Saturday, March 12, 2022

CAMINHO

 



"Caminho com a pobreza das pedras, soletrando a areia, soletrando um nome e outro nome na estranheza incerta mas rasgada, vasta como o espaço que me falta e se me abre demais numa clareira aberta do olhar."


António Ramos Rosa, "O Instante", in Obra Poética I, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018, p. 686. 

Friday, March 11, 2022

NÃO CEDÊNCIA



"Diferente era Joshua
Joshua tinha a vontade férrea de ler os textos sagrados, e de compreender. Não tinha o culto da veneração. Anjos e santos não eram escravos. Tinha ainda outra vontade férrea: referir conjuntamente, a esses textos, inteligência e sensibilidade. Um pinheiro, vendo-o debaixo da sua copa, a tentar estudar o andamento no Livro, tornara-o semelhante. «Eu não cedo. Cavarei um fosso onde a passagem a outra vontade é impossível», disse, quando ainda arbusto, quiseram impor-lhe o baptismo da primeira poda."


Maria Gabriela Llansol, Hölder, de Hölderlin, Colares: Colares Editora, s.d., p. 21. 

 

Thursday, March 10, 2022

OLHAR PARA NÓS

 




"Mas quem sabe qual era a intenção de Fabritius? Não restou uma quantidade suficiente das suas obras para tentarmos sequer adivinhar. O pássaro olha para nós. Não está idealizado nem humanizado. É de facto um pássaro. Vigilante, resignado. Não há moral nem história. Não há resolução. Há só um duplo abismo: entre o pintor e o pássaro aprisionado; entre o registo do pássaro que ele deixou e a nossa experiência dele, séculos mais tarde."


Donna Tartt, O Pintassilgo, trad. Ana Saldanha, Lisboa: Editorial Presença, 2014, p. 887. 

Wednesday, March 9, 2022

PADRÃO

 



" - Chegar aonde?
- Compreende que ao dizer «Deus» eu estou meramente a usar «Deus» como referência para um padrão de longo prazo que não somos capazes de decifrar. Um enorme e lento sistema metereológico a aproximar-se de nós vindo de longe, a soprar-nos aleatoriamente como... - eloquentemente, fustigou o ar com a mão como uma folha levada pelo vento. - Mas... talvez não tão aleatório e impessoal como isso, se me falo entender."



Donna Tartt, O Pintassilgo, trad. Ana Saldanha, Lisboa: Editorial Presença, 2014, p. 863. 

Tuesday, March 8, 2022

ANOMALIA

 



"A propósito do culto dos mortos, fala-se muito da intenção de os conservar, de se apropriar deles, por parte dos vivos - e se, por esse cerimonial, se tratasse sobretudo da vontade dos mortos encontrarem um caminho, via, para regressar?"

Fernando Guerreiro, Grãos de Pólen, Lisboa: Língua Morta, 2022, p. 142. 

Monday, March 7, 2022

A COR DO VENTO


 

"Só tinha feito uma pergunta pessoal ao jovem índio:
- Por que sou a única vestida com roupa azul?
- É a cor do vento. É a cor que foge, que nunca volta mas está sempre entre nós, e nos espera como a morte. É a cor do que está morto. E é a cor que se mantém distante, a olhar-nos de longe sem poder aproximar-se. Quando nos aproximamos dela, afasta-se. Não se pode estar perto. Todos somos castanhos, e amarelos, e com cabelo preto, e dentes brancos, e sangue vermelho. Mas somos os únicos que aqui estamos. Os teus olhos azuis são mensageiros do que está longe, não podem ficar aqui, e chegou o tempo de regressares.
- Para onde? - perguntou ela.
- Para as coisas distantes como o sol e a mãe azul da chuva, para lhes dizeres que somos outra vez o povo do mundo e podemos trazer de novo o sol até à lua, como um cavalo vermelho a uma égua azul; nós somos o povo. As mulheres brancas voltaram a levar a lua para o céu, e não querem que ela volte para o sol. Por isso o sol está zangado. E os índios devem dar a lua ao sol."


D. H. Lawrence, Sol, trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Sistema Solar, 2021, p. 104. 

Sunday, March 6, 2022

FRÁGIL

 


"Por isso os deuses são o resultado e não a origem. E os melhores deuses que daí resultam são até agora homens. Mas deuses frágeis como flores; que também têm a qualidade divina das coisas que ganharam a perfeição após serem arrancadas ao assustador império da garra do dragão do cosmo. O homem é tão frágil como as flores. O homem é uma flor, e a chuva pode matá-lo ou socorrê-lo, o calor pode afastá-lo com a sua cauda luminosa e destruí-lo; ou pode, por outro lado, chamá-lo com suavidade à existência, libertando-o do ovo do caos. O homem é delicado como uma flor, com uma qualidade divina que ultrapassa a das flores, e esta senhoria é um delicado problema."

