Sunday, June 12, 2022

RUA MORTA

 


"Fui feliz. O meu nome deve ter dito rua da Felicidade. Hoje, deveria chamar-me rua do Paraíso Perdido. A morte do barco, assassinado, à minha vista, pela locomotiva; a paragem desta, numa estação esquálida, a meia légua de mim; o desvia de uma estrada, cujo fito, creio eu, não foi servir os povos, foi chegar à tumba sem sair do berço; por último, a gasolina, que pulverizou, pelas aldeias, os centros comerciais... Todos esses bens foram para mim o mal. Deram cabo de mim. A morte, por sua vez, há-de fazer o resto. Por esta fenda, se me irá a vida. Suporto, há século e meio, nas minhas costas, o peso dum grande morro. Mais dia, menos dia, há-de esbarrondar-se... Irão comigo, para o abismo, os bêbedos que me habitam - os meus últimos amigos. Como lhes quero bem... O desmazelo desses rapazes é o toldado buqué da minha vida. Lembra-me o sossego de alma, que foi, no tempo áureo, o prémio da minha energia."

 

João de Araújo Correia, Caminho de Consortes, 2.ª ed., Régua: Imprensa do Douro, 1971, pp. 78-79. 

Friday, June 10, 2022

DIA DE PORTUGAL

 



“Oh! como se me alonga, de ano em ano, 
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio que inda tinha;
Se por experiência se adivinha, 
Qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece;
Mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ela foge, eu tardo; e na tardança, 
Se os olhos ergo a ver se inda parece, 
Da vista se me perde e da esperança.”


Luís de Camões, Sonetos e Canções para o 3.º ano liceal, ed. Joaquim Portugal e Manuel Catarino, Porto: Porto Editora, 1973, p. 66. 

Thursday, June 9, 2022

EQUILÍBRIO

 



"Porque a morte tem o seu tempo
A ruína soma ruína, à cabeça
Equilibra a existência desmoronada e inteira.
Tu és o que edifica
Tu constróis mil vezes.
Porque o raio tem o seu tempo.
És o clarão, a lâmpada, a estrela
Somas luz à luz.
Não és a luz, és mais que a luz
Porque a noite tem o seu tempo."

Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 186. 

Wednesday, June 8, 2022

O AFECTO (para a memória da Divina Paula Rego)

 



"Lentamente, desdobro as pregas dessa vida de menina e em muitos detalhes eu estou lá. Na solidão da quinta, na fantástica e humilde marcha doméstica a que não faltam clarins de vozes, bater de portas, tambores de chuvas e fervuras, sangue e água nas pias, os olhos moribundos das galinhas depenadas com água quente. A brutalidade nem sequer envergonhada dos predadores, os comedores de jantares rituais, o afecto repartido entre as crianças, os sabores, os animais. Um mundo perverso e encantado que as histórias de fadas e princesas trazem no ventre e que vão fazer a tanta obra dum artista, se ela se escapa entre as malhas da casa materna e se evade para o mundo. O mundo artista é um prolongamento da infância, dos seus medos e dos seus gritos penetrantes como o que os pavões soltam num parque deserto. Um parque arruinado, não um jardim francês, geométrico e letal."


Agustina Bessa-Luís e Paula Rego, As Meninas, 2.ª ed., Lisboa: Guerra e Paz, 2008, pp. 11-12. 

Monday, June 6, 2022

AVENTURAS

 


"Mas, depois da primeira noite, quando as mulheres já foram assim desfloradas, são guardadas com tanto ciúme que nunca mais podem falar ou sequer estar na companhia de um homem. Perguntei-lhes qual era a razão de ser daquele costume. Disseram-me que noutros tempos alguns homens tinham morrido naquela terra ao desflorar donzelas, porque estas tinham cobras dentro delas, que mordiam os homens no pénis dentro do corpo das mulheres; e assim muitos homens foram mortos, e daí veio o costume de fazerem outro homem testar o caminho antes de eles próprios se meterem em tal aventura."

John Mandeville, Viagens de Mandeville, trad. Clara Pinto Correia, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2012, p. 271. 

