Thursday, August 24, 2023
BARTOLOMEU
Tuesday, August 22, 2023
O PARAÍSO DAS DAMAS
"Esta vida de cão espancado tornava más as melhores; e o triste desfile começava: todas devoradas pelo ofício antes dos quarenta anos, desaparecendo, caindo no desconhecido, muitas simplesmente mortas, tisicas ou anémicas, de fadiga e mau ar, algumas lançadas para a prostituição, as mais felizes casadas, enterradas no fundo de uma lojinha de província. Era humano, era justo, esse consumo terrível de carne que os grandes armazéns faziam todos os anos? E ela pleiteava a causa das engrenagens da máquina, não por razões sentimentais, mas com argumentos tirados do próprio interesse dos patrões. Quando se quer uma máquina sólida, emprega-se bom ferro; se o ferro se parte ou se o partem, há uma paragem de trabalho, despesas repetidas de arranque, todo um desperdício de força."
Émile Zola, O Paraíso das Damas, trad. Daniel Augusto Gonçalves, Porto: Civilização, 2013, p. 334.
CHEGADA
"Que aconteceu ao Tempo,
inteiro em cada hora?
Chegava para tudo,
chegava, mas agora
não chega para nada.
Uma vida apressada,
repartida em momentos,
transforma os movimentos
em gestos sem sentido,
em passos, dissonâncias.
O tempo, repartido
em minutos sem calma,
é um tempo perdido,
é um tempo sem alma.
Que aconteceu ao Tempo
que não é de ninguém
mas é de toda a gente?
Perdeu-se no vaivém
da rua indiferente
e na circulação,
no trânsito infernal,
na doida confusão
do juízo final.
Desânimo, cansaço?
Ouvem-se a cada passo
as palavras banais:
«Não tenho tempo, tempo!»
Apetece dizer,
como o sábio chinês:
«Tens todo, não há mais.»
Será assim, talvez,
mas que fazer então
para o tempo chegar?
Não amar, não sonhar?"
Fernanda de Castro, Urgente, Lisboa: Guimarães Editores, 1989, pp. 22-23.
Monday, August 21, 2023
A ORIGEM DO HOMEM
"Dir-se-ão que o regionalismo visa a outros objectivos, seja interpretar o tipo ou a índole de uma região. À parte as cambiantes, e é negócio de folclore, os labregos de Portugal são o mesmo presépio com a mesma psique. Esfomeados, ignorantes, velhacos, trabalhados pelos instintos, tanto o são aqui como além. Quem faz o homem é o céu, é a Natureza, é o solo, são as leis e é a língua, que é como o molde dos pensamentos, e quem diz pensamentos diz racionalidade. Portanto, acabe-se com a ideia incôngrua e sem fundamento de que há uma escola regionalista em Portugal. O que há é figurantes de carapuça ou de chapéu vareiro, de polainas de junco ou safões de pele."
Aquilino Ribeiro, "Escritor regionalista", in Manuel Mendes, Aquilino Ribeiro - a obra e o homem, 2.ª ed., Lisboa: Arcádia, 1977, p. 87.
Sunday, August 20, 2023
OLHAR A VIDA
"O nosso silêncio torna-se escuta que acolhe, que procura compreender e apreender cada criação que, no fundo, tem plasmado cada artista e cada um de nós. Por outro lado, é da atenção dada ao silêncio, a toda a sua profundidade e intimidade que o artista cria as suas obras, isto sobretudo nas artes silenciosas. Se o silêncio não habitasse a arte, nada se revelaria, uma vez que é do silêncio que todo o pensar e agir se origina. O verdadeiro silêncio, o silêncio que diz o ser dos seres falantes que somos, plasma e profundidade duma existência, duma realidade poética e não uma superficialidade globalizada, caso contrário, não seria silêncio mas simples mutismo. Olhar a vida a partir do silêncio é procurar a profundidade e a sacralidade da existência humana, é acolher verdadeiramente a realidade, o mundo, as coisas, os outros em si mesmo, é viver com tudo o que nos faz humanos."
Rafael Gonçalves, Mistagogia poética do silêncio na liturgia- Práticas silenciárias, Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2022, pp. 134-135.
