Wednesday, December 23, 2020

CUMULADO

 


"Sou o excluído e o cumulado de graças. Termina-me, beleza que aplainas, pálpebras ébrias mal cerradas. Todas as chagas mostram à janela os seus olhos de fénix despertos. A alegria da resolução canta e geme no outro da parede."

René Char, Furor e Mistério, trad. Margarida Vale de Gato, Lisboa: Relógio D'Água, 2000, p. 89. 

Tuesday, December 22, 2020

A VIAGEM DA ENERGIA

 



"Vislumbro o dia em que alguns homens que não se julgarão generosos e absolvidos, visto que terão conseguido expulsar o desânimo e a submissão ao mal do trato com os seus semelhantes, ao mesmo tempo que terão atacado e dominado as forças da chantagem que de todas as partes os reclamavam, vislumbro o dia em que alguns homens empreenderão sem astúcia a viagem da energia do universo. E, como a fragilidade e a inquietude se alimentam de poesia, será exigido no regresso a esses altos viajantes que se dignem a lembrar-se."


René Char, Furor e Mistério, trad. Margarida Vale de Gato, Lisboa: Relógio D'Água, 2000, p. 67. 

Monday, December 21, 2020

ANIVERSÁRIO

 


" - Trouxe-vos até aqui, capitão Waverley, não só por me lembrar de que a paisagem vos agradaria, como também porque as poesias montanhesas perderiam muito do seu valor sem o cenário que lhes compete. Servindo-me da linguagem poética da minha pátria, digo que o trono mais apropriado para a musa céltica é o outeiro solitário, envolto em neblina, embalado pelo murmúrio das águas. Aquele que a invoca deve preferir a rocha estéril ao vale arborizado e fértil, a solidão do deserto ao ruído dos palácios."

Walter Scott, A Aventura de Waverley, trad. António Vilava, Lisboa: Romano Torres, 1955, p. 131. 

Saturday, December 19, 2020

O ENCOBERTO

 



"Eu tinha a vaga esperança de que surgisse um sismo ou um furacão, de maneira a poder renascer num mundo tranquilo e luminoso."


Sadeq Hedayat, O Mocho Cego, trad. Carimo Mohomed, Silveira: Letras Errantes/E-Primatur, 2020, p. 103. 

Friday, December 18, 2020

LEITURA

 


"Não existe hábito que mais se enraíze do que o de ler sem método nem fim determinado, principalmente se encontramos ensejo e facilidade para o fazer."


Walter Scott, A Aventura de Waverley, trad. António Vilava, Lisboa: Romano Torres, 1955, p. 23. 

Wednesday, December 16, 2020

FEIXE

 



"quem deixou sobre o coração
um feixe de luz
cega nunca"


valter hugo mãe, publicação da mortalidade, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018, p. 56. 

Tuesday, December 15, 2020

METÁFORA

 



"A minha vida está a derreter-se gradualmente no meio das quatro paredes que forma o meu quarto, no meio da robusta fortificação que está construída à volta da minha vida e dos meus pensamentos. 
Não, estou enganado. A minha vida é como um tronco de madeira acabado de cortar e deitado ao lado de uma lareira: está queimado e chamuscado pelo fogo de outros troncos de madeira a queimar, mas não arde completamente nem permanece recente e verde - o fumo sufoca-o."


Sadeq Hedayat, O Mocho Cego, trad. Carimo Mohomed, Silveira: Letras Errantes/E-Primatur, 2020, p. 59. 

Monday, December 14, 2020

SERVIR

 



"o pássaro não esquece a canção

afundá-lo no olhar
a roubar vento
e 
navegar para casa
navegar para casa

onde a lágrima de cristal
pousa entre as louças da cozinha

amar é servir para outro mundo"


valter hugo mãe, publicação da mortalidade, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018, p. 36. 

Sunday, December 13, 2020

EXISTÊNCIAS

 


"Neste momento, os meus pensamentos gelaram. Uma vida singular, ímpar, fora criada em mim, porque a minha vida estava presa a todas as existências que me rodeavam, a todas as sombras que tremeluziam à minha volta. Senti uma profunda e inseparável relação com o mundo, com o movimento de todas as criaturas e com a natureza. Todos os elementos, meus e da natureza, estavam ligados pelos caudais invisíveis de uma qualquer corrente agitada e perturbadora. Nenhum pensamento ou imagem eram para mim antinaturais. Eu compreendia os segredos das antigas pinturas, os mistérios de tratados filosóficos difíceis e a eterna tolice das formas e das normas, porque neste momento eu participava na rotação da Terra e dos planetas, no crescimento das plantas e nas actividades do mundo animal. O passado e o futuro, distante e próximo, partilhavam a minha vida sensível e eram unos comigo."

Sadeq Hedayat. O Mocho Cego, trad. Carimo Mohomed, Silveira: Letras Errantes/E-Primatur, 2020, p. 30. 

Saturday, December 12, 2020

O DESEJO

 



"Que este dia seja tão doce e tão perfeito que nos seja possível evitar as forças das trevas até atingirmos o termo da nossa vida, fixado por Deus na felicidade."


Caspar Hartung Vom Hoff, O Pequeno Livro sobre a Arte, trad. Cristina Diamantino, Lisboa: Edições 70, 1990, p. 39. 

Thursday, December 10, 2020

ESPERANÇA

 



"Esperando que um mundo seja desenterrado pela linguagem, alguém canta no lugar onde se forma o silêncio. Logo verificará que não porque se mostre furioso existe o mar, nem igualmente o mundo. Por isso cada palavra diz o que diz e além disso mais e outra coisa."


Alejandra Pizarnik, Antologia Poética, trad. Fernando Pinto do Amaral, Lisboa: Tinta-da-China, 2020, p. 131. 

Wednesday, December 9, 2020

PREITO

 



"É lei do tempo, Senhora, 
Que ninguém domine agora
E todos queiram reinar.
Quanto vale nesta hora
Um vassalo bem sujeito, 
Leal de homenage e preito
E fácil de governar?

Pois o tal sou eu, Senhora: 
E aqui juro e firmo agora
Que a um despótico reinar
Me rendo todo nesta hora, 
Que a liberdade sujeito...
Não a reis! - outro é meu preito:
Anjos me hão-de governar."


Almeida Garrett, Folhas Caídas, Lisboa: Ulisseia, 1992, p. 163. 

Tuesday, December 8, 2020

FLOR ABERTA

 




"Quem me dera voltar à inocência
Das coisas brutas, sãs, inanimadas, 
Despir o vão orgulho, a incoerência:
- Mantos rotos de estátuas mutiladas!

Ah! Arrancar às carnes laceradas
Sem mísero segredo de consciência!
Ah! Poder ser apenas florescência
De astros em puras noites deslumbradas!

Ser nostálgico choupo ao entardecer, 
De ramos graves, plácidos, absortos
Na mágica tarefa de viver!

Ser haste, seiva, ramaria inquieta, 
Erguer ao sol o coração dos mortos
Na urna de oiro duma flor aberta!..."


Florbela Espanca, Sonetos Completos, 8.ª ed., Coimbra: Livraria Gonçalves, 1950, p. 141.

Monday, December 7, 2020

ANOITECER-ME

 



"Mãos crispadas confinam-nos ao exílio.
Ajuda-me a não pedir ajuda.
Querem anoitecer-me, vão morrer-me.
Ajuda-me a não pedir ajuda."


Alejandra Pizarnik, Antologia Poética, trad. Fernando Pinto do Amaral, Lisboa: Tinta-da-China, 2020, p. 93. 

Sunday, December 6, 2020

PRENHES

 



"Debandava tudo de seus lugares e quem estivesse irremediavelmente preso à casa, ao mester, apelava para a misericórdia divina, como único salvatério, esforçando-se por merecê-la com preces, penitências, votos de toda a ordem, de que nunca mais conseguiria desonerar-se, se alguma vez buscasse cumpri-los. Mas era como as promessas impossíveis a Santa Bárbara, que só o são enquanto a trovoada está armada ou vai ribombando das nuvens prenhes de raios e coriscos."

 

Aquilino Ribeiro, Humildade Gloriosa, 2.ª ed., Lisboa: Livraria Bertrand, s.d., p. 126. 

Saturday, December 5, 2020

SANS SOLEIL

 




"Wilde acreditava que existe no artista uma qualquer fatalidade, e a ideia é mais forte que o homem. 
- Há duas espécies de artistas - dizia. - Uns dão respostas e outros fazem perguntas. Precisamos de saber se somos dos que respondem ou dos que interrogam; porque o que interroga nunca é o que responde. Há obras que aguardam e não são durante muito tempo compreendidas porque dão respostas a perguntas que ainda não foram feitas; é frequente a pergunta surgir muitíssimo tempo depois da resposta. 
E ainda dizia: 
- A alma nasce velha no corpo; o corpo envelhece para rejuvenescê-la. Platão é a juventude de Sócrates."


André Gide, Os Meus Oscar Wilde, trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Sistema Solar, 2020, p. 19. 

Friday, December 4, 2020

MAS A VIDA

 



"a morte morre de riso mas a vida
morre de pranto mas a morte mas a vida
mas nada nada nada"


Alejandra Pizarnik, Antologia Poética, trad. Fernando Pinto do Amaral, Lisboa: Tinta-da-China, 2020, p. 28. 

Thursday, December 3, 2020

ESFERA

 



"Como quem confundido percorre a esfera
da terra só em busca de lugar seguro. 
Escreve para uma linhagem futura o que lhe resta
do nome, esse nada que é a música da língua
rompendo entre a noite esmaltada dos seus dentes. 

Vendo a crista das montanhas, escurecendo
ao longe o sol no horizonte, partilha
com o ar pela última vez as volúpias da alma
e da visão, a aura das nossas cidades tributárias."



Paulo Teixeira, Inventário e Despedida, Lisboa: Editorial Caminho, 1991, p. 22. 

Wednesday, December 2, 2020

ESPIRAIS

 


"Os homens, no geral, à luz do dia e sempre que empunhavam a vara do mundo eram monstruosos tiranos, e ignóbeis na animalidade debaixo de telha."

Aquilino Ribeiro, Humildade Gloriosa, 2.ª ed., Lisboa: Livraria Bertrand, s.d., p. 57. 

Tuesday, December 1, 2020

LIBERTAÇÃO (para a memória de Eduardo Lourenço)

 


"Só a palavra poética é libertação do mundo. Em luta com a mastigação discursiva do mundo, ela descobre por rara e imerecida graça a passagem para esse Instante onde repousaríamos sempre mesmo que a nossa marcha fosse mais vertiginosa que a luz. De repente estamos num continente novo e descobrimos que essa terra nos esperava há muito."


Eduardo Lourenço, Tempo e Poesia, Lisboa: Relógio D' Água, 1987, p. 40.