Saturday, July 26, 2008
NAUFRÁGIOS EFLUVIAIS
"Junto das águas, os defuntos brilham.
A inocência de estarem a esquecer
desenha as margens vivas
onde os verdes se douram. E ninguém
passa sem ver minúsculas undícolas,
mesmo que ignore de onde nos elas vêm.
Mas há quem saiba que imperceptíveis brisas,
só tocadas de olvido, têm a ver
com os defuntos que, esquecidos, brilham
na inocência das águas a esquecer."
Fernando Echevarría, Sobre os Mortos, in "Poesia, 1987-1991". Porto: Edições Afrontamento, 2000, p. 215.
Thursday, July 24, 2008
PERMANÊNCIA DE CERTOS ESTADOS DE ALMA
"A ânsia nele, a música, a dor agitava-o. Para ele o universo era feito de feridas; isso fazia-o sentir uma dor profunda, impossível de nomear. Agora um outro ser, lábios divinos, trémulos, inclinavam-se sobre ele, e colavam-se aos seus lábios; encaminhou-se para o seu quarto solitário. Estava sozinho, sozinho! Então a nascente murmurou, caudais jorraram dos seus olhos, curvou-se sobre si mesmo, os seus membros estremeceram, era como se fosse obrigado a dissolver-se, não achava o fim da volúpia; por fim começou a compreender, sentiu uma profunda, silenciosa comiseração em si mesmo, chorou ao pensar em si, a sua cabeça enterrou-se no peito, adormeceu, a lua cheia mantinha-se no céu, os caracóis do seu cabelo caíam-lhe sobre as têmporas e o rosto, as lágrimas pendiam das pestanas e secavam nas faces, assim jazia ali abandonado, neste momento, e tudo estava tranquilo e silencioso e frio, e a luz brilhou durante toda a noite e permaneceu sobre as montanhas."
Georg Büchner, Lenz, trad. Bruno Duarte. Lisboa: Vendaval, 2006, pp 16-17.
Monday, July 21, 2008
QUALQUER COISA DE PAZ
"Qualquer coisa de paz. Talvez somente
a maneira de a luz a concentrar
no volume, que a deixa, inteira, assente
na gravidade interior de estar.
Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente,
uma ausência de si, quase lunar,
que iluminasse o peso. E a corrente
de estar por dentro do peso a gravitar.
Ou planalto de vento. Milenária
semeadura de meditação
expondo à intempérie a sua área
de esquecimento. Aonde a solidão,
a pesar sobre si, quase que arruína
a luz da fronte onde a atenção domina."
Fernando Echevarría, Figuras, in "Poesia, 1987-1991", Porto: Ed. Afrontamento, 2000, p. 26.
Wednesday, July 16, 2008
ANJO DESCENDENTE
"Muitas vezes, gostaria de clamar: Ajuda-me, ajuda-me, por favor! Estou de joelhos, ao pé de ti!
E encarava-se com tristeza: lembrar-me que uma pessoa tem de ir sozinha pelo mundo, enfrentar as montanhas e os mares de estrelas! - e enchia-se de lágrimas, grandes como a cúpula do céu, que não conseguiam saltar-lhe dos olhos."
Robert Musil, Tonka, in Três Mulheres, trad. Maria Cristina Mota. Lisboa: ed. Livros do Brasil, 1985, pp. 211-212.
Tuesday, July 15, 2008
COM MAIS FERVOR QUE A VIDA
"Respira docemente. Eu sei como respira
tudo o que dorme ao pé de mim. Mas não
que eu nunca durma. A minha vida
muito me adormece. Dentro de mim há
fundos poços de piedade que,
como uma sombra, um halo, uma neblina,
em torno da luz que nem distingo,
vão dando sempre a esmola de esquecer
quanto de sonhos ao dormir contemplo,
ora aterrado por terrores que emergem
da própria piedade ressurgente,
ora enlevado por alegres gestos
que nela se submergem como a vida,
mas uns e outros quais temi ou esperei
até ao fim concluso o pensamento
das vislumbradas aparentes formas.
