Monday, November 9, 2020

INDECIFRÁVEL (para a memória do Divino Artur do Cruzeiro Seixas)

 



"Queria que esta árvore me olhasse
como eu a olho
secretamente e sem remédio. 

Amo a paisagem
cada vez mais
indecifrável
pássaro que voa nos dois sentidos
com a morte loucamente colorida
por fiel companhia."


Artur do Cruzeiro Seixas, Obra Poética, vol. I, Vila Nova de Famalicão:Quasi Edições, 2002, p. 237. 

Sunday, November 8, 2020

ACREDITAR

 



"Oiço respeitosamente. Depois, eles calam-se e eu, no chão, esperneio. Digo:
- Apelo.
- Apelas a quem?
- A quem possa melhorar o Homem.
- Para que não haja ruído?
- Para que o Homem não se cause danos ao Homem. Nem danos visíveis nem danos invisíveis. 
- E se o fizer sem o saber?... Se ele pensa que está a emitir música e tu recebes ruído?...
- Oh! - Desespero ao ver que estão a usar os secretos argumentos da minha mente. - Nesse caso é preciso acreditar na palavra do Homem. É preciso que baste levantar a mão e dizer «Não incomodes», para que o outro recue ao compreender que para certa pessoa, o seu jasmim é uma lança.
Às vezes distraio-me e penso assim, em forma de diálogo. Só que, como se fossem reais, estes diálogos intensos ferem-me."


Antonio Di Benedetto, O Silencieiro, trad. Isabel Pettermann, Amadora: Cavalo de Ferro, 2020, p. 80. 

Saturday, November 7, 2020

A GRAÇA

 



"Não fechou os olhos. Nos seus ouvidos, ressoava a voz monótona do enfermeiro. Onde é que a teria ouvido?
- O Mal não existe para o malvado. Pois para esse nada há. O Mal existe para o temente a Deus. Apenas o temente a Deus o pode suportar e é aí que reside a Sua graça. O temente a Deus não se desvia quando o Mal se lhe atravessa no caminho, antes pelo contrário, quando se cruza com o Mal, acolhe-o. Pois é o que tem de fazer até ao fim e até ao fim tem de sofrer."


Hermann Ungar, Os Mutilados, trad. Vanda Gomes, 2,ª ed., Silveira: Livro B/ Letras Errantes, 2020, p. 170. 

Friday, November 6, 2020

CONSOLO

 



" - Então vou ter de me apressar, caro Sonntag. Pois já não vai faltar muito. De qualquer maneira, há que dizê-lo. Deus não me está a atrair pelos meios mais simpáticos, nisso vai ter de concordar comigo, Senhor Sonntag. 
- O sofrimento não é um castigo, Senhor Fanta. Não há sequer castigo, apenas ao ímpio é que parece um castigo. Não há qualquer outro consolo, tanto fazemos o bem como fazemos o mal e o que for temos de aceitar. O crente em Deus aceita-o de bom grado e com alegria, o ímpio com lamúrias."


Hermann Ungar, Os Mutilados, trad. Vanda Gomes, 2,ª ed., Silveira: Livro B/ Letras Errantes, 2020, p. 132. 

Thursday, November 5, 2020

SEREMOS

 



"Nascer
vir a este mundo
é acordar legível do sono eterno.
Maravilhoso (e é) que seja acordar
traz mistura pessoal:
preferia não ter nascido.
Fazemos parte de animal perpétuo
que exige o nosso serviço dele.
Mas um é passageiro
tem que inventar optimismo e graça
e permanecer acordado o animal perpétuo.
Nascemos órgão e seremos, afinal, o todo do organismo. 
Personalidade não é senão o ímpeto para nos deixarmos de nascidos intactos
é condição primeira do ser vivo eterno que somos. 
Nasce-se segunda vez o ser vivo eterno que somos
Iremos por onde não há adesão possível à segunda vida
porta do eterno.
Depois é o silêncio que fala
a paz que nos esperava."


José de Almada Negreiros, Poemas, 3.ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 2017, p. 175. 

Tuesday, November 3, 2020

MEDITAÇÃO

 



"os devoradores de cultura podem sair pela esquerda alta
fiquem os amantes obscuros        e o único       os raros
todos os nus
porque a língua portuguesa não é a minha pátria
a minha pátria não se escreve com as letras da palavra pátria"


António José Forte, Uma Faca nos Dentes e Outros Textos, Lisboa: Antígona, 2017, p. 98. 

