"Caminho com a pobreza das pedras, soletrando a areia, soletrando um nome e outro nome na estranheza incerta mas rasgada, vasta como o espaço que me falta e se me abre demais numa clareira aberta do olhar."
"Caminho com a pobreza das pedras, soletrando a areia, soletrando um nome e outro nome na estranheza incerta mas rasgada, vasta como o espaço que me falta e se me abre demais numa clareira aberta do olhar."
"Mas quem sabe qual era a intenção de Fabritius? Não restou uma quantidade suficiente das suas obras para tentarmos sequer adivinhar. O pássaro olha para nós. Não está idealizado nem humanizado. É de facto um pássaro. Vigilante, resignado. Não há moral nem história. Não há resolução. Há só um duplo abismo: entre o pintor e o pássaro aprisionado; entre o registo do pássaro que ele deixou e a nossa experiência dele, séculos mais tarde."
"A propósito do culto dos mortos, fala-se muito da intenção de os conservar, de se apropriar deles, por parte dos vivos - e se, por esse cerimonial, se tratasse sobretudo da vontade dos mortos encontrarem um caminho, via, para regressar?"
D. H. Lawrence, Sol, trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Sistema Solar, 2021, p. 104.
"Por isso os deuses são o resultado e não a origem. E os melhores deuses que daí resultam são até agora homens. Mas deuses frágeis como flores; que também têm a qualidade divina das coisas que ganharam a perfeição após serem arrancadas ao assustador império da garra do dragão do cosmo. O homem é tão frágil como as flores. O homem é uma flor, e a chuva pode matá-lo ou socorrê-lo, o calor pode afastá-lo com a sua cauda luminosa e destruí-lo; ou pode, por outro lado, chamá-lo com suavidade à existência, libertando-o do ovo do caos. O homem é delicado como uma flor, com uma qualidade divina que ultrapassa a das flores, e esta senhoria é um delicado problema."
"Assim, por exemplo, no século XIII, o monge Cesário de Heisterbach (1200-1250), no seu Dialogus Miraculorum, descreve os múltiplos disfarces de Satanás. Eis alguns desses disfarces: homenzarrão vestido de negro, um belo soldado, mouro, cão, gato, urso, boi, cordeiro. Assim disfarçado, persegue o homem constantemente, tanto mais que são muitos e diversos os seus meios de acção, chegando ao ponto de decidir ir viver com alguém permanentemente. Por volta de 1270, o abade de Schönthal chama a atenção dos seus noviços para o facto de que os demónios estão por toda a parte e de «que rodeiam todas as criaturas, formando à sua volta uma espécie de redoma sem falhas nem interstícios». Perturbam a meditação, enviando maus pensamentos. Não deixam ouvir nem compreender as orações. Em suma, é extremamente difícil combatê-los."
“A partir desse momento, a medula dos meus ossos ressequiu-se e tornei-me como uma sombra. A minha alma abandonou o meu corpo extenuado e ficou a errar entre estas paredes, como anunciava o vaticínio do santo homem. Esperei, mas em vão, ser libertado das penosas correntes que me ligavam ainda à terra; pois, fica a sabê-lo, quando a alma se separa do corpo, ela aspira ao lugar do repouso; esse vivo desejo faz os anos parecerem-me tão longos como séculos, enquanto ela definha num elemento estranho.”
“O Amor Mudo”, in Fantasmagoriana – Aparições, Espectos, Assombrações, trad. Nuno Fonseca, ed. Adriana Molder, Lisboa: Documenta, 2018, p. 54.
“Além disso, aliás, muitos demónios dos que foram expulsos do céu figuram como patronos, seja no mar, seja nos rios seja nas fontes seja nas florestas, e há homens que, na sua ignorância de Deus, de modo semelhante, lhes prestam culto, como se fossem deuses e lhes oferecem sacrifícios. No mar, realmente, dão-lhes o nome de Neptuno, nos rios o de Lâmias, nas fontes o de Ninfas, nos bosques o de Diana, que tudo são demónios malignos e espíritos nefandos. São eles quem faz mal e atormenta os homens sem fé, que não sabem munir-se do sinal da cruz.”
Martinho de Braga, Instrução Pastoral sobre Superstições Populares (De Correctione Rusticorum), ed. e trad. Aires A. Nascimento, Lisboa: Edições Cosmos, 1997, pp. 111; 113.
“Foi, portanto, depois desta queda dos anjos, que aprouve a Deus plasmar o homem do limo da terra; pô-lo no Paraíso e disse-lhe que se observasse o preceito do Senhor, passaria, sem morrer, para aquele lugar celestial, de onde os anjos rebeldes tinham caído. Se, porém, transgredisse os mandamentos de Deus, teria morte certa. Vendo, pois, que o diabo (ou os seus ministros, os demónios) que o homem tinha sido criado, com um fim, que era o de ocupar o seu lugar, no reino de Deus de onde caíra, levado pela inveja, persuadiu o homem a transgredir as ordens de Deus. Por esta ofensa foi o homem expulso do Paraíso para o exílio deste mundo, onde haveria de padecer muitos trabalhos e dores.”
Martinho de Braga, Instrução Pastoral sobre Superstições Populares (De Correctione Rusticorum), ed. e trad. Aires A. Nascimento, Lisboa: Edições Cosmos, 1997, p. 109.
“Este esquema compreende numerosas variantes que, no entanto, não se afastam do dualismo integral de base. Por um lado, o mal, sob todas as suas formas, depende de uma potência autónoma, por outro, o combate entre o bem e o mal é, constitutivamente, um combate viciado, na medida em que, no fim dos tempos, aquele levará a melhor sobre este.”
"Mas a fatalidade persegue as acções de alguns homens: dêem-lhes eles o curso que entenderem, elas passam sempre através de um certo meio que de tal modo as retorce e refracta da sua verdadeira direcção - que, mesmo com todos os direitos ao louvor que um coração recto pode conferir, os seus actores são apesar disso obrigados a viver e a morrer sem ele."