Friday, August 18, 2023
FLORESTA
"O capitão jamais soube quanto tempo durou aquela louca cavalgada. Perto do final, sabia que tinham saído da floresta e que galopavam numa planície aberta. Pelo canto do olho pareceu-lhe ver um homem deitado em cima de uma rocha, ao sol, e um cavalo a pastar ali perto. Não ficou nada surpreendido e, pouco depois, já o havia esquecido. A única coisa que preocupava o capitão nesse momento era o facto de, ao tornarem a entrar na floresta, o cavalo ter começado a desacelerar o passo. Apavorado, o capitão pensou: «Quando ele parar, será o meu fim.»"
Carson McCullers, Reflexos num Olho Dourado, trad. Marta Mendonça, Lisboa: Editorial Presença, 2011, p. 57.
CALEIDOSCÓPIO
"Depois de desistir da vida, o capitão começou subitamente a viver. Sentiu-se invadido por uma grande e louca alegria. Essa emoção, tão inesperada como o mergulho do cavalo pela encosta abaixo, era algo que o capitão nunca havia experimentado. Os seus olhos estavam vidrados e semicerrados, como em delírio, mas, de repente, começou a ver como nunca vira antes. O mundo era um caleidoscópio e cada uma das inúmeras imagens que via ficava gravada no seu cérebro com ardente nitidez."
Carson McCullers, Reflexos num Olho Dourado, trad. Marta Mendonça, Lisboa: Editorial Presença, 2011, p. 56.
Wednesday, August 16, 2023
ENCONTRO
"Deus, manda-me um pedinte, rezou subitamente. Manda-me um antes que eu chegue a casa. Nunca se tinha lembrado de rezar sozinho antes, mas era boa ideia. Fora Deus quem pusera o peru à sua frente. Havia de lhe mandar um pedinte. Tinha por certo que Deus lhe mandaria algum. Estava agora na Hill Street e nessa rua não havia nada senão casas. Seria estranho encontrar um mendigo ali. Os passeios estavam vazios com excepção de meia dúzia de crianças e triciclos. Ruller olhou para trás; os campónios continuavam no seu encalço. Optou por abrandar o passo. Talvez assim os obrigasse a apanharem-no e desse mais tempo a um pedinte para se encontrar com ele. Se é que apareceria algum. Interrogou-se se apareceria. Se aparecesse, implicaria que Deus estava realmente interessado. Teve um medo súbito de não surgir nenhum; foi um medo grande que veio subitamente."
Flannery O'Connor, "O Peru", in O Gerânio - contos dispersos, trad. Luís Coimbra, Lisboa: Cavalo de Ferro Editores, 2010, p. 85.
Tuesday, August 15, 2023
ISENTA
Monday, August 14, 2023
NUN' ÁLVARES PEREIRA
"Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.
Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.
'Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada,
Para a estrada se ver!"
Fernando Pessoa, Mensagem, 2ª. ed., Lisboa: Clássica Editora, 1989, p. 39.
ACENOS
Sunday, August 13, 2023
METÁFORA
"Era uma patetice que uma mercearia pudesse deprimir alguém - não se passa nada lá dentro além de afazeres domésticos corriqueiros. Há mulheres que lá vão comprar feijões, crianças que andam sentadas naqueles carrinhos de compras, pessoas que regateiam o preço de mais quilo, menos quilo de abóbora. E o que ganhava essa gente com isso? Miss Willerton ponderou o assunto. Onde é que havia ali hipótese de expressão individual, de criatividade, de arte? Em toda a sua volta passava-se a mesma coisa - passeios repletos de pessoas a correrem de um lado para o outro, cheias de pressa, com as mãos cheias de pequenas embalagens, como aquela senhora que ali estava com um menino pela trela, a puxar por ele, a dar-lhe esticões, a arrancá-lo de uma montra onde se via uma abóbora iluminada do Dia das Bruxas; provavelmente passaria o resto da vida a puxar e a esticar o rapazinho. E a outra que estava além, a despejar o conteúdo de um saco no chão, ainda outra a assoar o nariz do seu menino, ao cimo da rua uma velhota que trazia três netos a saltitarem em seu redor, e atrás dela um casal que caminhava demasiado juntinho para os critérios do bom requinte."
Flannery O'Connor, "A Colheita", in O Gerânio - contos dispersos, trad. Luís Coimbra, Lisboa: Cavalo de Ferro Editores, 2010, p. 68.