D. H. Lawrence, Sol, trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Sistema Solar, 2021, p. 28. 

Saturday, March 5, 2022

SOL IMENSO

 




"Vai erguer-se o sol em mim, 
aos poucos vou ressuscitar, 
já tenho no meu mar as brancuras de uma falsa madrugada. 

Tenho o sol em mim.
E um sol no céu.
E mais além o sol imenso atrás do sol, 
o sol de imensas distâncias que se abraçam
nos genitais de um vivo espaço. 
E depois de tudo isto o sol dentro do átomo
que é deus no átomo."


D. H. Lawrence, Sol, trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Sistema Solar, 2021, p. 17. 

Thursday, March 3, 2022

ENTENDIMENTO ATÁVICO

 



"Presos a um entendimento atávico, 
à ideia de que o futuro é um fulgor

que brilha ao fundo da avenida.
Um tempo de analepses lança pontes

com os dias terminais de Roma, 
a Pérsia, a Assíria, a Babilónia.

Uma obscura razão atravessa os séculos, 
ressurge nas catacumbas. 

Pelos aparelhos de observação
espreita a dor que desponta, 

o orifício aberto no refugo da História, 
por onde olhar as sobras do presente. 

A estranha consciência que prevalece
à ruína do império romano do Ocidente."

Paulo Teixeira, A Comoção do Mundo, Lisboa: Caminho, 2020, p. 97.

Wednesday, March 2, 2022

CINZA

 



"Porque eu sei que o tempo é sempre tempo
E o lugar é sempre e somente o lugar
E o que é real é-o uma vez somente
E somente para um lugar
Eu rejubilo porque as coisas são como são e
Renuncio ao rosto bendito
E renuncio à voz
Porque eu não posso esperar voltar de novo"

T.S. Eliot, Quarta-Feira de Cinzas, trad. Rui Knopfli, Lisboa: Relógio D'Água, 1998, p. 11. 

Tuesday, March 1, 2022

CARNEM VALE


"Assim, por exemplo, no século XIII, o monge Cesário de Heisterbach (1200-1250), no seu Dialogus Miraculorum, descreve os múltiplos disfarces de Satanás. Eis alguns desses disfarces: homenzarrão vestido de negro, um belo soldado, mouro, cão, gato, urso, boi, cordeiro. Assim disfarçado, persegue o homem constantemente, tanto mais que são muitos e diversos os seus meios de acção, chegando ao ponto de decidir ir viver com alguém permanentemente. Por volta de 1270, o abade de Schönthal chama a atenção dos seus noviços para o facto de que os demónios estão por toda a parte e de «que rodeiam todas as criaturas, formando à sua volta uma espécie de redoma sem falhas nem interstícios». Perturbam a meditação, enviando maus pensamentos. Não deixam ouvir nem compreender as orações. Em suma, é extremamente difícil combatê-los."


Georges Minois, O Diabo – origem e evolução histórica, trad. Augusto Joaquim, Lisboa: Terramar, 2003, p. 49.  

PAZ


“E a paz, criadora de juventude, estende-se pela terra e jamais
a guerra funesta lhes decreta Zeus de vasto olhar;
jamais aos homens de reta justiça acompanha a Fome, 
jamais o Prejuízo; antes em festas gozarão o árduo trabalho. 
Para eles, a terra produz abundante alimento; nas montanhas o carvalho
produz, nos ramos, a glande e, no meio do tronco, as abelhas”


Hesíodo, Trabalhos e Dias, 228-233, trad. Ana Elias Pinheiro e José Ribeiro Ferreira, 2ª. ed., Lisboa: IN-CM, 2014, p. 102. 

Monday, February 28, 2022

OFUSCADA

 



"Sinto às vezes ferir-me a retina ofuscada
Um sonho: - A Natureza abre as perpétuas fontes:
E, ao clarão criador que invade os horizontes,
Vejo a Terra sorrir à primeira alvorada.

Nos mares e nos céus, nas rechãs e nos montes, 
A Vida canta, chora, arde, delira, brada...
E arfa a Terra, num parto horrendo, carregada
De monstros, de mamutes e de rinocerontes.
 
Rude, uma geração de gigantes acorda
Para a conquista. A uivar, do refúgio das furnas 
A migração primeira, em torvelins, transborda.

E ouço, longe, rodar, nas primitivas eras, 
Como uma tempestade entre as sombras nocturnas,
O estrupido brutal d'essa invasão de feras."


Olavo Bilac, "As Viagens", in Poesias, 22.ª ed., Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1946, p. 235.

