Sunday, October 16, 2022

CASAL PEDRO

 



"Pernoitei aí uma vez na minha vida. Compreendi, no quarto que me deram, os suplícios do cristão primitivo atirado ao circo. «Cristão às pulgas!», deveria ser, no Império Romano, um grito de prazer para o paganismo sanguinário, como o fatal «Cristão às  feras!»
Era alta  noite, e eu não podia transigir, dormindo, amigavelmente, com a ferocidade dos insectos, se é que não podemos chamar cetáceos àquelas pulgas, de horrível recordação. No sobrado imediato ao da pocilga em que eu me contorcia nas vascas duma agonia de novo género rosnavam uma boa dúzia de galegas, que vinham da terra a visitarem os respectivos galegos residentes no Porto."


Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1977, pp. 198-199. 

Saturday, October 15, 2022

CENTENÁRIO

 




"- Não acho nada - disse o Touro Azul. - Tem uma certa lógica, mas nada me garante que os milagres tenham alguma lógica.
- Não sou candidata a nenhum milagre. Não sou digna disso com certeza. Eu creio que Nossa Senhora foi subestimada e só lhe deram um papel muito apagado na vida de Cristo. Quando quem levou avante a missão dos apóstolos e financiou a cruzada deles pelo mundo foi ela e mais ninguém. Ensinou-lhes línguas e deu-lhes dinheiro para as viagens. Não herdou uma grande fortuna? É isso que eu quero saber. É tempo de saber como as coisas se passaram realmente. As mulheres são sempre postas de lado quando se trata de grandes causas."


Agustina Bessa-Luís, O Princípio da Incerteza - A Alma dos Ricos, 6ª edição. Lisboa: Guimarães Editores, 2005, p. 123. 

DELEITE

 


"Para despertar a alma, Nosso Senhor também costuma usar de outros meios: às vezes, a desoras, estando ela em oração vocal e sem pensar em coisa alguma interior, acha-se de deliciosamente abrasada ou como que repentinamente invadida por um aroma, ou coisa assim, tão penetrante que lhe apanha todos os sentidos. Não digo que cheire mesmo, pois isto não passa de uma comparação mas faz com que a alma sinta realmente que o Esposo ali está; eis que lhe desperta um doce desejo de com ele se deleitar e a dispõe a grandes manifestações de amor e louvor a Deus, bem como a dar-lhe muitas graças."


Santa Teresa de Ávila, "Moradas Sextas", cap. II, in Moradas do Castelo Interior, trad. Manuel de Lucena, Lisboa: Assírio & Alvim, 1988, pp. 115-16. 

Friday, October 14, 2022

POBREZA

 



"Pobre estética,
esta do asseio da língua!
Limitar, limitar, limitar...
Pobre estética, 
e pobre vida!
Porque a minha estética
(e a dos outros?)
é a consequência, 
o real reflexo
da minha acanhada vida."


Irene Lisboa, "Um Dia e Outro Dia", in Poesia I, Lisboa: Editorial Presença, 1991, p. 182. 


Tuesday, October 11, 2022

TENDER

 



"é o tempo da ferrugem que mede o espaço
da contenção, 
do mito temperado com o verniz das fogueiras, 

da suspensão da fala, do estremecimento
da literatura cordata
desviada da língua

em torrente seguem anaximandro e sebastião
rumo aos cardos electrizados nos silos indecifrados
em busca d'engatilhar o indefinido num porto dizível
na paisagem bramida
nas bandeiras da noite abrumada, imberbe, 
estética de uma divagação anoitecida:
o que vem antes e depois do finito, tende a ser infinito"


Luís Filipe Pereira, Elogio da espera [61+43 poemas], Lisboa: Poética Editora, 2022, p. 233. 

Monday, October 10, 2022

CULTURA

 



"Toda a cultura de subversão artística foi reduzida a um nicho, com a nossa bênção. Os nichos são como animais de estimação que disputam a nossa atenção: citações de Ulisses, de Joyce, numa caneca; a famosa fonte, de Duchamp, numa t-shirt. Os Desportistas, de Malevich, feitos de papier-machê e em todos os tamanhos, desde os que cabem na palma da mão a estátuas para o jardim. O mercado transformou-nos, com a nossa autorização, num rebanho educado que adora arte. A arte (literatura, pintura, filme, música...) é o nosso parque de diversões preferido."


Dubravka Ugresic, A Idade da Pele, trad. Rita Costa, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2022, p. 145. 