Sunday, June 5, 2022

PENTECOSTES

 



"Mr. Head manteve-se muito quieto e sentiu o ato de misericórdia a tocá-lo de novo, mas, desta vez, soube que não havia palavras no mundo que o pudessem descrever. Compreendeu que este ato emergia da angústia, que não é negada a nenhum homem e que é proporcionada às crianças de formas estranhas. Compreendeu que a angústia era tudo o que um homem podia levar consigo para a morte, para oferecer ao seu Criador, e sentiu-se subitamente abrasado de vergonha por ter tão pouca angústia para poder levar consigo. Ficou aterrado, a julgar os próprios atos com a meticulosidade de Deus, enquanto o ato de misericórdia lhe cobria o orgulho como uma labareda e o consumia. Nunca até então se achara um grande pecador, mas via agora que a sua verdadeira depravação estivera oculta a seus olhos, para evitar causar-lhe desespero. Compreendeu que fora perdoado por pecados cometidos desde o começo dos tempos, quando concebera no seu pobre coração o pecado de Adão, até ao presente, quando negara o pobre Nelson. Percebeu que nenhum pecado era demasiado monstruoso para que o pudesse reclamar como seu, e, como Deus ama em proporção àquilo que perdoa, sentiu-se pronto naquele instante para entrar no Paraíso."


Flannery O'Connor, Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias, trad. Paulo Faria, Lisboa: Relógio d'Água, 2015, p. 118. 

Saturday, June 4, 2022

SACRA

 


"Nunca seria uma santa, mas achava que poderia ser uma mártir, se a matassem depressa. 
Suportaria que a matassem a tiro, mas não que a mergulhassem em óleo a ferver. Não sabia se conseguiria suportar ser despedaçada por leões ou não. Começou a preparar o seu martírio, imaginando-se vestida com um par de collants, numa grande arena, iluminada por cristãos primitivos suspensos em jaulas de fogo, emitindo uma luz dourada e pulverulenta que tombava sobre ela e sobre os leões. O primeiro leão arremeteu e caiu aos pés dela, convertido. Uma sucessão de leões fez o mesmo. Os leões gostavam tanto dela que acabaram por dormir juntos, e, por fim, os romanos viram-se forçados a queimá-la, mas, para espanto deles, o corpo dela não ardia, e, percebendo que ela era tão difícil de matar, acabaram por lhe cortar a cabeça muito depressa com uma espada, e ela foi de imediato para o Céu. Ensaiou várias vezes esta narrativa, regressando, de cada vez que chegava à porta do Paraíso, para junto dos leões."


Flannery O'Connor, Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias, trad. Paulo Faria, Lisboa: Relógio d'Água, 2015, p. 87. 

Friday, June 3, 2022

IMPERMEÁVEL

 



"Mas uma boa cabeça não é uma cabeça impermeável. Porosa a todos os ventos, depois das tempestades só é de manhã um fruto que um orvalho amargo, os sonhos, torna pesado.
Os sonhos."

René Crevel, A Morte Difícil, trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Sistema Solar, 2018, p. 88. 

Thursday, June 2, 2022

SUBIDA

 


"E nunca nenhum homem foi lá excepto um anjo que, pela Graça de Deus, foi lá e trouxe de volta um pedaço de madeira da Arca, que agora está exposto numa Abadia do sopé da montanha. O monge tinha um grande desejo de escalar aquela montanha, e, finalmente, um dia, pôs-se a caminho. Pela altura em que já tinha feito um terço da jornada estava tão cansado e frágil que se sentou numa rocha e entrou em meditação, depois do que adormeceu. Quando acordou estava, de novo, no sopé da montanha. Então implorou a Deus que  o deixasse subir; e um anjo veio e ajudou-o na subida. Foi depois disso que ele trouxe para baixo a madeira da Arca. Desde então nunca mais nenhum outro homem lá foi, e, portanto, os que dizem que foram estão a mentir."

John Mandeville, Viagens de Mandeville, trad. Clara Pinto Correia, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2012, p. 154.

