Thursday, January 23, 2014

EUROPA




"Mas a alma?... Essa continua sempre ausente, como a madama Benoiton. - De resto: toda a Europa é um vasto museu de manequins e figuras de cera, dos quais a mola é sempre a mesma, o que os torna triviais, como palácios classe média, como leões de faiança."


Gomes Leal, Fim de um Mundo - Sátiras Modernas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000, p. 394. 

Wednesday, January 22, 2014

EPOCHÊ



"- Que estranha época! - disse Durtal enquanto o acompanhava até à porta. - No preciso momento em que o positivismo vai no auge, o misticismo desperta e as loucuras do oculto começam. 
- Mas sempre foi assim! As pontas de séculos são parecidas. Todas vacilam e todas são equívocas. Quando o materialismo faz estragos, a magia levanta-se. É um fenómeno que reaparece de cem em cem anos. Para não ir mais longe, vê o declínio do século passado. Tal como agora, ao lado dos racionalistas e dos ateus, encontras Saint-Germain, Cagliostro, Saint-Martin, Gabalis, Cazotte, as sociedades dos rosa-cruzes, os círculos infernais! E posto isto adeus, bom serão e boa sorte."


Joris-Karl Huysmans, Além, trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, p. 263. 

Monday, January 20, 2014

REPIQUE



"A propósito dos sinos, também me falou da interpretação dos sonhos. Segundo ele, quem vir em sonhos sinos a tocar está ameaçado de acidente; se o sino repicar, é presságio de maledicência; se cair, há certeza de ataxia; se estalar, há aflições e misérias garantidas. Julgo que ainda acrescentou o seguinte: se houver aves nocturnas a voar à volta de um sino iluminado pela lua, podemos estar certos de um roubo sacrílego na igreja e de que o padre corre risco de morte. 
Dá-se no entanto o caso de o Levítico proibir formalmente esta forma de lidar com os sinos; que se entre para dentro deles quando estão consagrados, que sejam metidos na interpretação dos sonhos. Por isso me desagradou e me fez pedir-lhe com alguma aspereza que acabasse com a brincadeira."


Joris-Karl Huysmans, Além, trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, p. 87. 

Sunday, January 19, 2014

NUDEZ



"Qual a origem do Bem? Qual a do Mal?
Em que profundidade existe a fonte
Das lágrimas salgadas? De que altura
Desce a asa luminosa dum sorriso
Para pousar, cantando, em nossos lábios?
Donde vem esta força escura e cega
Que mata, que destrói? Mas donde vem
Este ímpeto sagrado que nos leva
A sentir e a sofrer a dor alheia,
E que nos tira a túnica, vestindo
Com ela os corpos nus e miseráveis?
Donde vêm estas forças misteriosas? 
E os rastros de alegria ou de amargura
Que deixam, para sempre, em nossa alma?
São geradas em nós? Provêm de nós?
Ou são duma remota e estranha origem?
Ou descendem do nosso casamento
Com a sombra das cousas que nos cercam?"


Teixeira de Pascoaes, Regresso ao Paraíso, 2ª ed., Porto: Renascença Portuguesa, 1923, p. 164. 

Saturday, January 18, 2014

MIL LÁGRIMAS



"Pois não há nada a que nos possamos habituar tão facilmente como aos milagres, quando estes acontecem duma forma sucessiva. Sim! A natureza do Homem é tal, que este se chega a tornar mau, quando não lhe é concedido ininterruptamente tudo aquilo que um destino casual e temporário lhe pareceu prometer. São assim os Homens - e podia esperar-se outra coisa de Andreas?"


Joseph Roth, Lenda do Santo Bebedor, trad. Álvaro Gonçalves, 1997, p. 46. 

Friday, January 17, 2014

SAMARDÃ



"A intenção não basta:
não é preciso acertar
porque se atinge sempre
o que nunca se chega a desejar."


José Guardado Moreira, Os Primeiros Anos, Lisboa: Caminho, 1990, p. 18. 

Thursday, January 16, 2014

SOLUÇOS



" - Porque é que os ciprestes entristecem?... Porque, para nós, são um soluço alongado e verde-escuro. É bem possível que eles sejam muito alegres... É por motivos destes que muitas coisas nos parecem tristes."


António Patrício, Serão Inquieto, Lisboa: Relógio D'Água, 1995, pp. 118-119. 

Wednesday, January 15, 2014

TERRA




"Quanta beleza morta e sepultada!
Quantos sonhos dispersos em poeira, 
Antes de cair em pó quem os sonhou...
Dir-se-á que a noite triste
É como cinza de sorrisos murchos, 
Como um vapor de lágrimas extintas!
E a luz do luar, descendo sobre mim,
Traz consigo nas asas espectrais
Toda essa morte e solidão da lua...
Não há palmo de terra que não seja
Terra de sepultura... Eu vivo ainda;
Não é certo que vivo? E todavia
Já vejo o meu fantasma..."


Teixeira de Pascoaes, Regresso ao Paraíso, 2ª ed., Porto: Renascença Portuguesa, 1923, p. 101. 

Tuesday, January 14, 2014

A FELICIDADE



" - Não tenha medo. Se ficar cansada, pelo menos terei aprendido alguma coisa. 
- Muito pouco, me parece. Minha irmã é que se assusta com a ideia de aprender seja o que for - disse Osmond. 
- Não faço segredo: não quero aprender mais nada. Já sei bastante. Quanto mais se sabe, mais infelicidade se adquire."


Henry James, Retrato de Uma Senhora, trad. Cabral do Nascimento, Lisboa: Relógio D' Água, 1996, p. 286. 

