Wednesday, November 9, 2022

RAMADAS

 



"O meu amigo tarde a regressar,
pra vir viver entre as ramadas verdes.
Em que jardins, não sei, tarda o amigo
              de vir donde é."


Amândio Reis, Antilha, Lisboa: Língua Morta, 2022, p. 68. 

AS COISAS

 



"Todas as coisas têm um fim à vista.
O fim à vista está nas coisas todas. 
As coisas sabem ser o fim que as coisas
                 não têm à vista delas."


Amândio Reis, Antilha, Lisboa: Língua Morta, 2022, p. 63. 

Tuesday, November 8, 2022

PALAVREADO

 



" - É, pelo menos assim o creio; mas antes de mais nada, queira responder-me a uma pergunta, para eu o  ouvir com sossego: D. Carlota vive?
- Vive, e vive feliz, pois não vive!
- Feliz!... diz o senhor...
- Eu que o digo é porque o sei... Mulheres, meu amigo, mulheres! V. S.ª espanta-se? Bem se vê que está ainda muito verde, e não conhece o mundo... Longe da vista, longe do coração. As raparigas d'agora são como as ventoinhas. Palavreado e mais palavreado; novelas e mais novelas; crendices e papagaíces; e de tino e juízo nem para mandar cantar um cego."


Camilo Castelo Branco, Carlota Ângela, 7.ª ed., Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1924, p. 104.  

Monday, November 7, 2022

FLUTUANTE


"Vi-o como se fosse Diónisos a personificar o outono. Ao cimo do caminho das faias, onde as folhas rubras se confundem no ar e no chão com as folhas de prata. A cabeça coroada de romãs, pinhas, douradas folhas de videira. Uma das romãs abria, ferida pelo bico de um pássaro, deixava o grená, a gota escarlate, descia pelo negro cabelo. Nos braços, uma cesta com cachos de uvas tintas e brancas; uvas dedo-de-dama. Vi-o, como se fosse pedraria de mosaico inscrita em cercadura no chão do pátio. Perto, os rabirruivos entram e saem do poço. Isto foi muito cedo, pelas sete da manhã. Subi, Já sabia que não havia ninguém. Nunca precisei do deserto para ter miragens nem paraísos artificiais. A imagem, e agora a sério, não é um predicado de grande constância. É mesmo um predicado de nenhuma constância. Totalmente flutuante."


João Miguel Fernandes Jorge e Pedro Calapez, O Próximo Outono, Lisboa: Relógio D'Água, 2012, pp. 196-197. 

Sunday, November 6, 2022

SECRETOS FELINOS

 



"Às vezes as palavras querem ver o que dizem
e a morte estremece atrás da sua máscara
por momentos o pânico sobe aos olhos do poema
porque o mundo ameaça coincidir com o mundo.
Mas da areia da sede os secretos felinos lançam
olhares furtivos, 
são agora os meus listrados tigres brônzeos
e saltam o obstáculo dos seus nomes rolantes.
Querem ser mais que oníricos, mais que pura cadência
e atravessam o deserto exterior ao deserto
vão direitos às sombras dos seus saltos futuros
e gulosos devoram o corpo exangue da miragem:
estão hostis estão cativos na sua errância lúdica.
Agora que farei com a tua imagem dilacerada
se para voltar a ter-te deves deixar de existir?
Perseguição, volúpia, os meus tigres disparam-se
a minha solidão deita-se ao sol dentro do nome, 
o poema está nu, agora que estou nu, e vacilamos, 
loucos guerreiros são as palavras contra a morte."


Laureano Silveira, Os Secretos Felinos, Porto: Limiar, 1991, p. 46. 

Saturday, November 5, 2022

SOLIDARIEDADE

 


"Por outro lado, sendo tradicionais as orações dos defuntos determinados (promovidas, naturalmente, pelos seus parentes e amigos), a Igreja acabou por instituir também orações por todos os fiéis defuntos. De facto, vinham igualmente da época pagã os sacrifícios oferecidos pelos parentes do defunto como expressão da solidariedade entre os vivos e os mortos da mesma família, e como elemento fulcral do sistema de dons e contradons estabelecido entre uns e outros: os vivos ajudavam os mortos na sua penosa caminhada até ao destino final, e os mortos protegiam os vivos fazendo uso dos seus poderes invisíveis. Esta solidariedade estabelecia-se não só no círculo natural, puramente humano, do parentesco, mas também no círculo mais vasto da assembleia dos fiéis, da ecclesia, criando laços sobrenaturais entre as suas duas partes, a Igreja militante, na Terra, e a Igreja triunfante, no Céu (não estava ainda bem definida a sua terceira parte, a da Igreja padecente, no Purgatório)."

