que não há retrato que o fixe?
Dele emana, maior que ele mesmo,
a aura em que se oculta
sem deixar à paisagem que o vê
chave que lhe desvenda o mistério."
Flor Campino, Reflexão dos Dias, Porto: Afrontamento, 2022, p. 65.
"Quando a manhã rompeu, toda a cidade estava reunida em volta de minha casa. Descrever a surpresa, o espanto geral, os choros, os gritos e os gemidos com que me torturavam seria coisa difícil, se não mesmo impossível. Os clérigos, sobretudo, e os meus discípulos, particularmente, martirizavam-me com as suas lamentações e os seus insuportáveis soluços. A sua compaixão era para mim mais cruel que o meu ferimento. Sofria mais com a minha confusão do que com a dor. Tristes imagens me vinham ao espírito: com aquela glória que desfrutava havia ainda bem pouco fora com tanta facilidade, num momento, derrubada, destruída!"
"Ao contrário do acto linguístico, a problemática do acto icónico consiste em individuar a força que permite à imagem, na contemplação ou no toque, saltar de um estado de latência para a eficácia externa no âmbito do sentir, do pensar e do agir. Nestes termos, há que entender por acto icónico um efeito no plano do sentir, do pensamento e da acção, que dinama da força da imagem e da interacção com quem a olha, toca e também escuta."
Horst Bredekamp, Teoria do Acto Icónico, trad. Artur Morão, Lisboa: KKYN, 2015, p. 34.
"Enfim, ficámos primeiro unidos pelo mesmo tecto, depois pelo coração. Com o pretexto de estudar, inteiramente nos entregávamos ao amor. As lições ofereciam as oportunidades que o amor desejava. Os livros estavam abertos, mas ouvia-se mais palavras de amor que lições de filosofia, mais beijos que explicações, as minhas mãos dirigiam-se mais frequentemente para o seu seio que para os nossos livros. O amor reflectia-se muito mais nos nossos olhos do que a leitura a encaminhá-los para os textos. Para melhor afastar as suspeitas, eu ia ao ponto de lhe bater, pancadas dadas por amor, não pela cólera, pela ternura, não pelo ódio, e mais suaves que todos os bálsamos. Que mais poderei dizer? No nosso ardor, atravessámos todas as fases do amor. Tudo o que a paixão pode imaginar de requintado, o esgotámos. Quanto mais as alegrias eram novas para nós, mais as prolongávamos com delírio; não seria possível sentirmo-nos fatigados."
Pedro Abelardo, "Carta a um amigo, ou narrativa das minhas desventuras", in Cartas de Abelardo e Heloísa, trad. Franco de Sousa, Lisboa: Editorial Estúdios Cor, s. d., p. 25.
"Fui pois escutar aquele ancião. Devia a sua fama mais à rotina que à inteligência e à memória. Se, incerto sobre uma questão, alguém lhe vinha bater à porta para o consultar, voltava ainda mais incerto. Admirável aos olhos de um auditório, era uma nulidade na presença de alguém que viesse interrogá-lo. Possuía uma maravilhosa facilidade de palavra, mas a substância dos seus discursos tinha pouco sentido e nenhum valor. Quando acendia o seu fogo, enchia a casa de fumo, não a tornava clara com luz. A sua árvore, toda em folhagem, oferecia de longe um aspecto imponente; de perto, quando a examinavam atentamente, achavam-na estéril."
Pedro Abelardo, "Carta a um amigo, ou narrativa das minhas desventuras", in Cartas de Abelardo e Heloísa, trad. Franco de Sousa, Lisboa: Editorial Estúdios Cor, s.d., p.19.
"Comparada com essa Tebaida, aquela outra de cesteiros, cegos cantadores de loas, alveitares milagreiros, bentos e santos-justos, jograis e velhos tontos, que grotesca galeria! A alma aqui conhecia a violência da paixão mas não a sublimidade da graça! A terra portuguesa, possuída pelo romano, fecundada pelo godo, cilindrada pelo árabe, tão compósita de cultura e de semental não dava flores místicas doutra redolência. Dava aquilo, e não daria outra coisa pelos séculos a vir. Compreendia-se de resto: estavam no cabo do Ocidente, o Ocidente berço da razão hedionda e do senso prático. Terra avessa ao maravilhoso! Nunca ali tinham nascido deuses. O homem, sim, acabava por importá-los dos outros povos, para os acomodar à sua imagem e semelhança e à gradação dos seus climas moderados."
Aquilino Ribeiro, S. Banaboião, Anacoreta e Mártir, Lisboa: Bertand Editora, 1985, p. 72.
"Não basta aspirar ao deserto, urge saber qual o deserto que escolhemos, não em termos de geografia mas de ascese. A rosa dos ventos a nortear a escolha será a Cruz que chama à imolação com Cristo."
Giorgio Papàsogli, Deus responde no deserto - Bruno, o santo da Cartuxa, trad. J. C. Monteiro Pacheco, SJ, Porto: Livraria A. I., s.d., p. 82.
"Um imenso sol tombava das alturas muito altas, muito límpidas, e Maria ia envolta em sol e o sol entrava-lhe pelos olhos e pela boca e ela sentia que o sol lhe entrava igualmente pelas narinas e pela pele das mãos, dos braços e do pescoço; e Maria, então, que viu o bando de pombas a riscarem no céu de um azul tão belo e tão puro, velozes caminhos, sentiu-se bruscamente alegre e o ceguinho de olhos mortos apagou-se-lhe na memória, onde apenas quedaram os brilhantes olhos do menino que media os passos ao cego (que coisa, parece que o sol me entrou no coração, me encheu de luz!). À sua roda só havia luz, a própria sombra que as árvores e os muros projectavam no caminho era luz, de luz se encontravam do mesmo modo penetradas as coisas que a cercavam, luz é o que ela ia respirando e o que apertava nos dedos, a terra inteira era luz e luz era ela, também (que engraçado, o sol passou prò meu peito, ai, como é bom, como é bom sentir o sol no coração!)"
Afonso Ribeiro, Maria I - Escada de Serviço, 2.ª ed., do autor, 1957, pp. 207-208.
"Os antigos gregos separavam os seus níveis dividindo a escrita em duas categorias: mythos era reservado para as coisas como as histórias dos deuses. Embora essas histórias pudessem conter distorções e mentiras, havia também uma verdade mais alta a respeito da natureza e da existência do homem. Logos, por seu lado, relacionava-se com as realidades externas e os factos verificáveis. Confunda-se as duas e fica-se em grandes sarilhos, a dar voltas num estuário sul-americano à procura do paraíso, ou especado diante dos Portões de Pérola na esperança de que o paraíso contenha coisas tão mundanas como bonitas ninfetas. No paraíso, tudo é perpetuamente renovado: todas as acções são beatíficas, recuperando eternamente essa experiência da primeira vez."