"Nestes dias de lançar a calda bordalesa às laranjeiras
é bom que vás até ao fundo dos quintais
à estrema dos campos onde sem perturbação
teceram seus silêncios e sussurros deuses rústicos.
É possível que haja ninhos sobre um musgo muito espesso
porque as tardes aí passaram feitas ao correr da aragem
por amenos ócios vivos e cheirosos tons de mortos.
Um homem quando surge é um animal enorme
e de algum modo só as pedras ficam
paradas de terror e tudo o resto foge
- aves divindades animaizinhos frutos.
É o próprio lugar que todo se esquiva
quando o homem se aproxima
- e por isso a solidão de quem visita os muros
a sua tristeza de não se achar em casa
e o esforço de muito nomear e a violência
de forçar uma presença mexendo no repouso
movendo o intocado perdendo para sempre
Morada e Companhia.
Com o coração ferido o seu tamanho aumenta
e todo o ser deserta com pavor à sua vinda
- aves divindades animaizinhos frutos
E até as pedras não fugindo são tropeços
e as árvores tão chegadas obstáculos.
As laranjeiras recebem entretanto a sua calda
abrirão mais tarde em flor.
- Oh!, vai ao fundo dos quintais, à estrema dos campos
e demora-te, demora-te
senta-te e levanta-te mas sempre devagar
imita um grande herbívoro pois ele não assusta
aves divindades animaizinhos frutos
e sobretudo espera
chama com os olhos aceita com os ouvidos
vive estes aromas e pólenes e zumbidos
tu que nada vês sabe que és visto
até ao coração.
Se te alegrares sem teres porquê verás
em breve as divindades a regressar das matas
afastando as sebes repovoando os muros
trazendo atrás de si os cantos e os voos
entre as laranjeiras agora já caiadas
- e o sopro da passagem
num cintilar de teias no interior de arbustos."
Carlos Poças Falcão, A Nuvem, Guimarães: Pedra Formosa, 2000, pp. 20-21.
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