Sunday, August 16, 2026

NO PALÁCIO DE XERAZADE 2

 



" - Mas como vai reconhecer o tal rio? - indagou Kim, acocorando à sombra de uma árvore.
- Diante do Rio, uma graça divina iluminar-me-á. Não é este o Rio que procuro, não estou a sentir que não é. Ó regato pequenino, se pudesses dizer-me onde corre o meu Rio!... Mas apesar da tua mudez, bendito sejas, tu que fazes pojar os campos.
- Olhe, olhe! - gritou Kim lançando-se ao velho e puxando-o para trás. - Uma ondulação pardo-amarela mexeu-se entre os caniços e espichou a cabeça para a água, uma enorme cobra de olhos sem pálpebras muito fixos.
- Um pau, um pau, para quebrar-lhe a espinha! - gritava o menino, procurando em redor.
- Para quê? Ela está, como nós, amarrada à Roda que sobe e desce, e muito longe ainda da libertação. Grande pecado deve ter cometido a alma presa a esse invólucro!
- Detesto todas as cobras - confessou Kim, que tinha no sangue branco a correr-lhe nas veias o instintivo horror ocidental pelas serpentes.
- Ela que viva a sua vida - murmurou o lama com placidez, enquanto a cobra sibilava e distendia o capelo. - Possa a tua libertação chegar em breve, irmã. Terás tu por acaso conhecimento do meu Rio?
Kim estava impressionado.
- Nunca vi homem assim - murmurou. - Será que as cobras compreendem as suas palavras?
- Quem sabe lá?"


Rudyard Kipling, Kim, trad. Monteiro Lobato revista por João Filipe Ferreira, Lisboa: Livros do Brasil, 1988, p. 51.

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