Wednesday, June 1, 2022

NA MESMA MONTANHA

 


"Na mesma montanha, naquele preciso lugar, no Dia do Juízo, virão os quatro anjos tocar as suas trombetas e levantar para a vida todos os que estiverem mortos. E todos estes virão, de corpo e alma, prostrar-se perante o Deus Soberano no Vale de Jeosafate, para escutarem o julgamento sobre si próprios; isto acontecerá num Domingo de Páscoa, à hora da Ressurreição de Cristo. Pois que, como dizem os estudiosos, no mesmo espaço e tempo em que Ele vagueou pelo Inferno virá Ele agora destruir o mundo e tomar os seus amigos e conduzi-los à felicidade sem fim, ao mesmo tempo que condena os maus às dores que nunca acabam."

John Mandeville, Viagens de Mandeville, trad. Clara Pinto Correia, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2012, pp. 121-122. 

Tuesday, May 31, 2022

CORAÇÃO

 



"Parecia-lhe que o carro era um Ford de 1928 ou 1929. - M'nha senhora - disse, e voltou-se para a mulher, concentrando nela toda a sua atenção - deixe dizer-lhe uma coisa. Um desses médicos que praí há, um fulano de Atlanta, pegou num bisturi e cortou o coração humano... o coração humano - repetiu, curvando-se para diante - pra fora do peito duma pessoa e depois segurou-o na mão - e estendeu a mão aberta, com a palma voltada para cima, como se nesta segurasse o peso ligeiro do coração humano - e então pôs-se a olhar pràquilo como se fosse um pinto nascido na véspera, e m'nha senhora - concluiu, deixando que decorresse uma longa pausa significativa em que a cabeça lhe deslizou  para a frente e os olhos cor de barro que brilharam -, ele não ficou a saber mais sobre o coração humano que a senhora ou eu."


Flannery O'Connor, Um Bom Homem É Difícil de Encontrar e Outras Histórias, trad. Paulo Faria, Lisboa: Relógio d'Água, 2015, p. 51. 

Monday, May 30, 2022

O PASTOR ANIMARUM

 




"Ó Pastor das almas,
ó primeira voz,
pela qual todos fomos criados,
seja agora de teu agrado
libertar-nos
de misérias e enfermidades nossas."


Hildegard von Bingen, Flor Brilhante, introd. e trad. Joaquim Félix de Carvalho e José Tolentino Mendonça, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 61. 

Sunday, May 29, 2022

RENASCER

 



"é quando os Homens se transformam 
em Aves
que nascem os Anjos

a leveza alada
floresce-lhes em asas
e o desejo pulveriza-se
abandonando-se o peso
que impedia o voo

a voz
no entanto
não se ramifica 
em siringe

e o canto
flui 
em palavra solitária
não em gorjeio
de harmonia plurítona"


Alexandra Soares Rodrigues, Il n' y a aucune raison de ne pas aller à Cluny, Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2022, p. 10. 

Saturday, May 28, 2022

A VIDA (para a memória de Eurico F. Ribeiro)

 



"A vida é o dia de hoje,
a vida é ai que mal soa,
a vida é sombra que foge,
a vida é nuvem que voa;
a vida é sonho tão leve
que se desfaz como a neve
e como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
mais leve que o pensamento,
a vida leva-a o vento,
a vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
a vida é sopro suave,
a vida é estrela cadente,
voa mais leve que a ave:
Nuvem que o vento nos ares,
onda que o vento nos mares
uma após outra lançou,
a vida – pena caída
da asa de ave ferida -
de vale em vale impelida,
a vida o vento a levou!"


João de Deus, Campo de Flores. 

Thursday, May 26, 2022

IMAGENS

 


"Estas imagens não se restringem às que se configuram na produção iconográfica e artística: englobam também o universo das imagens mentais. E, se é verdade não haver pensamento sem imagem, tão-pouco deveremos deixar-nos afogar no oceano de um psiquismo sem limites. As imagens que interessam ao historiador são imagens colectivas, amassadas pelas vicissitudes da história, e formam-se, modificam-se, transformam-se. Exprimem-se em palavras e em temas."