LUGAR DE REPOUSO

 

 

“A partir desse momento, a medula dos meus ossos ressequiu-se e tornei-me como uma sombra. A minha alma abandonou o meu corpo extenuado e ficou a errar entre estas paredes, como anunciava o vaticínio do santo homem. Esperei, mas em vão, ser libertado das penosas correntes que me ligavam ainda à terra; pois, fica a sabê-lo, quando a alma se separa do corpo, ela aspira ao lugar do repouso; esse vivo desejo faz os anos parecerem-me tão longos como séculos, enquanto ela definha num elemento estranho.”

 

“O Amor Mudo”, in Fantasmagoriana – Aparições, Espectos, Assombrações, trad. Nuno Fonseca, ed. Adriana Molder, Lisboa: Documenta, 2018, p. 54. 

A DECADÊNCIA

 



“Além disso, aliás, muitos demónios dos que foram expulsos do céu figuram como patronos, seja no mar, seja nos rios seja nas fontes seja nas florestas, e há homens que, na sua ignorância de Deus, de modo semelhante, lhes prestam culto, como se fossem deuses e lhes oferecem sacrifícios. No mar, realmente, dão-lhes o nome de Neptuno, nos rios o de Lâmias, nas fontes o de Ninfas, nos bosques o de Diana, que tudo são demónios malignos e espíritos nefandos. São eles quem faz mal e atormenta os homens sem fé, que não sabem munir-se do sinal da cruz.”


Martinho de Braga, Instrução Pastoral sobre Superstições Populares (De Correctione Rusticorum), ed. e trad. Aires A. Nascimento, Lisboa: Edições Cosmos, 1997, pp. 111; 113.

Sunday, February 27, 2022

DUALISMO

 




“Não és bom, nem és mau: és triste e humano…
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal, padeces;
E, rolando num vórtice vesano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas nas virtudes satisfeito,
Não te arrependes, infeliz, dos crimes:

E, no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demónio que ruge e um deus que chora.”


Olavo Bilac, "Tarde", in Poesias, 22.ª ed., Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1946, p. 310.  

Saturday, February 26, 2022

DAIMON

 


“Foi, portanto, depois desta queda dos anjos, que aprouve a Deus plasmar o homem do limo da terra; pô-lo no Paraíso e disse-lhe que se observasse o preceito do Senhor, passaria, sem morrer, para aquele lugar celestial, de onde os anjos rebeldes tinham caído. Se, porém, transgredisse os mandamentos de Deus, teria morte certa. Vendo, pois, que o diabo (ou os seus ministros, os demónios) que o homem tinha sido criado, com um fim, que era o de ocupar o seu lugar, no reino de Deus de onde caíra, levado pela inveja, persuadiu o homem a transgredir as ordens de Deus. Por esta ofensa foi o homem expulso do Paraíso para o exílio deste mundo, onde haveria de padecer muitos trabalhos e dores.”


Martinho de Braga, Instrução Pastoral sobre Superstições Populares (De Correctione Rusticorum), ed. e trad. Aires A. Nascimento, Lisboa: Edições Cosmos, 1997, p. 109. 

POTÊNCIAS


“Este esquema compreende numerosas variantes que, no entanto, não se afastam do dualismo integral de base. Por um lado, o mal, sob todas as suas formas, depende de uma potência autónoma, por outro, o combate entre o bem e o mal é, constitutivamente, um combate viciado, na medida em que, no fim dos tempos, aquele levará a melhor sobre este.”

Georges Minois, O Diabo – origem e evolução histórica, trad. Augusto Joaquim, Lisboa: Terramar, 2003, p. 22. 

Thursday, February 24, 2022

JORNADA NEGRA

 



"Oh! a jornada negra! A alma se despedaça...
Tremem as mãos... O olhar, molhado e ansioso, espia, 
E vê fugir, fugir a ribanceira fria, 
Por onde a procissão dos dias mortos passa.

No céu gelado expira o derradeiro dia, 
Na última região que o teu olhar devassa!
E só, trevoso e largo, o mar estardalhaça
No indizível horror de uma noite vazia...

Pobre! porque a sofrer, a Leste e a Oeste, ao Norte
E ao Sul, desperdiçaste a força de tua alma?
Tinhas tão perto o Bem, tendo tão perto a Morte!

Paz à tua ambição! paz à tua loucura!
A conquista melhor é a conquista da Calma:
- Conquistaste o país do Sono e da Ventura!"


Olavo Bilac, "As Viagens", in Poesias, 22.ª ed., Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1946, p. 246. 

CORAÇÃO RECTO

 



"Mas a fatalidade persegue as acções de alguns homens: dêem-lhes eles o curso que entenderem, elas passam sempre através de um certo meio que de tal modo as retorce e refracta da sua verdadeira direcção - que, mesmo com todos os direitos ao louvor que um coração recto pode conferir, os seus actores são apesar disso obrigados a viver e a morrer sem ele."


Laurence Sterne, A Vida e Opiniões de Tristram Shandy - Parte Primeira, 2.ª ed., trad. Manuel Portela, Lisboa: Antígona, 1998, p. 81.