Eu sei como respira. Não soubesse,
ou docemente em mim não respirasse,
e mesmo assim de amor eu ouviria,
dormindo ou acordado, o eco naqueles poços
do amor que me rodeia e toca, enchendo-os
com mais fervor que a vida, mais ternura, mais
carinho, e com silêncio, lágrimas, sorrisos,
e sobretudo, ah sobretudo, uma só mão que pousa."
Jorge de Sena, Peregrinatio ad loca infecta, in Poesia III, Lisboa: Ed. 70, 1989, p. 31.
Saturday, July 12, 2008
O TEMPO A PACIÊNCIA
"O mar o descobre em seu tempo
de aridez
Templo onde brilha a lenta
madrugada do mundo pedras desprendendidas deformadas
pelos elementos em visita
vigilante
Pedras ou pássaros gravados na sombra barcos
de rosto humano
Essa é a outra face da ferida
talhada no centro da terra no centro
do sol pelo fulgor das marés pela ternura
de armas marítimas
O mar os alimenta com seus frutos
de plena infinitude
O tempo a paciência"
Casimiro de Brito, "Algarve Lugar Onde", in Ode & Ceia, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985, p. 194.
Thursday, July 10, 2008
ENQUANTO CAMINHAS PARA A DISSOLUÇÃO
"A natureza podia ser, confinada pelo olhar,
o paço da tua vida, que o sol vai untando
pela manhã, enquanto caminhas para a dissolução
dos horizontes, predestinado a algo que não sabes,
perfilha-te a gravidade sem fuga dos teus passos."
Paulo Teixeira, Inventário e despedida, Lisboa: Ed. Caminho, 1991, p. 34.
Tuesday, July 8, 2008
OBJECTO DE SOMBRA 2
"O que, tanto num caso como noutro, eu procurava sem o saber, era o logos, a que mais tarde chamei cena fulgor - o logos do lugar; da paisagem; da relação; a fonte oculta da vibração e da alegria, em que uma cena - uma morada de imagens-, dobrando o espaço e reunindo diversos tempos,
procura manifestar-se.
E a única realidade a que acedi, que tive de aprender, foi a de estar sempre atenta, de não deixar escapar nenhuma cena diante do princípio da não contradição, de olhar o que está advindo, a propor-se ao futuro.
Aprendi que o real é um nó que se desata no ponto rigoroso em que uma cena fulgor se enrola, e se levanta."
Maria Gabriela Llansol, "O extremo ocidental do Brabante", in Lisboaleipezig 1, o encontro inesperado do diverso. Lisboa: Rolim, 1994, p. 128.
Tuesday, July 1, 2008
APELO LÍRICO SOB CÉU DE MUNCH
"Num ai de luz profundo e soluçante,
Resvala ao mar o sol, como um guerreiro
Que, ferido d'um gladio traiçoeiro,
Na arena cae, vencido, agonisante.
Ó coração ferido e palpitante!
Sol! meu irmão na dor, meu companheiro!
Fez-nos irmãos o ideal, um altaneiro
Orgulho e uma amargura semelhante.
Mas ai! eu morro, solitariamente,
Sem que por mim chore a das tranças bellas,
E, ó Sol! na tua hora derradeira,
O mar soluça inconsolavelmente,
A noite verte o pranto das estrellas
E veste luto a natureza inteira."
Rodrigo Solano, Fumo, pref. João Grave, Porto: Edição da Renascença Portuguesa, 1915, pág. 41.
Wednesday, June 25, 2008
IDEIA DA PAZ
"Não o reclamar-se de sinais e de imagens garantidos, mas sim o facto de não podermos reconhecer-nos em qualquer sinal ou imagem: é isso a paz. Ou, se quisermos, aquela alegria que é mais antiga que a paz e que uma admirável parábola franciscana define como uma permanência - nocturna, paciente, desenraizada - no não-reconhecimento. Ela é o céu totalmente vazio da humanidade, a exposição da inaparência como única pátria dos homens."
