Sunday, July 14, 2019

MATÉRIA SILENCIOSA




"Há momentos em que o fulgor da tarde é tão sedoso e tranquilo que o construtor suspende o seu trabalho. As árvores e os muros têm então a vagarosa tranquilidade solar que é como um ébrio recolhimento do ser na matéria silenciosa das pedras, dos troncos e das folhas. A luz estende a sua toalha fulva e serena sobre um planeta árido e maciço e toda a sua energia se volve numa respiração homogénea e discreta, misteriosamente cálida. É este o momento em que o segredo da terra se alia à evidência do intacto e a plenitude solar se tinge de uma presença oculta que está tanto sob as aparências do mundo como no coração do construtor. Esta concordância produz o acorde único do ouro que fui entre uma nascente e um túmulo, entre a carência e a plenitude de uma vida solar. Este fermento de pura unidade conservá-lo-á o construtor nas suas veias e dar-lhe-á a inspiração pausada e leve dos gestos construtivos que tornarão a sua morada a habitação em suas presenças luminosas e claras.


António Ramos Rosa, O Aprendiz Secreto, 2.ª ed., Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005, p. 33. 

Saturday, July 13, 2019

ARCO




"Alguém abrirá a porta, 
alguém 
mostrará a luz."


Yvette Centeno, A Oriente, Lisboa: Editorial Presença, 1998, p. 71. 

Friday, July 12, 2019

SUPRESSÃO



"A supressão do sofrimento? Terei alguma vez acreditado nela, terei acreditado que a morte não faz mais que apagar o que existe e deixar o resto de pé, que ela tira a dor do coração daquele para quem a existência do outro já não é mais que um motivo de dores, que ela retira a dor e nada põe no seu lugar?"

Marcel Proust, À Procura do Tempo Perdido - A Fugitiva (Albertine Desaparecida), trad. Pedro Tamen, Lisboa: Círculo de Leitores, 2004, pp. 62-63. 

Thursday, July 11, 2019

MORTAIS




"Ifigénia - (...)
Ó desgraçada de mim, que, por ter visto uma odiosa, 
uma odiosa, funesta criatura, 
sou assassinada, aniquilada
pelo cutelo ímpio de sacrílego pai. 
Prouvera para bem meu que Áulide, 
nem as proas de brônzeos esporões, 
nem os madeiros que Tróia conduzem,
nestes seus ancoradouros acolhesse, 
nem que ao Euripo uma brisa contrária
Zeus fizesse soprar, ele que a desencadeia
para que os mortais os ventos de maneira
que uns têm a alegria de ver inchar as velas, 
outros têm a tristeza, outros vêem-se impotentes;
podem uns aparelhar, outros navegar, 
enquanto outros aguardam. 
Pela de sofrimentos, sim, plena de sofrimentos é
dos efémeros mortais a geração, e dolorosa, 
para os homens, a descoberta da Necessidade."


Eurípides, Ifigénia em Áulide, 1325-1332, trad. Carlos Alberto Pais de Almeida, 2.ª ed., Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1998, p. 155. 

Wednesday, July 10, 2019

OS PERIGOS




"Ancião - Irei depressa, meu rei. 

Agamémnon - Não te sentes junto das fontes das florestas. 
nem pelo sono te deixes enfeitiçar."


Eurípides, Ifigénia em Áulide, 140-142, trad. Carlos Alberto Pais de Almeida, 2.ª ed., Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1998, p. 95. 

Tuesday, July 9, 2019

MANANCIAL



"A beleza do mundo é o orifício do labirinto. O imprudente que, tendo entrado, dá alguns passos, torna-se depois de algum tempo incapaz de reencontrar o orifício. Exausto, sem nada para comer ou beber, mergulhado nas trevas, separado dos seus semelhantes, de tudo o que ama, de tudo o que conhece, caminha sem nada saber, sem esperança, incapaz mesmo de se dar conta se caminha verdadeiramente ou se anda à roda sobre o mesmo lugar. Mas essa infelicidade nada é ao pé do perigo que o ameaça. Porque se ele não perde a coragem, se continua a caminhar, é absolutamente certo que chegará finalmente ao centro do labirinto. E aí, Deus espera-o para o devorar."

Simone Weil, Espera de Deus, trad. Manuel Maria Barreiros, Lisboa: Assírio & Alvim, 2005, p. 168. 

Monday, July 8, 2019

A DANÇA



"Cada povo fez do cristianismo católico um paganismo diferente. O da Alemanha gira em torno da dança dos mortos. Os Franciscanos do século XIV legam um esqueleto aos pregadores da Reforma; imagino que era esse esqueleto que servia para as demonstrações anatómicas na oficina de Holbein. Eis a verdadeira imperatriz do Sacro Império romano-germânico. É garrida; sabe, pelo convívio com os artistas, quais as atitudes que melhor lhe convêm e, como que para sacudir o tédio de uma majestade semelhante, essa Cleópatra nua até aos ossos diverte-se com partidas de estudante. É capaz de tocar às portas. Pela maneira como é exigente, percebe-se bem que já não tem fome: poderá até, depois de se ter suficientemente divertido, reexpedir indemne por algum tempo, o hipócrita bastante hábil. A morte de Holbein é muito jovem: faz travessuras. É herdeira e legatária universal. Não digo que não tem filosofia. Quem conhece a resposta final que uma gargalhada nos lança? Neste mundo, maquinado como um antro de malfeitores, a Morte joga às escondidas com os homens. Tudo quanto fazem lhe aproveita; de tanto a vermos comer, espanta-nos a sua magreza. É a prometida de cada um todos eles se agitam, pois, para lhe trazerem um dote; todos querem ser ricos antes de morrer. Somente quando ela chega, resingam, pois desagrada-lhes que a noiva não tenha nariz. E, no entanto, é a única a que são fiéis."

Marguerite Yourcenar, Peregrino e Estrangeiro, trad. Afonso Pizarro, Lisboa: Livros do Brasil, 1990, p. 134. 

Sunday, July 7, 2019

VIGILÂNCIA




"Ela inclinou-se, beijou-o outra vez, respirou outra vez - até à vertigem - o perfume ensolarado do cabelo do seu filho. 
- Gosto mais de ti que o tamanho do ma todo, disse ela. 
- E do Oceano?
- Mais que do Oceano, mais que tudo o que existe. 
- E tudo o que não existe? 
- Também mais que tudo o que não existe. 
- Eu também, disse distraidamente a criança, o que eu queria era um lagarto encarnado e o papá diz que não há. 
- Há pois. 
Ela tentou apertá-lo nos braços, mas ele debateu-se, todo virado para os lagarto. Ela voltou a pousá-lo no chão e ele voltou imediatamente à sua incansável vigilância."


Marguerite Duras, Os Cavalos de Tarquínia, trad. Maria da Piedade Ferreira, Lisboa: Publicações Dom Quixote/ Editores Reunidos, 1994, p. 119. 

Saturday, July 6, 2019

GRANDE MÃE



"O crepúsculo desce, tão dourado como foi a manhã, como foi o pleno dia. Os cimos recolhem-se, aceitam a noite com a mesma graça com que aceitavam a aurora. Um pouco de luz estagna no côncavo do vale, como um pouco de água no côncavo de uma mão fresca. A noite paira, tecida de oiro como um estofo divino. Aqui a obscuridade é mais maternal, mais fraternal que amorosa: a Grande Mãe muda-se em Boa Virgem: Deméter torna a ser Perséfone; Latona torna a ser Ártemis. Os joelhos terrestres recobrem-se lentamente de um veludo estrelado. O leite de Hera escorre na Via Láctea, brotado de uma mordedura no seio azul. A sombra onde tudo se torna Sombra mal deixa adivinhar, na palestra, a mais esbelta das colunas, fuste agora solitário em torno do qual os jovens lutadores de antanho decerto passaram muitas vezes o braço como em volta de uma cintura, e que não se pode ver sem se pensar em Hipólito. A vida, madrasta ardente e repelida sob a forma de Fedra, suscitava contra ele um monstro que Hércules teria exterminado sem custo, mas cujo sopro bastava para destruir esse mancebo virgem, esse mancebo-flor. Depois, fatal, tranquilizante, lunar, a Morte aproximava-se dele sob a forma de Ártemis. Ele adivinhava-a sem a ver, pois os moribundos não fazem senão adivinhar os deuses. E nós que incessantemente morremos a nossa vida, nós tão-pouco entrevimos Ártemis. Mas aspiramos aqui o seu perfume de erva e de astro e, deitados sob esse céu, sob essas luzes, vemos na noite um pedaço do seu manto."

Marguerite Yourcenar, Peregrino e Estrangeiro, trad. Afonso Pizarro, Lisboa: Livros do Brasil, 1990, pp. 10-11. 

Friday, July 5, 2019

UMA POÉTICA




"O verdadeiro poema
apaga-se por si
como uma vela tão de súbito
mas o que ela iluminou fica gravado
na treva abrupta
da retina

Mundos nus
nuas paredes, mesas e cadeiras
um espaço cheio de estranhos conhecidos
seguros
da nossa afeição e indiferença

impassíveis, sem sentido
sem substância."


Günter Kunert, 90 Poemas, poema trad. Leopoldina Almeida, Lisboa: a páginas tantas, 1983, p.  117. 

Thursday, July 4, 2019

IRREPREENSÍVEL



"Ela foi na direção de Jacques que se dirigia para eles. Nadou algumas braçadas, levantou-se e voltou a nadar. Ludi, de longe, sorria-lhe. O mar fazia rir. Estava tão quente que se podia lá ficar facilmente duas horas. Não tinha nada a ver, aquele mar, com outro mar do mundo. Era a desforra dos que gostavam daquele sítio, de Jacques e Ludi. Aquele mar era irrepreensível. Sara pôs-se de costas e manteve-se imóvel. Era uma coisa que só conseguia fazer há alguns dias. O mar penetrava então na espessura dos cabelos até à memória."

