

Friday, December 21, 2007

DRINK UP SWEET DECADENCE


"The voice of God is full of draughtiness,
Promising simply the hard stars, the space
Of immortal blankness, between stars
And no bodies, singing like arrows up to heaven."



(A voz de Deus está cheia de correntes de ar,
prometendo apenas as estrelas fixas, o espaço
da desolação imortal entre as estrelas
e sem corpo, cantando como flechas erguidas para o céu)


Sylvia Plath, Pela Água, trad. Maria de Lourdes Guimarães. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000, pp. 58-59.

Monday, December 17, 2007

O NATAL DOS POBRES



"Da matéria tem nascido à custa de gritos, de fibras torcidas, o imorredoiro espírito. Através das idades ele se criou, através da dor veio surgindo. O mundo espiritual é já hoje mais vasto que o mundo material. A dor é primavera da vida. Para se entrar na vida ou para se entrar na morte há sempre gritos. A dor ara o céu cheio de estrelas e os seres humildes."


Raul Brandão, Os Pobres. Lisboa: Ed. Comunicação, p. 229.

Wednesday, December 12, 2007

MUNDO MISTERIOSO, CHEIO DE GRITOS

"Para se criar é preciso sofrer. Hoje e sempre só a dor é que dá vida às coisas inanimadas. Com um escopro e um tronco inerte faz-se uma obra admirável, se o escultor sofreu. Mais: com palavras, com sons perdidos, com imaterialidades, consegue-se esse milagre: fazer rir, fazer sonhar, arrancar lágrimas a outras criaturas. Com as simples e secas letras do abecedário, um desgraçado com génio, metido numa água-furtada, edifica uma coisa eterna, uma construção mais sólida e mais bela do que se fosse arrancar os materiais ao coração das montanhas.
O que é então a dor, milagre extraordinário que consegue dar vida às fragas? o que é esse assombroso fluido, que se comunica, alma arrancada da própria alma e que se pode repartir como pão? Nunca houve sob o sol criatura que sofresse da verdadeira dor, cujo sofrimento não consolasse ou salvasse. Até as mais humildes, ainda depois de mirradas vão aquecer e alumiar os pobre.
A dor dá a vida e não é a própria vida: cria, redime, obra prodígios e nada há que se comunique, que convença, que torne os homens irmãos como ela..."


Raul Brandão, Os Pobres, Lisboa: Ed. Comunicação, 1984, pp. 77-78.

Monday, December 10, 2007

REGRESSO ÀS COISAS DISTENDIDAS DE PRESENTE



"Regressa morte
às coisas distendidas de presente
morre a tensa presença
do regresso
morde o sangue dos objectos
a distensão dos dentes
o presente sangrar dos que regressam
a objectiva em riste dos desígnios
regressa
com as coisas imensas dos que sangram
com o presente vivo dos perigos
as feridas do mar o indistinto
distende os olhos dos vivos
estende na terra o olhar inútil dos mortos
o hálito livre dos mortos
regressa morta
à pele mordida de noites e perigos
regressa
e morre"


Gastão Cruz, "A morte percutiva" in Orgão de Luzes - Poesia Reunida, Lisboa: IN-CM, 1990, p. 26

Saturday, December 8, 2007

NA BOA NOVA DE NOBRE, LENDO RÉGIO



"Nuvens tocadas pelos ventos, ide!
Lá para além de vós, o céu não passa.
Contra as rochas erguidas e paradas,
Desfazei-vos na vossa eterna lide,
Ondas!, flocos de espuma encrespadas...

Que a praia, não há onda que a desfaça...

Desfolhai-vos nas asas do tufão,
Rosas inda em botão esta manhã,
Folhas aos ventos troncos arrancadas!
Cinzas levais, só cinza!, em vossa mão,
Tempestades futuras e passadas!

Sobre a semente, a vossa fúria é vã.

Decorrei, dias meus já sem sentido
Senão o de ficar, que não é vosso.
Dissolvei-vos no ar, mãos revoltadas!
Gestos, formas, visões, sons, pó erguido,
Voltai ao pó das tumbas ignoradas!...

Que não se apaga a luz de além do poço.

(...)"


José Régio, "Mas Deus é Grande", in Não Vou Por Aí - Antologia Poética, selecç. Isabel Cadete Novais, 3ª ed. Vila Nova Famalicão: Quasi Edições, 2001, p. 116.