Jacques Le Goff, O Imaginário Medieval, trad. Manuel Ruas, Lisboa: Editorial Estampa, 1994, p. 16. 

Wednesday, May 25, 2022

AQUELA CONFIANÇA

 



"Aquela fé tão clara e verdadeira, 
A vontade tão limpa e tão sem mágoa, 
Tantas vezes provada em viva frágua
De fogo, i apurada, e sempre inteira;

Aquela confiança, de maneira
qu'encheu de fogo o peito, os olhos d'água,
Por qu'eu ledo passei por tanta mágoa, 
Culpa primeira minha e derradeira, 

De  que me aproveitou? Não de al por certo
Que d'um só nome tão leve e tão vão, 
Custoso ao rosto, tão custoso à vida. 

Dei de mim que falar ao longe e ao perto;
E já a si consola a alma perdida, 
Se não achar piedade, ache perdão."


Sá de Miranda, Poesia, org. Alexandre M. Garcia, Lisboa: Editorial Comunicação, 1984, p. 275. 

Tuesday, May 24, 2022

ESQUELETO

 



"Eu vou onde me ordena a destra do Senhor, 
da Carne amaldiçoada a libertar a Alma,
a chamar para o Bem o Homem pecador!

Eu vou introduzir na suavidade calma,
no sossego final da eterna quietação, 
o mártir que alcançou a triunfante palma, 

e vou levar de Deus a férrea punição
à maldade que afronta e esquece a lei divina, 
ao orgulho que solta a voz da negação!...

Se roubo à Natureza a graça que fascina, 
se faço estiolar as pétalas das rojas, 
se apago da existência a chama purpurina

se tornam tudo em cinza as minhas mãos piedosas, 
se esmago e se aniquilo a sórdida Matéria
- é para abrir do Céu as portas luminosas

e o Espírito levar à imensa Glória etérea!..."


Luís de Magalhães, Antologia Poética, selec. José Valle de Figueiredo, Maia: Edição da Câmara Municipal da Maia, 1998, p. 90 [ort. atual.]. 

Monday, May 23, 2022

AVIDEZ

 


"Os meus pensamentos estão tão afastados de Deus. Mais valia Ele não me ter criado. E os sentimentos que incubo ao escrever neste diário duram aproximadamente meia hora e parecem-me um logro. Não quero estes sentimentos artificiais e superficiais estimulados pelo coro de vozes. Hoje demonstrei ser uma glutona - ávida de bolinhos de aveia integral e de pensamentos eróticos. Nada mais resta dizer acerca de mim."


Flannery  O'Connor, Um Diário de Preces, trad. Paulo Faria, Lisboa: Relógio D'Água, 2014, p. 49. 

Sunday, May 22, 2022

A CRENÇA

 



"Ninguém pode ser ateu sem conhecer todas as coisas. Somente Deus é ateu. O demónio é o maior dos crentes, e lá tem as suas razões."


Flannery  O'Connor, Um Diário de Preces, trad. Paulo Faria, Lisboa: Relógio D'Água, 2014, p. 37. 

Saturday, May 21, 2022

CONHECIMENTOS MERIDIANOS

 



"(...) que devemos dirigir atentamente o olhar com a dialéctica, como com um nível boreal; que nos devemos habituar a suportar na contemplação da natureza a ainda fraca luz da verdade, primeiro indício do sol nascente; até que, finalmente, com a meditação teológica e o santíssimo culto de Deus, possamos aguentar vigorosamente, como águias do céu, o fulgurante esplendor do sol do meio-dia. Talvez sejam estes os conhecimentos matutinos, meridianos e vespertinos, cantados primeiro por David e em seguida explicados amplamente por Agostinho. Esta é a luz resplandecente que inflama os Serafins e do mesmo modo ilumina os Querubin. Esta é a região para a qual tendia sempre o pai Abraão. E este o lugar onde, segundo o ensino dos Cabalistas e dos Árabes, não há lugar para os espíritos impuros."

Pico Della Mirandola, Discurso sobre a Dignidade do Homem, trad. Maria de Lurdes Sirgado Ganho, Ed.70/RBA Editores, 1995, pp. 69; 71.