Sunday, October 9, 2022

A VIDA ENTRE OS ESCOMBROS

 


"A vida entre os escombros é um processo, uma condição contínua. Pois somente dessa maneira aqueles que produziram os escombros podem sobreviver, aqueles que os sustentam e aqueles que não fizeram absolutamente nada para os evitar. É como se não fossem pessoas, mas engrenagens da máquina de destruição, a máquina da autodestruição."

 

Dubravka Ugresic, A Idade da Pele, trad. Rita Costa, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2022, p. 189.  

Saturday, October 8, 2022

OUTUBRO

 



"Ai, que podem os vestidos, 
que podem os espelhos?
Tempo!
Tu é que tens a última palavra!
Corres, 
e, sem dó, tudo inutilizas. 
Bem hajas!
Inutiliza! Mas não demores!
Destrói! Mata!
Que o pior mal, 
de todos o pior, 
é esperar, 
sempre esperar."


Irene Lisboa, "Um Dia e Outro Dia", in Poesia I, Lisboa: Editorial Presença, 1991, p. 41. 

Friday, October 7, 2022

ANIVERSÁRIO




"Viver de amor? É dar___ e não ter___
Medida que compare o quanto se deu
Sem medir____como calcular o Amor?
Se amor não mede __ a medida que perdeu.
Ao teu coração transbordante de ternura,
Dei todo o divino__e meu não era__Corro leve__
Conto apenas com a riqueza que me deste___
O amor que me dá vida."



Thérèse Martin, de Lisieux, O Alto Voo da Cotovia, trad. Maria Gabriela Llansol, Lisboa: Relógio D'Água, 1999, p. 97. 

Wednesday, October 5, 2022

FERIADO

 


"A imperatriz está de férias, os seus amantes estão na guerra. Como ela tem medo dos ladrões de corações com chaves que violam fechaduras, aproveita a ausência dos Orlov para mandar pela calada substituí-las. Muda com rapidez os ferrolhos e cadeados, e ri-se com a partida que vai pregar-lhes."


Princesa Lucien Murat, A vida apaixonada da grande Catarina, trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Sistema Solar, 2022, p. 107. 

Tuesday, October 4, 2022

FICAR-SE

 



"Fico-me a olhar os pássaros.
É o mole, longo, estirado desenho dos voos, a
linha bamba dos coos, ora cortada, sacada, ora
retrocedida e inversa, oposta e repetida... ou a
figura negra e viva dos pássaros que mais nos 
interessa?
Que olhamos com mais gosto?
Que se fixa mais impressionante no plasma da
nossa mente?

Pintores e poetas, que escolher?
Formas ou linhas?
Linhas, tremor, movimento, agitação do espírito?
Formas, corpos, envasamentos?

Os pássaros indiferentes não param..
Amigos!
Ondeiam, sobem, vão e retrocedem, infatigavelmente retrocedem..."



Irene Lisboa, Outono havias de vir - Poesia I, org. Paula Morão, Lisboa: Presença, 1991, p. 320.   

Monday, October 3, 2022

DESMESURA E PENUMBRA

 




"a espera
é uma trajectória
no sentido do silêncio


é corpo deslocado da multidão
conduz as funestas orquídeas,
à vizinhança do que vibra

é corpo d'anfetaminas
exilado na insuturada ferida,
do torso resta o tronco
a sombra rumo à sombra

à finitude d'alguém
que fala

entre a desmesura
e a penumbra"



Luís Filipe Pereira, Elogio da espera [61+43 poemas], Lisboa: Poética Editora, 2022, p. 155.

Sunday, October 2, 2022

A VÓS AS DELÍCIAS

 



"A vós as delícias 
Do amor e as carícias 
Que sabem a mel...
A nós o vinagre
E o travor mais agre
Da taça do fel...

A vós as macias 
Horas pelos dias
E as noites serenas
No colchão de penas...
A nós os cilícios, 
E o sangue e os suplícios
Da coroa de espinhos
E os desertos de todos os caminhos!..."


Fausto José, "O Livro dos Mendigos", in Obra do Poeta Fausto José - Vol. I, Armamar: Edição da Câmara Municipal de Armamar, 1999, p. 344. 

Saturday, October 1, 2022

A CRENÇA

 


"Quando canto a felicidade do Céu, a posse eterna de Deus, não sinto nenhuma alegria, porque canto simplesmente o que quero acreditar. Às vezes, é verdade, um pequeníssimo raio de sol vem iluminar as minhas trevas; então a provação cessa por um instante. Mas depois, a recordação desse raio, em vez de me causar alegria, torna as minhas trevas ainda mais densas."


Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, História de uma Alma, Paço de Arcos: Edições do Carmelo, 1996, p. 274. 

Friday, September 30, 2022

APRENDER

 



"O que aprendi nessa tarde?
Que a minha vida dependia do que me fora inculcado e que, mesmo que um sentimento que em mim antecipadamente se formara - como o meu medo -, não tivesse fundamento, eu não conseguiria ver-me livre dele com subterfúgios. De tal modo os nossos preconceitos são o pensamento dos outros; mas se eu tomasse o risco de observar e de pensar por mim mesmo
- talvez me achasse só, e sem medo.
Para que Alguém me faça perder o norte, é necessário uma geografia pré-existente à minha própria vida; não me tendo nunca sido dado vê-la, não penso desviar-me. 
No entanto, posso errar."


Maria Gabriela Llansol, Contos do Mal Errante, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 192. 

Thursday, September 29, 2022

ESCORREITO

 


" - Ó Escorreito,
a nossa agulha
caiu na cova. 

- Caiu na cova, 
ó Escorreito, 
o nosso precioso machado. 

Temos de os resgatar,
ó Escorreito, 
temos de os resgatar

- a nossa agulha, 
o nosso precioso machado, 
ó Escorreito -, 

antes de voltar para casa, 
nossos feixes de lenha
à cabeça!..."


Zetho Cunha Gonçalves, Noite Vertical. Poemas reunidos (1979-2021), Lisboa: Maldoror, 2021, pp. 262-263. 

Tuesday, September 27, 2022

CONTEXTO

 



"Fê-los figuras, no contexto do que eu chamei o eterno retorno do mútuo. Por outras palavras, todos esses personagens, a maior parte sempre tendo ignorado o que era o afecto, o amor, a sintaxe do amante, 
foram convocados para um acto de recomeço, 
no contexto contemplativo da conversação amorosa."


Maria Gabriela Llansol, Lisboaleipzig 1 - o encontro inesperado do diverso, Lisboa: Rolim, 1994, p. 130. 

Monday, September 26, 2022

FÚLGIDO POENTE

 




"olha-me a paisagem
acolhe-me além da bruma, 
dos fogos

e da impaciência dos rios ásperos
sob as pontes rasgando nas margens 
a luz obstinada das mãos penadas, prematuras

mãos caridosas qu'embalam
estevas de sombras
no centro descentrado
do humano sem memória
atento à vida do coro
de relâmpagos que o medo não esperou
perfis circundantes

dividindo etéreos os caudais d'outro hemisfério
que distraem marés ignotas do lado de cá doendo
como imóveis frutos por erro às voltas
do fúlgido poente das palavras

a paisagem enfabula em secundário grau 
um libelo de unidade, um ego insolado, 
déspota vereda
à volta do tempo ameaçado"


Luís Filipe Pereira, Elogio da espera [61+43 poemas], Lisboa: Poética Editora, 2022, p. 119. 

Sunday, September 25, 2022

ÂNSIAS

 



"Pellerin lia todas as obras de estética para descobrir a verdadeira teoria do Belo, convencido de que, quando a tivesse encontrado, faria obras-primas. Rodeava-se de todos os auxiliares imagináveis, desenhos, gessos, modelos, gravuras; e procurava, ralava-se: acusava o tempo, os nervos, o ateliê, saía à  rua para achar inspiração, sobressaltava-se por tê-la captado, depois abandonava a obra e sonhava com uma outra que devia ser ainda mais bela. Assim atormentado pelas ânsias de glória e perdendo os dias em discussões, acreditando em mil ninharias, nos sistemas, nas críticas, na importância de um regulamento ou de uma reforma em matéria de arte, não tinha ainda, aos cinquenta anos, produzido mais do que alguns esboços. O seu forte orgulho impedia-o de sofrer qualquer desencorajamento, mas andava sempre irritado, nessa exaltação ao mesmo tempo factícia e natural, própria dos comediantes."


Gustave Flaubert, A Educação Sentimental, trad. João Costa, Lisboa: Relógio D'Água, 2008, p. 36. 

Saturday, September 24, 2022

TANQUE

 




"Mergulho nos tanques limpos da paisagem.
Contemplo a paisagem depois de ter mergulhado nos tanques. 

É assim que seguirei pela paisagem, 
molhando-a com a água dos tanques."


Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Turquesa, Lisboa:  INCM, 2019, p. 327.