Monday, November 2, 2020

O ABISMO

 



" «Ah!, ressuscita-ma,» exclamou Walter, arremessando-se aos pés do feiticeiro. «Oh!, se na verdade és capaz de realizar isso, satisfaz a minha ardente súplica; se algum resquício de sentimento humano lateja no teu peito, deixa que as minhas lágrimas te persuadam: ressuscita a minha amada para mim; e sempre abençoarás o teu acto, e verás que foi uma boa obra.»
«Uma boa obra! Um acto abençoado!» - retorquiu o feiticeiro, com um sorriso de escárnio; «para mim não existe bem nem mal, pois o meu desejo é sempre o mesmo. Só vocês conhecem o mal, vocês que desejam aquilo que não deviam desejar. É verdade que tenho poderes para ressuscitá-la para ti; contudo, reflecte bem se isso resultará na tua felicidade. Pondera também quão profundo é o abismo entre a vida e a morte; sobre ele, o meu poder pode construir uma ponte, mas nunca será capaz de preencher o precipício assustador.»"


Johann Ludwig Tieck, "Não Acordes os Mortos", in Histórias de Vampiros, trad. Margarida Periquito, Lisboa: Relógio D' Água, 2008, pp. 53-54. 

Sunday, November 1, 2020

TODOS OS SANTOS

 



"E vós, tendo ouvido dizer que nós esperamos um reino, supusestes, sem refletir, que nos referíamos a um reino humano, quando, na verdade, se trata do reino junto de Deus, como mostra o facto de que, quando interrogados por vós, confessarmos ser cristãos, cientes como estamos de quem confessa incorre na pena de morte. 

Efetivamente, se esperássemos por um reino humano, renegaríamos para evitar a morte e tentaríamos esconder-nos, a fim de alcançar o nosso objetivo. Mas uma vez que não colocamos as nossas esperanças no tempo presente, não nos inquietamos com ter que morrer, dado que, de qualquer modo, havemos de morrer."


Justino, Em Defesa dos Cristãos, I, XI, 1-2, trad. Isidro Pereira Lamelas, Lisboa: Paulus Editora, p. 66. 

Saturday, October 31, 2020

DENN DIE TODTEN REITEN SCHNELL (servindo de homenagem ao Divino Sean Connery)

 



"«Vai-te daqui, ser insensível; tu desconheces o que é o amor. Oh! Pudessem as minhas lágrimas remover a camada de terra que a esconde destes olhos; pudesse o meu gemido de angústia ressuscitá-la do seu sono de morte! Não, ela não quereria voltar para o seu leito de terra.»

«Que insensato és! E suportarias tu contemplar, sem te arrepiares, um ser vomitado pelas mandíbulas do túmulo? E será que tu também és o mesmo de quem ela se apartou? Pois terá o tempo passado sobre o teu rosto sem nele deixar marcas? Será que o teu amor não se converteria em ódio e repulsa?»

«Mais depressa as estrelas abandonariam o alto firmamento, e o Sol doravante se recusaria a espalhar os seus raios pelos céus. Oh!, que ela se encontrasse diante de mim uma vez mais! Que uma vez mais repousasse sobre este peito! Quão depressa olvidaríamos que a morte ou o tempo alguma vez se interpusera entre nós!»"


Johann Ludwig Tieck, "Não Acordes os Mortos", in Histórias de Vampiros, trad. Margarida Periquito, Lisboa: Relógio D' Água, 2008, p. 53. 

Friday, October 30, 2020

JAZER

 



"Na paisagem que amanhece
jaz o corpo de ninguém

maior do que a noite
e os olhos que ela tem

jaz um pouco de lado
voltado para a lua

coberto de nada
na paisagem nua

nunca teve um nome
não espera o Além

o corpo que jaz 
e é de ninguém"


António José Forte, Uma Faca nos Dentes e Outros Textos, Lisboa: Antígona, 2017, p. 106. 

Thursday, October 29, 2020

TODAS AS MANHÃS

 



"Entre lágrimas de crocodilo
o homem com gestos de lava
que aponta o local do crime
todas as manhãs
e eu despido de rosas
subo a escada de caracol da morte
para ir deixar na tua pele a assinatura bárbara
com a caligrafia trémula de todas as manhãs
e todas as noites de terror
entre a música dos astros"


António José Forte, Uma Faca nos Dentes e Outros Textos, Lisboa: Antígona, 2017, p. 93. 

Wednesday, October 28, 2020

MEMÓRIA

 



"À flor da terra a flor de fumo
dos meus cigarros adolescentes
fumados amorosamente entre fantasmas

desse tempo
os meus pulmões que dançam
os meus olhos de desobediência civil
fascinados
que saúdam o arco histérico do desejo

o meu nome que flutua
na orla de furor

desse tempo
uma paisagem de nuvens inventadas
para as minhas aves      altíssimas
suspensas sobre a morte"


António José Forte, Uma Faca nos Dentes e Outros Textos, Lisboa: Antígona, 2017, p. 89. 