Giorgio Agamben, Ideia da Prosa, trad. João Barrento, Lisboa: Edições Cotovia, 1999, p. 75.
Monday, June 23, 2008
A DOR NA INÚTIL HORA NO LIMIAR DA DÚVIDA
"No limiar que não é meu
Sento-me e deixo o irreflectido olhar
Encher-se, sem eu ver, de campo e ceu.
Se é tarde ou cedo, deixo de notar.
Nada me diz de si qualquer cousa que eu
Possa gosar.
Pelos campos sem fim
Sinto correr, porque na face o sinto,
Um vago vento, extranho todo a mim.
Não sei se penso, ou em que dor consinto
Que seja minha ou desespero sem ter fim,
Ou se minto.
Na inutil hora,
Eu, mais inutil que ella, sem sentir
Fito com um olhar que já nem chora
Dor ou desdem, dolo ou fiel sorrir,
O absurdo céu onde nenhuma cousa mora
Para eu fruir."
Fernando Pessoa, Poemas (1915-1920), ed. crítica de João Dionísio, Lisboa: IN-CM, 2005, 313, pp. 260-261.
Sunday, June 22, 2008
A LUZ TORNADA NUVEM E AZUL
"Entrega o livro à soletração da sombra: só um nome obscuro
lê a luz.
E ao lê-la, estilhaça-a, obscurece-a.
A erva ainda não cresceu: a lama é um som a abrir para
a pobreza, sítio onde a água expõe o malefício.
Não há mão que escreva, nesta claridade informe: a palavra
apaga-se a cada movimento do silêncio.
Por vezes, a luz abandona a cegueira e torna-se coisa: monta-
nha, abeto, lábios, corvo, rio.
Não é a salvação, somente a pausa a construir no cansaço a
sua ternura."
Rui Nunes, O Choro é um Lugar Incerto, Lisboa: Relógio D'Água, 2005, p. 62.
Friday, June 20, 2008
MATÉRIA DE JANELA
"Caiu o pano da palavra
A solidão do mundo
já não tem outro cenário além da morte:
a morte representa-se entre as mãos,
o mais solto silêncio
escondeu-se atrás do imóvel pano cinza
que também foi matéria de janela,
torrão de coração posto no ar.
Caiu o pano que antes só subia.
É o final do acto.
Agora há que sair.
Mas haverá fora?"
Roberto Juarroz, Poesia Vertical, antologia, trad. e notas de Arnaldo Saraiva, Porto: Campo das Letras, 1998, p. 19
Thursday, June 12, 2008
APROXIMAÇÃO AO AZUL EM TEMPO DE LUTO 3
"Vejo que a morte se inspira na carne
que a luz martela de leve.
Essas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão,
nelas - envoltas pela sua roseira em brasa -
vejo os meses que respiram.
Os meses fortes e pacientes.
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.
Vejo o meu pensamento morrendo na escarpada
treva das mulheres.
E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina.
Essas mulheres tornam feliz e extensa
a morte da terra.
Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma terra exaltada."
Herberto Helder, Lugar, in Ou o poema contínuo, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, pp. 143-144.
Wednesday, June 11, 2008
APROXIMAÇÃO AO AZUL EM TEMPO DE LUTO 2
"E se aquele que ama dorme, as mulheres que ele ama
sentam-se e dizem:
ama-nos. E ele ama-as.
Desaperta uma veia, começa a delirar, vê
dentro de água os grandes pássaros e o céu habitado
pela vida quimérica das pedras.
Vê que os jasmins gritam nos galhos das chamas.
Ele arranca os dedos armados pelo fogo
e oferece-os à noite fabulosa.
Ilumina de tantos dedos
a cândida variedade das mulheres amadas.
E se ele acorda, então dizem-lhe
que durma e sonhe.
E ele morre e passa de um dia para o outro.
Inspira os dias, leva os dias
para o meio da eternidade, e Deus ajuda
a amarga beleza desses dias.