Sunday, December 2, 2007

DO ALTO DA TUA INATINGÍVEL CONDIÇÃO


"Ninguém morrera ainda tanto como eu
só tive de estender um pouco mais o corpo
Sobre o meu rosto passam uma a uma as gerações
e vem lavar-me a água os velhos pés
E diz-me Deus, tão acessível como o mar nas praias:
- Tu és cada vez mais aquilo que tu és

Há entre as oliveiras sítio para o sol
e a brisa da infância canta rindo nos ramos
entre o cheiro do giz e as canções da escola

Deus é perto de mim como uma árvore"


Ruy Belo, "Figura Jacente", in O Problema da Habitação - Alguns Aspectos. Lisboa, ed. Presença, 4ª ed., 1997, p. 54.

Friday, November 30, 2007

PRECIPÍCIOS



"As imagens gastas de tão lidas
e os sofisticados lugares comuns da poesia
colam-se-te à pele - incómodo trajo do bom senso
e do bom gosto que repudias.
Vil chegada do que amaste, e que agora recordas.

A poesia faz-se contra o esquecimento?
Melhor seria dizer, contra a memória se faz a poesia.

Sem a arruinada ponte não há precipício?
O que conta é o precipício além da arruinada ponte."


Luís Quintais, Angst, Lisboa: Cotovia, 2002, p. 38.

Saturday, November 24, 2007

CORPO DA NOITE


"Ó noite onde as estrelas mentem luz, ó noite única do tamanho do Universo, torna-me, corpo e alma, parte do teu corpo, que eu me perca em ser mera treva e noite também, sem sonhos que sejam estrelas em mim, nem sol esperado que ilumine do futuro."


Bernardo Soares, Livro do Dessassego, 280, ed. Richard Zenith, 5ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 2005, p. 271.

Saturday, November 17, 2007

PASSOS MEDIDOS ATÉ À PONTE



"Inseparável do medo é a queda,
Medo é mesmo do vazio o sentimento.
Quem nas alturas nos atira a pedra,
Rejeitando ela o jugo do momento?"


Ossip Mandelstam, Guarda Minha Fala Para Sempre, trad. Nina Guerra e Filipe Guerra, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996, p. 121.

Tuesday, November 13, 2007

O OBSCURO, NOVAMENTE COM TRONCOS DEVASTADOS



II.
"Pois deixa as solidões ganhar tamanho,
retira-te de tudo o que comece,
engrossa nas pastagens o rebanho
que a terra enegrecida já escurece.

(...)
Aqui fala o obscuro, nunca o vimos,
primeiro nos soergue e só nos mente,
mas - sonhos, praga ou bênção que sentimos -
deixa tudo intocado humanamente"


Gottfried Benn, "50 Poemas", trad. Vasco Graça Moura. Lisboa: Relógio D'Água, 1998, p. 67.

Friday, November 9, 2007

OBSERVANDO O TRONCO E VENDO O ROCHEDO



"Há rochedos que são estátuas misteriosas.
Nós vemo-los, além, nas serras arenosas,
Desenhados na tela em brasa do sol-pôr...
Ó frontes que enrugou e empederniu a dor!
Há rochedos que são perfis extraordinários.
Alguns, ao vir da lua, evocam os calvários.
Este, lembra dum Deus o mutilado torso;
(...)"

Teixeira de Pascoaes, Vida Etérea, Lisboa: Assírio & Alvim, 1998, p. 167.

Friday, November 2, 2007

À BOCA DO POÇO - OFÍCIO DOS MORTOS 2

"Às vezes, até a morte pode ser
condescendente: à boca do poço
pára o cavalo, não chega a desmontar,
mas consente que te demores
a contemplar as águas negras,
o rebanho de chocalhos distantes,
as macieiras perto,
os seus frutos estranhamente acesos."


Eugénio de Andrade, "Rente ao Dizer", in Poesia, 2ª ed. revista. Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005, p. 477.

Thursday, November 1, 2007

DEMONOLOGIA 1 EM NOITE DE TODOS-OS-SANTOS

"Mas afinal quem é o senhor? Porque está assim mascarado?"
"Respondo, numa só resposta, às suas duas perguntas: não estou mascarado."
"Como?"
"Minha senhora, eu sou o Diabo. Sim, sou o Diabo. Mas não trema nem se sobressalte."
E num relance de terror extremo, onde boiava um prazer novo, ela reconheceu, de repente, que era verdade.
"Eu sou de facto o Diabo. Não se assuste, porém, porque eu sou realmente o Diabo, e por isso não faço mal. Certos imitadores meus, na terra e acima da terra, são perigosos, como todos os plagiários, porque não conhecem o segredo da minha maneira de ser. Shakespeare, que inspirei muitas vezes, fez-me justiça: disse que eu era um cavalheiro. Por isso esteja descansada: em minha companhia esté bem. Sou incapaz de uma palavra, de um gesto, que ofenda uma senhora. Quando assim não fosse a minha própria natureza, obrigava-me o Shakespeare a sê-lo. Mas, realmente, não era preciso."


