Thursday, August 20, 2026

OS DESASTRES DA GUERRA

 


"(...)

Na de S. Bento quebraram o Santo, queimaram o púlpito e parte do sobrado e as gavetas dos caixões, demoliram o altar, roubaram hum calis, humas cortinas, hum frontal branco de damasco, branco, duas vestimentas, huma branca de damasco e outra verde. Incendiaram vinte e duas casas e asa que não o foram, ficaram estragadas, queimando-lhe todos os móveis, sobrados, frontaes, forros, et cetera.
Mataram coatro mulheres e três homens.
Roubaram duzentas e setenta e duas ovelhas, cento e trinta e seis cabras, duas mullas, cinco jumentos, trezentos e doze alqueires de pam, mil e trezentos e quinze alqueires de milho grosso, cento e trinta e seis alqueires de feijam, coatro de trigo, dezanove galinhas. Queimaram ou roubaram sete carros e seis trados.
Roubaram quase todas as roupas de lam e linho, innutilizando a outra, ficando a maior parte dos habitantes só com o vestido que traziam, e sem cama pera dormirem. E athé muitos enfermos que jaziam nas duras táboas, sem terem com que se cobrir. E assim, tem morrido muitos, como eu tenho observado.
Hé o que o povo afirma, que por ser verdade, me assigno.

Torroselo, 27 de Setembro de 1811.
O Cura, José Garcia de Abranches"


Sérgio Alves, Cartas dos Grandes e Graves Prejuízos - Relatos da Invasão Francesa nos Concelhos de Seia e Gouveia, ed. do Autor, 2025, p. 116.

No comments: