Tuesday, January 12, 2021

LUGAR DENTRO

 



"De certa maneira, toda a coisa é um mundo, aí onde o mundo não é já o horizonte último, inatingível, que apenas se dá no fim dos tempos e no limite exterior do espaço, mas é a identidade intensiva com não importa qual dos seus objectos. Ser-no-mundo já não significa encontrar-se num espaço infinito que contém todas as outras coisas, mas significa antes a impossibilidade de experimentar num só lugar sem encontrar esse lugar dentro de nós mesmos, tornando-se, portanto, o lugar do nosso lugar. O mundo é esta força que reverte toda a inerência no seu contrário, que transforma todo o ingrediente em lugar e todo o lugar num elemento do mesmo composto."


Emanuele Coccia, A Vida das Plantas - Uma Metafísica da Mistura, trad. Jorge Leandro Rosa, Lisboa: Fundação Carmona e Costa / Documenta, 2019, p. 104. 

Monday, January 11, 2021

HABITAT

 



"Ao fazermos da terra um corpo celeste, tornamos novamente contingente o facto de ela representar o nosso habitat. Ela não é, por definição, habitável, à semelhança da maior parte dos astros. O cosmos não é por si o habitável - ele não é um oikos -, é antes um ouranos: a ecologia é simplesmente a recusa da uranologia."

Emanuele Coccia, A Vida das Plantas - Uma Metafísica da Mistura, trad. Jorge Leandro Rosa, Lisboa: Fundação Carmona e Costa / Documenta, 2019, p. 134. 

Sunday, January 10, 2021

ATMOSFERA

 


"As plantas são essa sopa primordial da terra que permite à matéria transformar-se vida e à vida voltar a transformar-se em «matéria bruta». Chamamos atmosfera a essa mistura radical que faz tudo coexistir num mesmo lugar sem sacrificar formas nem substâncias.
Mais do que uma parte do mundo, a atmosfera é um lugar metafísico no qual tudo depende de tudo o mais, a quintessência do mundo compreendida como espaço onde a vida de cada um está misturada com a vida dos outros.O espaço em que vivemos não é um simples contentor ao qual devêssemos adaptar-nos. A sua forma e a sua existência são inseparáveis das formas de vida que ele alberga, tornando-as possíveis."

Emanuele Coccia, A Vida das Plantas - Uma Metafísica da Mistura, trad. Jorge Leandro Rosa, Lisboa: Fundação Carmona e Costa / Documenta, 2019, p. 76. 

Saturday, January 9, 2021

VATICÍNIOS

 


"Desta forma, acabar-se-á por apagar a memória com passagens de esponja sucessivas, até à total amnésia. Assim a deusa Mnemósine, mãe de todas as artes e de todos os saberes na mitologia greco-romana, será forçada a deixar a Terra para sempre. E com ela, infelizmente, extinguir-se-á entre os seres humanos qualquer desejo de interrogar o passado, para compreender o presente e imaginar o futuro. Teremos uma humanidade desmemoriada, que perderá por completo o sentido da sua identidade e da sua história."


Nuccio Ordine, A Utilidade do Inútil, trad. Margarida Periquito, Matosinhos: Kalandraka Editora, 2019, p. 108. 

Thursday, January 7, 2021

COMPREENSÃO

 


"Debaixo do sol ou das nuvens, misturando-se com a água e com o vento, a sua vida é uma interminável contemplação cósmica, sem dissociar os objectos e as substâncias, ou, dizendo-o de outro modo, aceitando todas as nuances, até se fundir com o mundo, até coincidir com a sua substância. Nunca compreenderemos o que é uma planta sem termos compreendido o que é o mundo."


Emanuele Coccia, A Vida das Plantas - Uma Metafísica da Mistura, trad. Jorge Leandro Rosa, Lisboa: Fundação Carmona e Costa / Documenta, 2019, p. 23. 

Tuesday, January 5, 2021

CLARIDADES

 



"Consegui desculpá-la. Uma tristeza infinita subia-me à garganta como uma maré de lágrimas reprimida há muito tempo. 
Não, eu não amava mais esta menina de Brest do que tinha amado as outras, de Malta. O que eu amava... era o Amor!
Ai destes que amam o Amor!
Porque hão-de ser sempre traídos: pode alguém amá-los intensamente, que nunca são amados o bastante! Acham muito simples coisas complicadas como a felicidade, por exemplo, a ternura, a paixão que se consome na espera de uma promessa ou de uma leviana, paixão que aumenta com o seu próprio, desgaste, tudo quer e muitas vezes mais nada quer, receosa de pedir em excesso, que já se não atreve às claridades da alegria, de tal forma se atreveu à sombra e ao silêncio do tormento."


Rachilde, O Farol de Amor, trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Editorial Estampa, 1987, pp. 117-118. 

Monday, January 4, 2021

O COMBATE

 


"Para combater estes exércitos, só disponho de uma pequenina espada, que mal se distingue à vista desarmada, cortante como uma navalha de barba, sim, lá isso é verdade, e muito mortífera."