Até que Deus é destruído pelo extremo exercício
da beleza.
Herberto Helder, Lugar, in Ou o poema contínuo, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, pp. 138-139.
Tuesday, June 10, 2008
APROXIMAÇÃO AO AZUL EM TEMPO DE LUTO 1
"das lágrimas que me desdobram
a pele da face. face
abaixo da abóbada frágil dos
olhos, gasta pela poeira
intensa à superfície do
ar. as lágrimas que
já não impedem a erecção
do olhar. modo vertical
de ser, traço que
se desfere entre o meu corpo e
o céu, único ponto onde
seguro me posso fixar"
valter hugo mãe, estou escondido na cor amarga do fim da tarde, Porto: Campo das Letras, 2000, p. 23.
Monday, June 9, 2008
FROM TOO MUCH LOVE OF LIVING (EM MEMÓRIA)
"Com demasiado amor à vida,
Com a esperança e o dissipado medo,
Agradecemos numa breve prece
A quaisquer que sejam os deuses
Para que nenhuma vida seja eterna,
Para que os mortos nunca se ergam,
Para que o rio mais lento
Serpenteie algures e a salvo até ao mar.
Assim nem as estrelas nem o sol irão despertar,
Nem uma luz irá mudar,
Nem o som das águas tumultuosas,
Nem qualquer som ou visão,
Nem as folhas do Inverno ou da Primavera,
Nem os dias ou o que durante o dia existe.
Apenas um sono eterno
Numa eterna noite."
A.C. Swinburne, O Jardim de Prosérpina, in Poemas, trad. Maria de Lourdes Guimarães, Lisboa: Relógio D'Água, 2006, pp. 126-129.
Saturday, June 7, 2008
REFLEXÕES A PARTIR DAS ÁGUAS 2
"O azul do mar desprende-se da água.
Dos ossos que cravei na realidade, onde pensava
que o mar se sustivesse e da qual sempre
supus também que o mar alimentasse (de tal forma
por vezes o sentimos
encher-se de realismo), nem um só, mesmo pintado,
subsiste agora
que o tempo tudo apaga à minha volta."
Luís Miguel Nava, O Céu sob as Entranhas, in Poesia Completa, org. Gastão Cruz, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002, p. 205.
Wednesday, June 4, 2008
4 DE JUNHO DE 2008
"Quanto a mim, que sinto por vezes no meu íntimo o ridículo de um profeta, sei que nunca aí encontrarei a caridade de um médico. Perdido neste vil mundo, acotovelado pelas multidões, sou como um homem cansado cujo olhar não vê para trás, nos anos profundos, senão desilusão e amargura, e, à sua frente, senão uma tempestade em que nada de novo se contém, nem ensinamentos, nem dor. Na noite em que este homem furtou ao destino algumas horas de prazer, embalado na sua digestão, esquecido - tanto quanto possível -, do passado, contente com o presente e resignado com o porvir, inebriado pelo seu sangue-frio e pelo seu dandismo, orgulhoso de não ser tão baixo como aqueles que passam, diz para consigo, enquanto contempla o fumo do charuto: «Que me importa para onde vão estas consciências?»
Creio que derivei para aquilo que as pessoas do ofício chamam um aperitivo. Todavia, deixarei estas páginas - porque quero datar a minha cólera."
Charles Baudelaire, Fogachos , trad. João Costa, 2ª ed. Lisboa: Guimarães Editores, 1999, pp. 57-58
Monday, June 2, 2008
SOB O SOL EM LUTO
"L' Océan sonore
Palpite sous l'oeil
De la lune en deuil
Et palpite encore,
Tandis qu' un éclair
Brutal et sinistre
Fend le ciel de bistre
D'un long zigzag clair,
Et que chaque lame,
En bonds convulsifs,
Le long des récifs
Va, vient, luit et calme,
Et qu' au firmament
Où l'ouragan erre,
Rugit le tonnerre
Formidablement."
Paul Verlaine, Poèmes Saturniens, Paris: Bookking International, 1993, p. 40.
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