Saturday, August 12, 2023
COGITATIVA
"Não respondeu a criatura divina. Ia cogitativa em qualquer enleio, que lhe realçava a beleza. O aspeito do moço, digamo-lo assim, dava ares dos santos que nós temos vistos nos dramas sacros e nas cenas da glória final a subirem ao céu, rodeados de anjos. E, fora dos dramas sacros, a gente vê também às vezes caras semelhantes à dele nos parvos felizes, nas almas eleitas que se engolfam num oceano de iriadas visões de quimeras, como o sonho de um turco opiado. São caras, para assim dizer, comum de três: de santos de teatro em glória; de parvos felizes; de turcos opiados."
Camilo Castelo Branco, O Santo da Montanha, Lisboa: Companhia Editora de Publicações Ilustradas, s.d., p. 79 [ort. at.]
Friday, August 11, 2023
TRUPE
"Estava a avançar na direcção do buraco para o gato passar. Na outra margem do rio, Deus estava à sua espera com uma trupe de anjos e vestes talares bordadas a oiro para ele vestir, e quando fizesse a travessia, cobrir-se-ia com as vestimentas e ficaria ao lado do Senhor e dos anjos, a julgar os vivos."
Thursday, August 10, 2023
REPOUSO
"Mendel levantou-se, encostou uma cadeira ao sofá, pousou o retrato na cadeira e voltou a deitar-se no sofá. Enquanto os seus olhos se iam lentamente cerrando e entrando no mundo do sono, levavam consigo o azul alegre do firmamento e os rostos dos seus novos netos. No fundo acastanhado do retrato, ao lado dos netos, surgiam as figuras de Jonas e de Mirjam. Mendel adormeceu. E pôde finalmente descansar do peso da felicidade e da grandeza dos milagres."
Joseph Roth, Job - Romance de Um Homem Simples, trad. Gilda Lopes Encarnação, Lisboa: Relógio D'Água, 2023, p. 177.
Tuesday, August 8, 2023
PIEDADE
" - Que sorte a tua, Deborah! - dizia. - Só é pena que nenhum filho varão te tenha sobrevivido, eu próprio terei de dizer a tua oração fúnebre, em breve morrerei eu também e ninguém chorará a nossa morte. Fomos levados pelo vento como dois ínfimos grãos de poeira. Como duas pequeninas chamas a nossa vida se apagou. No teu seio gerei os nossos filhos, tu os trouxeste a este mundo, a morte arrebatou-os de novo. Sem sentido nem alegria foi a tua vida toda. Nos meus verdes anos, encontrei deleite na tua carne, mais tarde rejeitei-a. Talvez tenha sido esse o nosso pecado. Como a chama do amor não ardia nas nossas vidas, como o hábito gélido se instalou nos nossos corpos, tudo pereceu à nossa volta, tudo se definhou e corrompeu. Que sorte a tua, Deborah! O Senhor compadeceu-se de ti. Morreste e foste a enterrar. De mim, o Senhor não se apiedou. Porque morri e continuo vivo. Ele é o Senhor, Ele sabe o que faz. Se puderes, reza por mim, Deborah, para que eu seja apagado do livro dos vivos."
Monday, August 7, 2023
ANINHADO
Sunday, August 6, 2023
LOUVOR
Saturday, August 5, 2023
AGACHADA
"Não pregou olho. Passou a noite agachada ao lado do cesto de Menuchim, a um canto da casa, junto ao fogão. As sombras envolviam o quarto e o seu coração. Não se atrevia já a invocar o Senhor, porquanto Deus lhe parecia demasiado alto, demasiado grandioso, demasiado longínquo, a uma distância infinita, por trás de céus incontáveis: uma escada feita de milhões de preces e orações teria sido necessária para alcançar a ponta do manto do Senhor."
Joseph Roth, Job - Romance de um Homem Simples, trad. Gilda Lopes Encarnação, Lisboa: Relógio D'Água, 2023, p. 19.
Friday, August 4, 2023
PROPULSÃO
"Será tudo? Não, não é. A obra de arte, na sua eloquência, exemplar, propõe-nos ainda mais: ela não ensina apenas o equilíbrio. Efectivamente, que valor teria um equilíbrio obtido por uma fórmula definitiva e imóvel? A obra de arte que, sem dúvida, corresponde sempre a um certo equilíbrio, é, ao mesmo tempo, o sinal de uma propulsão que dá um sentido à vida."
René Huygue, Os Poderes da Imagem, trad. Manuela França, Venda Nova: Livraria Bertrand, s.d., p. 15.



