René Daumal, A Guerra Santa, trad. António Barahona, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 31. 

Sunday, January 3, 2021

PREVISÕES

 




"O mar subia, trepava e parava sempre nos primeiros degraus, para recair estafado e cinco segundos depois retufar mais furioso do que nunca. Fazia à nossa frente este trabalho de inimigo, mas não tínhamos defesa: nem parapeito à entrada, nem grade férrea que lhe partisse os dentes. Trepava e vinha morder ali como se estivesse em sua casa. Acontece, no entanto, que um paredão invisível, a estiagem calculada pelos Srs. Engenheiros lhe domina a cólera. Nunca chega mais longe e quando lhe facilitam o caminho é para troçarem dele. 
Mas o que o farol parecia era um mastro de navio a afundar-se, e a gente sentia-se levada a grande velocidade para tudo quanto era sítio."


Rachilde, O Farol de Amor, trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Editorial Estampa, 1987, pp. 31-32. 

Saturday, January 2, 2021

DA INTERPRETAÇÃO

 


"Esta imagem exerce sobre nós uma curiosa atracção e é evidentemente simbólica. Pergunto ao alemão: «Que significado tem?» »Ah! Nenhum! O homem no cavalo vai dar-lhe água a beber: nada mais do que isso». «E quanto ao homem da espada?». «Oh, se calhar é um inimigo.». «E os leões com o focinho preto?». «Ah, nada de especial. São meras decorações da fonte». Sob estas imagens há árvores  de onde pendem uma grinalda e a estola da fertilidade. Todo o padrão pintado à volta tem, em vez do ovo e da flecha, bolas com cruzes ligadas na parte de baixo e encimadas por dois círculos pequenos, o chamado sinal de Vénus. «E isto, não será um símbolo?», perguntei ao alemão. «Nem pensar!», replicou ele, abruptamente. «Não passa de uma decoração!» - o que talvez seja verdade. Mas que os artistas etruscos tivessem por ele, enquanto símbolo, o mesmo tipo de sentimento que têm os nossos actuais decoradores de interiores, nisso não é possível acreditar."


D. H. Lawrence, Lugares Etruscos, trad. Helder Moura Pereira, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, pp. 136-137. 

Friday, January 1, 2021

LIMIAR

 



"A força bruta esmaga muitas plantas. Contudo, as plantas acabam sempre por renascer. As Pirâmides, se as compararmos com os malmequeres, não correspondem senão a um fugaz momento. Muito antes de se ouvir a palavra de Buda, já o rouxinol cantava e muito depois de deixar de ouvir-se a palavra de Buda e de Jesus Cristo, o rouxinol continuará a cantar. Porque não prega nem ensina, não manda nem exorta. No princípio não era o Verbo mas o canto do pássaro."


D. H. Lawrence, Lugares Etruscos, trad. Helder Moura Pereira, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 61. 

Thursday, December 31, 2020

FINDA

 



"Nas nossas trevas não há um espaço para a Beleza. Todo o espaço é para a Beleza."


René Char, Furor e Mistério, trad. Margarida Vale de Gato, Lisboa: Relógio D'Água, 2000, p. 271. 

NO INTERIOR DO SEU INTERIOR

 



"Aquele que declarou esta guerra em si próprio, está em paz com os seus semelhantes, e, embora seja por inteiro o campo de batalha mais violenta, no interior do seu interior reina uma paz mais activa do que todas as guerras juntas. E quanto mais reina a paz no interior do seu interior, no silêncio e na solidão central, mais se encarniça a guerra contra o tumulto das mentiras e da ilusão inumerável."


René Daumal, A Guerra Santa, trad. António Barahona, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 37. 

UN LOURD SILENCE

 


"então, um grande silêncio, um pesado silêncio dilatar-se-ia primeiro que tudo, um silêncio grávido de mil trovões."


René Daumal, A Guerra Santa, trad. António Barahona, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 17. 

Wednesday, December 30, 2020

A FARSA

 


"Não pôde ser deixado naquele estado à vista de todos. Na noite de 19, foi decidido levá-lo e depositá-lo na Capela das Febres para lhe dar uma sepultura provisória. A operação, contada por Burckard, transforma-se numa farsa macabra e sórdida: «Foi depositado perto de uma parede, num canto do lado esquerdo do altar. Esta tarefa foi realizada por seis carregadores muito rústicos, que se divertiam e injuriavam o papa e o seu cadáver, e dois mestres carpinteiros, que lhe fizeram um caixão demasiado estreito e curto. Não havia qualquer tocha ou iluminação, nem ninguém para cuidar do corpo, pelo que acabaram por fazê-lo entrar aos socos no caixão, deformando a mitra. Em seguida, cobriram o corpo com o tapete antigo já referido."


Ivan Cloulas, César Bórgia, trad. Victor Silva, Lisboa: Edições 70, 2009, p. 198. 

