Monday, August 10, 2026

COISAS REAIS

 


"«Uuuhhh...» guinchou prostrado no chão  «uuhh... uhm... um... umm... umm... um...» e nestes sons profundos e moles desejava perder-se, derreter a cabeça, o peito. Sentiu como sempre que chegava a um limite, a um limiar extremo. Em que lhe era dado ainda o parar, voltar atrás, manter vivo na noite o lume, na tempestade. E agarrou-se a palavras, aos nomes de coisas reais, visíveis, concretas. Pronunciou em voz alta: «Terra. Pedra. Desvario. Casa. Forno. Pão. Oliveira. Alfarrobeira. Sumagre. Cabra. Sal. Burro. Forte. Templo. Cisterna. Muralha. Piteira. Pinheiro. Palmeira. Castelo. Céu. Corvo. Pega. Pomba. Tentilhão. Nuvem. Sol. Arco-Íris...» pronunciou como se quisesse redenominar, recrear o mundo. Recomeçar a partir do momento em que nada havia acontecido, nada se perdera ainda, e as coisas se desenrolavam serenas, sereno o tempo."


Vincenzo Consolo, De Noite, Casa por Casa, trad. José Colaço Barreiros, Lisboa: Teorema, 1996, p. 40.

 

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