Tuesday, October 27, 2020

MÉTODO

 



"Quando me apercebi do início desse estado mental, anunciado pela formação de pele de galinha no corpo das pessoas - se me permitem a expressão -, o meu primeiro impulso foi apagar a lareira e ir para a cama. Este sempre me pareceu o método mas fácil de me livrar de fantasmas indesejáveis e, confirmando isto, tenho reparado que outras pessoas que têm sido desagradavelmente assombradas têm sofrido na directa proporção da sua incapacidade para tomar a iniciativa que me parece ser a mais natural do mundo esconderem-se debaixo dos lençóis! Quando o fantasma de César lhe apareceu ao pé do divã, antes da batalha de Filipos, Brutus sentou-se, olhou para a aparição horrenda e sentiu o sofrimento correspondente, quando lhe teria sido muito mais fácil e natural enfiar a cabeça debaixo da almofada, desviando assim os olhos daquele espectáculo sempre desagradável. É esta medida que eu tenho sempro tomado, e nunca me arrependi. É que nem o fantasma mais luminescente do mundo consegue brilhar através de uma almofada bem enchida ou da costumeira remessa de cobertores de lã recebidos no Natal."


John Kendrick Bangs, Fantasmas Que Eu Conheci e Alguns Outros, trad. Luís Miguel Coutinho, s.l.: alfabeto, 2011, pp. 37-38. 

Monday, October 26, 2020

CARTAS PARA CHOVER

 



" Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar"


António José Forte, Uma Faca nos Dentes e Outros Textos, Lisboa: Antígona, 2017, p. 35. 

Sunday, October 25, 2020

CICLO

 



"Toda a água aspira a tornar-se vapor, e todo o vapor a voltar a ser água."


Marguerite Yourcenar, O Tempo, Esse Grande Escultor, trad. Helena Vaz da Silva, Lisboa: Relógio D'Água, 2020, p. 177. 

Saturday, October 24, 2020

CORES

 



"Um jardineiro faz-me notar que é no Outono que vemos a verdadeira cor das árvores. Na Primavera, a abundância de clorofila veste-as a todas com uma libré verde. Chegado Setembto, elas mostram-se cobertas das suas cores próprias, a bétula loira ou doirada, o bordo amarelo-laranja-vermelho, o carvalho cor de bronze e ferro."

Marguerite Yourcenar, O Tempo, Esse Grande Escultor, trad. Helena Vaz da Silva, Lisboa: Relógio D'Água, 2020, p. 175.  

Friday, October 23, 2020

RESISTIR

 



"Amar alguém não é simplesmente querer que ele viva, e também espantar-se de que ele deixe de viver, como se morrer não fosse natural. E no entanto, o ser é um milagre mais surpreendente que o não-ser; se pensarmos nisso, é diante daqueles que vivem que nos deveríamos ajoelhar como diante de um altar. Imagino que a Natureza se cansa de resistir ao nada, como o homem de resistir às solicitações do caos."

Marguerite Yourcenar, O Tempo, Esse Grande Escultor, trad. Helena Vaz da Silva, Lisboa: Relógio D'Água, 2020, p. 24. 

Thursday, October 22, 2020

PREFERIR



"Todos nós somos uma síntese com uma finalidade espiritual: essa é a nossa estrutura. Mas quem não prefere habitar a cave, as categorias do sensual? O homem não só prefere viver nelas, como se ama a tal ponto, que se zanga quando lhe propõem o primeiro andar, o andar nobre, sempre vago e acolhedor - porque afinal toda a casa lhe pertence."


Sören Kierkegaard, Desespero - A Doença Mortal, trad. Ana Keil, Porto: Rés- Editora, 2003, p. 56. 

Wednesday, October 21, 2020

IMPÉRIO

 




"E a resposta de Verónica foi esta:
«Meu Esposo, estou pronta. A tudo o que quiserdes, consinto; tomo posse deste precioso castelo de puro padecer, desta fortaleza da tua cruz; e quero que seja para mim não castelo, mas império; não fortaleza, mas cidade sublime; porque onde existe a cruz, aí se encontram todos os tesouros.»"


Paola Giovetti, Fenómenos Extraordinários de Místicos e Santos, trad. Mário Santos, ssp, Lisboa: Paulus Editora, 2016, p. 118. 

Tuesday, October 20, 2020

NÓTULA

 



"Mas o desespero só se define pelo seu contrário, e para que tenha valor artístico, a expressão deve então apresentar uma como que coloração com um reflexo dialéctico do contrário. Portanto, em toda a vida humana - que se julga já infinita ou que o quer ser - cada instante é desespero. Porque, o eu é uma síntese de finito, que delimita, e de infinito, que ilimita. O desespero que se perde no infinito é portanto imaginário, informe; porque, o eu não tem saúde e não está livre do desespero, a não ser quando, tendo-se desesperado transparece para si mesmo e se embebe em Deus."


Sören Kierkegaard, Desespero - A Doença Mortal, trad. Ana Keil, Porto: Rés- Editora, 2003, p. 42.