 

José Mattoso, Poderes Invisíveis - O Imaginário Medieval, Lisboa: Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2013, pp. 56-57. 

Friday, November 4, 2022

OS MORTOS

 


"No fundo, quase todos os elementos e manifestações do culto dos mortos se baseiam na convicção de que os seus poderes misteriosos podem ser captados por meio do culto: os vivos prestam-lhes homenagem e sacrifícios e eles retribuem com a sua proteção. O comércio e a troca de favores, porém, não significam promiscuidade. Os mortos e os vivos devem estar separados para que a morte não destrua nem ameace a vida. O verdadeiro culto dos mortos exclui toda a qualquer espécie de necrofilia ou, mesmo, de macabro. O culto dos mortos representa uma das mais persistentes da luta que a humanidade sempre travou contra a morte."

José Mattoso, Poderes Invisíveis - O Imaginário Medieval, Lisboa: Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2013, p. 29. 

Wednesday, November 2, 2022

FIÉIS

 



"O Senhor disse-me «Filho do homem, estes ossos poderão voltar à vida?» Eu respondi: «Senhor Deus, só vós o sabeis».
Ele disse-me: «Profetiza sobre estes ossos e diz-lhes: «Ossos dissecados, ouvi a palavra do Senhor. Assim fala o Senhor Deus a estes ossos: Eis que vou introduzir em vós o sopro da vida para que revivais. Dar-vos-ei nervos, farei crescer a carne que revestirei de pele e depois meter-vos-ei o sopro da vida, para que revivais. Sabereis assim que Eu sou o Senhor»."


Ez 37, 3-6. 

Tuesday, November 1, 2022

TODOS OS SANTOS


"Se a tela pintada por um artista pudesse pensar e falar, certamente não se lamentaria por ser incessantemente tocada e retocada por um pincel, e não invejaria tão pouco a sorte desse instrumento, pois saberia que não é ao pincel, mas ao artista que o maneja, que deve a beleza de que está revestida. O pincel, por sua vez, não se poderia gloriar da obra-prima por ele feita; sabe que os artistas não ficam embaraçados, que se riem das dificuldades, e que gostam, às vezes, de escolher instrumentos fracos e defeituosos..."

Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face,  História de Uma Alma - manuscritos autobiográficos, Paço de Arcos: Edições Carmelo, 1995, p. 298. 

Monday, October 31, 2022

ASSOMBRADO

 


"Infeliz aquele cujas memórias de infância só lhe trazem medo e tristeza. Desafortunado aquele que só evoca horas solitárias em vastos aposentos escuros com cortinas pesadas e filas intermináveis ​​de livros antigos, ou vigílias assombradas na espessura sombria de árvores gigantescas cobertas de trepadeiras cujos galhos retorcidos balançam silenciosamente lá em cima."

H. P. Lovecraft, "The Outsider", in El miedo que acecha, trad. Francisco Torres Oliver, Madrid: Valdemar, 2012, p. 121. 

Sunday, October 30, 2022

CONSTRUIR

 



"Construir um objecto com a cena da leitura é interrogação da leitura.
Construir objectos com o ponto de vista luminoso do quotidiano."


Maria Gabriela Llansol, Escrito nas Margens - Livro de Horas VIII, Lisboa: Assírio & Alvim, 2022, p. 61. 

Saturday, October 29, 2022

FOLHAS

 

´

"no divã onde meu olhar se pousou, na realidade, a cama onde dormia, vi repousando a asa de um daimon, trazida pelo prato esquerdo na balança da justiça, e pensei que tudo podia servir, ser daimon, mas sem a forma divina infantil a que tantas vezes o associamos, uma asa seria bastante

meu deus, por que não nos contentamos com indícios?"


Maria Gabriela Llansol, O Senhor de Herbais, Lisboa: Relógio D'Água, 2002, p. 232. 

Friday, October 28, 2022

JUDAS TADEU

 



"O interesse não está na resposta que desse, mas na prova de que seria possível perguntar onde está guardada a cor do mundo, sem que a linguagem se nos estilhaçasse na boca. Os mundos não acabariam. Nem tal apocalipse seria de tentar. Apenas teria sido possível acrescentar-lhe outro. Deixando a fraternidade a cuidar do sapiens, como tem tratado, os objectos tratariam de se colorir de vivo. Não que Deus não durma, e continuará a dormir enquanto a literatura o acusar de ter criado um esqueleto inclassificável, mas passaria a ocupar-se de coisas mais acessíveis como, por exemplo, feno, palha, imagens indomáveis e ossos calcinados."


Maria Gabriela Llansol, O Senhor de Herbais, Lisboa: Relógio D'Água, 2002, p. 77. 