Tuesday, December 29, 2020

ELEVAÇÃO



"Antes de prosseguirmos, desejamos lembrar ao leitor a história da pedra que, atirada do alto de um monte, começa por deslizar devagarinho, rodeando obstáculos. Mas quando toca o termo da viagem e adquire força, vence grandes distâncias de cada salto, transpõe barrancos e muros e a sua carreira torna-se cada vez mais rápida e impetuosa à medida que se aproxima do momento de ser condenada a repouso eterno."


Walter Scott, A Aventura de Waverley, trad. António Vilava, Lisboa: Romano Torres, 1955, p. 385. 

Monday, December 28, 2020

LIMITE

 


"O reencontro é caloroso. Muito feliz por tornar a vê-los, o papa fá-los sentar nos degraus do seu trono. Após este episódio, a família marca encontro para o dia 22 de Maio, em S. Pedro, a fim de celebrarem o Pentecostes. Neste dia, para grande escândalo de Burckard, as damas de honor, para melhor desfrutarem do espectáculo, trepam, atrás de Lucrécia e Sancha, as estalas dos cónegos e vão instalar-se no ambão, onde se canta a epístola e o Evangelho. Longe de se melindrar, Alexandre alegra-se até ao riso: na Basílica venerável, que é a da autoridade suprema da Cristandade, parece ter sido ultrapassado o limite entre o cumprimento do ritual e o prazer dos sentidos."

Ivan Cloulas, César Bórgia, trad. Victor Silva, Lisboa: Edições 70, 2009, p. 64. 

Sunday, December 27, 2020

UNIÃO

 


"Quando, pois, Irmãos dilectíssimos, celebramos o Natal do Senhor, dia que foi escolhido, entre todos os dos tempos passados, conquanto a ordem dos acontecimentos materiais, como os tinha destinado o decreto eterno, já tenha passado, e a humildade do Redentor já tenha sido toda elevada à glória da majestade do seu Pai, «para que ao nome de Jesus, todo o joelho se dobre nos Céus, na Terra e nos infernos, e toda a língua confesse que Jesus é Senhor e tem glória igual à do Pai», contudo não cessamos de adorar o próprio parto da Virgem que nos traz a salvação; e aquele indissolúvel união do Verbo e da carne não menos a contemplamos deitada no presépio do que sentada no altíssimo trono de seu Pai."

S. Leão Magno, "Nono Sermão da Epifania do Senhor", in Sermões para o Natal, trad. pe. António Fazenda, Lisboa/São Paulo: Verbo, 1974, pp. 154-155. 

Saturday, December 26, 2020

DO CORAÇÃO E DE VONTADE

 


"O outro caso é o de Domingas Domingues, que apresenta uma história deveras interessante e bem complexa e elucidativa do contexto e das implicações da cura. De novo, na presença do túmulo da rainha e das testemunhas anteriormente referidas, compareceu Domingas Domingues, que narra o seu caso, referindo que em tempos «que não sabia quando» bebera uma sanguessuga e que devido a isso tinha frequentes «golfadas de sangue», que alguns diziam ser de uma dor que ela tinha, outros da referida sanguessuga.Para pôr fim a tal desgraça, aconselharam-na a ir à Fonte do Alfafar para beber da sua água, e que tal não resultara, e depois fora ainda a um barco, chamado o «veleiro», junto a Penela, e que igualmente bebera de uma água, que também não surtiu qualquer efeito. Depois foi a São Brás de Coumbra, e ainda a Santa Maria da Parede da Igreja de São Bartolomeu e nada disto resultou, até que foi aconselhada a ir junto do túmulo da rainha Isabel em Coimbra. Aí pedira-lhe «do coração e de vontade" que rogasse a Deus por ela e que a aconselhasse sobre o que fazer com o seu sofrimento, e lançando muito sangue sobre o túmulo sai-lhe pelo nariz a referida sanguessuga, ficando curada."

Maria Filomena Andrade, Isabel de Aragão, mãe exemplar, Lisboa: Círculo de Leitores, 2012, pp. 26-27. 

Friday, December 25, 2020

DIES NATALIS


"Contempla por entre os aloés e os dedos
A criança que acampou connosco agora
O menino que abre uma estrela e nos convoca
Ele contempla. Ele vem. Ele é um cedro que transborda"


Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 205.

Thursday, December 24, 2020

ANTE O MISTÉRIO

 



"E ao anjo ela disse:
ante o mistério os meus olhos cerram-se porque na crença
como no amor há a rudeza

e por isso eu quis
que a palavra viesse da boca sôfrega e seca,

que ela fosse proscrita e bela
quis, para ela, o brilho lamacento da pobreza

Assim, escolherei um rosto de ácida doçura
com suas linhas rudes e sua cor morena

Eu canto a cidade negra e branca
incandescente e dura, prometida, sonhada, 
inconcedida"



Maria Andresen, O que Move o Silêncio do Cavalo e Anteriores Lugares, Lisboa: Relógio D'Água, 2020, p. 28.