Fernando Pessoa, A Hora do Diabo, ed. Teresa Rita Lopes, 2ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 45.

Sunday, October 28, 2007

A PAR DA ESTAÇÃO DA ALEGRIA


"Tu, homem, estás no umbral da vida, e percebem-se os teus frios olhos que olham para longe, ouve-se o pulsar do teu coração que deseja e aborrece com igual veemência, escuta-se a tua respiração resfolegante de fera que está prestes a arremessar-se.
Mas, à hora da espera, sucede a hora da impaciência. A nave agita-se sobre o espelho das águas e faz gemer as amarras que a retêm à terra - o cavalo escarva e estremece e estica o focinho para o prado, que cheira; para o campo que ondeia..."


Giovanni Papini, "Os Conselhos de Hamlet", in Palavras e Sangue, trad. Mário Quintana. Lisboa: Livros do Brasil, p. 164.

Sunday, October 21, 2007

RETÓRICA DUBITATIVA



"Acaso morremos e só na aparência estamos vivos,
nós, os gregos, caídos em desgraça,
imaginando que a vida é um sonho?
Ou estamos vivos e foi a vida que morreu?"

Páladas


in Do mundo Grego Outro Sol, selecç. e trad. Albano Martins, Porto: Ed. Asa, 2002, p. 78

Thursday, October 18, 2007

ANGELOGRAFIA 4, PENSANDO NO OCEANO E NOUTRAS ÁGUAS

"Ora existe em Jerusalém, junto à porta das Ovelhas, uma piscina chamada em hebraico Bezatha, que tem cinco pórticos. Nestes, jazia uma multidão de enfermos, cegos, coxos, paralíticos, que esperavam o movimento da água, porque o Anjo do Senhor descia, de tempos a tempos, à piscina e agitava a água; e o primeiro que nela entrasse depois da agitação da água, ficava curado de qualquer doença que tivesse."

Jo 5, 2-4

Monday, October 15, 2007

MUNDO NA SUA CONDENAÇÃO DIFERIDA


"O mundo na sua condenação diferida
não terá outro senão o rosto que lhe dei,
consolo nas palavras que não admitiram
âncora, leme ou governo, ilha para refúgio.

Aqui esperei o que veio, após o clarão
e o raio. Vi como desocultavam as máquinas
e desfilavam em parada os cavalos de estado
para que o mundo fosse a grande oficina.

Vi o sol guarnecer de gravuras o pesadelo,
antecipando-se a uma noite longa de três dias,
na qual sereis confiados a vosso coração e paciência
e ao ruído ecoado pelas câmaras de explosão."


Paulo Teixeira, Patmos, Lisboa: Ed. Caminho, 1994, pp. 59-60.

Saturday, October 13, 2007

BUT OUR FIRE, OUR ELEMENTAL FIRE


"O fogo é-nos mais caro que o amor ou o alimento,
quente, apressado, mas queimando se lhe tocares.

O que devemos fazer
não é unir o nosso amor ou a nossa boa vontade, ou qualquer
coisa dessas,
pois temos a certeza de introduzir muitas mentiras,
mas sim o nosso fogo, o fogo elementar
de modo a que se erga numa enorme chama como um falo no
espaço vazio
e venha fecundar o zénite e o nadir
enviando milhões de centelhas de novos átomos
e nos queime e incendeie a nossa casa."



D. H. Lawrence, Os animais evangélicos e outros poemas, trad. Maria de Lourdes Guimarães. Lisboa: Relógio d'Água, 1994, p. 201.

Friday, October 12, 2007

RETORNAR AO CAMPO EM FRAGMENTOS


"Nesta suja e estéril república longínqua tudo é de jeito a cada vez mais, por uma reacção, me dar paganismo. Os meus pensamentos vão todos para essa paisagem lúcida e calma de Portugal, tão naturalmente predestinada a produzir esses homens que tomarão das mãos longínquas dos gregos o facho do sentimento pagão."


Ricardo Reis, Prosa, ed. Manuela Parreira da Silva, Lisboa: Assírio & Alvim, 2003, p. 169