Thursday, October 27, 2022

PRECE

 



" O que é uma pessoa que escolheu o belo quando é texto ardente, senão o orante desse enigma? As coisas ignoram se ainda é ser humano __________humano é decisivo. Terreno é um limite. Humano como as ervas deste e do novo mundo. Consciente de que a semente de umas e de outras é, provavelmente, a mesma. Prece é pedir
é também, pensa o corpo
- Pegar nas mais ínfimas das minhas linhas
insiste o caderno"


Maria Gabriela Llansol, Ardente Texto Joshua, Lisboa: Relógio d'Água, 1998, p. 137. 

Tuesday, October 25, 2022

LIMIAR

 


"Coloquei, por fim, o pé no segundo degrau. Aquele em que aprendemos com a morte dos poetas. E fiquei à escuta. Iria até ao fim, sem ditar uma lágrima à escrita, fossem qual fossem os sons que me chegassem do pátio."

Maria Gabriela Llansol, O Senhor de Herbais, Lisboa: Relógio D'Água, 2002, p. 42. 

Sunday, October 23, 2022

AFIRMAÇÃO

 



"mas por outro lado poderia romper-se também
num relâmpago visível pelo que se chama céu
a nossa alegria

e voariam pássaros inacreditáveis pelo que se chama céu
e poldros de crinas longas até ao vento
bateriam os cascos nunca ferrados em galope sobre
o que semelhasse campina

e alguém poderia afirmar que nos viu
pela força incontrolável da nossa alegria"


Glória de Sant'Anna, "Poemas do Tempo Agreste", in Amaranto - Poesia 1951-1983, Lisboa: INCM, 1988, p. 235. 

Saturday, October 22, 2022

CHUVA

 


"Caímos lá todos, procurando às apalpadelas um prazer que o mundo inteiro raivosamente ameaçava. Tínhamos vergonha desse desejo, mas a verdade é que tínhamos de nos entregar a ele! É mais difícil renunciar ao amor do que à vida. Neste mundo gastamos o tempo a matar ou a adorar, e fazemo-lo em simultâneo. «Odeio-te! Adoro-te!» Defendemo-nos, sustentando-nos, passamos a vida ao bípede do século seguinte com frenesi, a todo o custo, como se fosse formidavelmente agradável continuar; como se isso, afinal de contas, nos fizesse eternos. Apesar de tudo desejo de nos beijarmos como se nos coçássemos."


Louis-Ferdinand Céline, Viagem ao Fim da Noite, trad. Aníbal Fernandes, 6.ª ed., Lisboa: Ulisseia, 2014, pp. 78-79. 

Friday, October 21, 2022

LACUNAS

 



"Quando levantei os olhos da folha em branco:
ali estava o anjo na sala.

Um anjo vulgar,
provavelmente uma das graduações mais baixas.

Não faz ideia, disse ele,
quão desnecessário você é.

Uma só entre as quinze mil cambiantes
da cor azul, acrescentou,

tem mais peso no mundo
que tudo o que você faz ou deixa de fazer,

para nem falar do feldspato
e das Nuvens de Magalhães.

Até a vulgar bonina, que nem mete vista,
deixaria uma lacuna, você não.

Fitei-o nos olhos claros, ele esperava
réplica, uma longa disputa.

Não me mexi. Fiquei à espera
até que ele desapareceu, em silêncio."



Hans Magnus Enzensberger, 66 poemas, trad. Alberto Pimenta, s. l.: Edições do Saguão, 2019, p. 115.

Wednesday, October 19, 2022

ABERTURA

 


"Este sonho provoca-me um desejo intenso de conhecimento. Tirar da bruma, extrair do azul para ver a trama do todo e suas ramagens. A memória surpreende-me. A memória é o inverso de conhecer. Mas conhecer tem a sua memória."


Maria Gabriela Llansol, O Sonho é um Grande Escritor  - Livro de Horas VII, Lisboa: Assírio & Alvim, 2020, p. 175. 

Tuesday, October 18, 2022

REALISMO

 


"Em tudo, a grande derrota é esquecer, sobretudo o que nos fez bater a bota, e batê-la sem nunca chegarmos a compreender até que ponto os homens são sacanas. Quando estivermos de pés para a cova de nada vale armar em espertos mas também não devemos esquecer, devemos contar tudo, sem trocar uma palavra, sobre o que mais perverso vimos nos homens, e só então esticar o pernil e descer. É trabalho que vale a vida inteira."

Louis-Ferdinand Céline, Viagem ao Fim da Noite, trad. Aníbal Fernandes, 6.ª ed., Lisboa: Ulisseia, 2014, p. 37.