Monday, January 13, 2014

PAÍS DA NOITE




"Aqui, no País da Noite, 
Da Saudade da Vida, as criaturas
Sofrem a dor da sua imperfeição, 
- Imperfeição que a Morte não destrói, 
Que é anterior a tudo, e até parece
ter turvado a misteriosa fonte
Da Luz originária..."


Teixeira de Pascoaes, Regresso ao Paraíso, 2ª ed., Porto: Renascença Portuguesa, 1923, p. 45. 

Sunday, January 12, 2014

JESSÉ



"Hoje és estátua branca transitória
a querer quebrar o espelho inacessível
desesperado beijo te perdeu nesse fugaz
fascínio. Ergues na sombra

o nome de teu nome. Ou talvez
vivas."


Laureano Silveira, Os Caprichos, Porto: Limiar, 1987, p. 66. 

Saturday, January 11, 2014

NAïVETÉ



"Havia em Ralph uma provisão secreta de indiferença, como o bolo suculento que a velha criada bondosa insinua no primeiro farnel que o menino leva para a escola, e que o ajudou a reconciliar-se com o sacrifício."

Henry James, Retrato de Uma Senhora, trad. Cabral do Nascimento, Lisboa: Relógio D'Água, 1996, p. 60. 

Thursday, January 9, 2014

OLÍMPIA, NOVAMENTE




"Ah, devolvesse-me ele a angústia antiga
a adensar-me em fascínio o coração,
dos muros pendeu uma estriga
do pranto em flor dos olhos de Tristão.

Então sofrias tu, mas ressurgias,
morreste então, mas foi forte de amor,
a cada passo e volta hoje verias:
vazios estão os campos sem ardor.

É o vazio uma de tais oferendas
que o obscuro revelam na verdade:
recebes deste, angustiado, as prendas,
mas essa angústia é de outra qualidade."


Gottfried Benn, 50 Poemas, trad. Vasco Graça Moura, Lisboa: Relógio D'Água, 1998, p. 67. 

Wednesday, January 8, 2014

CIRCULAR




"Toda a viagem é circular. Eu tinha andado aos solavancos pela Ásia, fazendo uma parábola num dos hemisférios do planeta. Afinal, o grande circuito é apenas o modo de o homem inspirado se dirigir a casa."


Paul Theroux, O Grande Bazar Ferroviário, trad. José António Freitas e Silva, Lisboa: Quetzal, 2011, p. 473. 

Tuesday, January 7, 2014

MISERERE



"A alma duma cousa é sua clara
E transcendente imagem; seu perfil
Isento de impurezas, reduzido
Ao íntimo cristal, à transparência:
É a presença dum ser sem o seu corpo. 

Aqui, no Inferno, neste sítio lúgubre, 
A criatura expia o velho crime
De se ter  entregado às mãos da Morte, 
Havendo sido dada à luz da Vida."


Teixeira de Pascoaes, Regresso ao Paraíso, 2ª ed., Porto: Renascença Portuguesa, 1923, p. 41. 

Monday, January 6, 2014

MERCÚRIO OU HOMENAGEM A EUSÉBIO NO PAÍS DO COMÉRCIO



"Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos o são, mesmo os melhores, às suas horas, 
e todos estão contentes de se saberem sacanas. 
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para fazer funcionar fraternalmente
a humidade da próstata ou das glândulas lacrimais, 
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam. 

Dizer-se que é de heróis e santos o país, 
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só os asnos, 
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora. 
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice, 
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir. 
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois. 
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia. 
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma."


Jorge de Sena, 40 Anos de Servidão, Lisboa: Edições 70, 1989, p. 136. 

VELHAS ÁRVORES


"As velhas árvores estendem a toda a altura das corporaturas gigantescas os braços folhudos que se entrelaçam em uma convivência pacata; por entre as sombras discretas alarga-se amorável um silêncio de selva, interrompido apenas pelos sussurros ramalhados - gratas palestras das velhas árvores na sua plácida convivência entre bons amigos que conversam confidentes sob a luz suave, temperada pelo abat-jour."


Júlio Lourenço Pinto, "A História da «Lavandisca»", in Esboços do Natural, Lisboa: IN-CM, 2006, p. 54. 

Sunday, January 5, 2014

MADALENA




"O viver que grita muito não diz nada. 
A morte ao dizer tudo é bem calada."


Jorge de Sena, 40 Anos de Servidão, Lisboa: Edições 70, 1989, p. 22. 

Saturday, January 4, 2014

PATHS



"No sólo envueltos en las tinieblas, los espíritus de los que fueron en el mundo vuelven a él, sino también entre las transparentes burbujas del agua cristalina, en las alas de la brisa o de la ráfaga tempestuosa; en los átomos que voltejean a través del rayo de sol que penetra en nuesta estancia por algún pequeño resquicio, y hasta en el eco de la campana que vibra con armoniosa cadencia conmoviendo el alma; en todo están, y giran a nuestro alrededor de continuo, viviendo con nosotros en la luz que nos alumbra, en el aire que respiramos. Por qué se halla el hombre tan en paz y a gusto en la soledad? Precisamente porque en ella está menos solo que entre los que respiran todavía el aire terrenal que nos da vida prestada a los que aún tenemos de morir."


Rosalía de Castro, El primer loco - cuento estraño, Madrid: Editorial Eneida, 2008, p. 13. 

Wednesday, January 1, 2014

INTROIBO



"A ideia de origem representa um horizonte erguido, pelos nossos olhos, no mais longínquo do Passado...
Quem sabe se o Futuro contará da nossa época a origem da Humanidade?"


Teixeira de Pascoaes, Verbo Escuro, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999, p. 81.