Marguerite Duras, Os Cavalos de Tarquínia, trad. Maria da Piedade Ferreira, Lisboa: Publicações Dom Quixote/ Editores Reunidos, 1994, pp. 25-26. 

Wednesday, July 3, 2019

LIÇÃO



"Porque, se há um ponto sobre que as nossas observações não deixam dúvidas, é que o homem não é um filho do paraíso, caído já feito e mesmo, em certa medida, perfeito, do céu sobre a terra."

Luiz Büchner, O Homem segundo a Ciência, trad. Alfredo Pimenta [ort. atual.], Porto: Livraria Chardron, 1912, p. 59. 

Tuesday, July 2, 2019

CÉU VAZIO



"E, contudo, eu não regressava tranquilizado quando estava em Balbec depois de passeios mais raros que me orgulhava de ver uma tarde inteira e que depois contemplava, destacando-se em belos maciços de flores contra o resto da vida de Albertine, como contra um céu vazio diante do qual sonhamos docemente, sem pensar."

Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido - A Prisioneira, trad. Pedro Tamen, Lisboa: Círculo de Leitores, 2004, p. 100. 

Monday, July 1, 2019

SUBTERFÚGIO




"- Perversidades? Isso é apenas um subterfúgio. Uma palavra usada pelos poetas. 
- Eu pensava que era usada pelos psicólogos.
- Referia-me a fazer concessões, dar desconto... É uma expressão sem significado. A vida é uma ciência exata de conformidade com os seus próprios termos; a questão consiste apenas em encontrá-los e defini-los. O que é que não tem lógica nenhuma para si?"


Patricia Highsmith, O Preço do Sal, 2.ª ed., trad. Fernanda Pinto Rodrigues, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1993, p. 116. 

Sunday, June 30, 2019

DURO ABRIGO




"em duro abrigo nasce
a ideia do verão: semente
que a luz demora, 

ao fulgor que das armas
cai na terra, o campo
chão da trovoada, 

o corpo em vala muda aberto, des
fabricado, olhos
sem ruído, 

as mãos cobrindo a sombra
na suja tarde
dos retratos, 

os arados no vento, a terra
devagar deitada, 
e sob

o branco olhar, em seu abrigo
o claro som dobra
ao som"


António Franco Alexandre, Poemas, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996, p. 216. 

MIMESIS




"Um animal (qualquer) 
se alça a pata espessa sobre o mundo
atormenta"

Luiza Neto Jorge, Poesia, Lisboa: Assírio & Alvim, 1993, p. 124. 

Friday, June 28, 2019

CALIGINOSA




"Prudente, o deus esconde em caliginosa noite
o resultado do tempo futuro e ri, 
     se o mortal se inquieta mais
         do que o permitido. Lembra-te de ordenar

com serenidade o teu presente: tudo o resto se arrasta
como num rio, que ora em paz desliza
     pelo meio do seu leito até ao seu mar etrusco, 
         ora revolve em tumulto 

as rochas erodidas, os troncos arrancados, o gado, 
as casas, ressoando seu clamor nos montes
     e nas vizinhas florestas, 
         assim que o iracundo dilúvio

as quietas águas enfurece. Será dono de si
e viverá feliz aquele que pode, no final de cada dia,
     dizer: «Vivi. Amanhã, que o Pai cubra
         o céu com negras nuvens, 

ou com os puros raios do sol; contudo, 
aquilo que para trás já ficou não há-de anular, 
      nem alterar ou desfazer
         aquilo que fugidia já trouxe a hora. 

A Fortuna, feliz no seu cruel negócio, 
insistindo em jogar seu arrogante jogo, 
      suas incertas honras transfere
         ora para mim, ora favorável para outro."


Horácio, Odes, III, 29, trad. Pedro Braga Falcão, Lisboa: Cotovia, 2008, p. 252. 

Thursday, June 27, 2019

BEIRA




"A tarde não será à beira da água
nem os olhos a rápida alegria."


João Miguel Fernandes Jorge, "À Beira do Mar de Junho", in Obra Poética, vol. 5, Lisboa: Editoral Presença, 1996, p. 124. 

MARÍTIMO




"Isto meu amor é como céu marítimo
rasgado como vela de barco."


João Miguel Fernandes Jorge, "À Beira do Mar de Junho", in Obra Poética, vol. 5, Lisboa: Editoral Presença, 1996, p. 118. 

Tuesday, June 25, 2019

TORREÕES DE LINHO




"Vê acolá, erguidas sobre a areia, 
Casitas brancas, ou torreões de linho, 
Onde se escondem corpos de sereia, 
Mais brancos do que o arminho!

Daqui a pouco tu verás, ó Musa!
As donas desses corpos envolvidas
Em uma negra, funerária blusa, 
E numas saias fúnebres, compridas!

Vão assim para as épicas batalhas
Desse profundo e tenebroso mar:
Todas de negro, envoltas em mortalhas;
Como mortos que levam a enterrar!"

António Nobre, Primeiros Versos, Porto: Lello & Irmão Editores, 1984, p. 59.