Sunday, June 16, 2024

ÉCLOGA


 

"Nestes dias de lançar a calda bordalesa às laranjeiras
é bom que vás até ao fundo dos quintais
à estrema dos campos onde sem perturbação
teceram seus silêncios e sussurros deuses rústicos.
É possível que haja ninhos sobre um musgo muito espesso
porque as tardes aí passaram feitas ao correr da aragem
por amenos ócios vivos e cheirosos tons de mortos. 

Um homem quando surge é um animal enorme
e de algum modo só as pedras ficam 
paradas de terror e tudo o resto foge
- aves divindades animaizinhos frutos.
É o próprio lugar que todo se esquiva
quando o homem se aproxima
- e por isso a solidão de quem visita os muros
a sua tristeza de não se achar em casa
e o esforço de muito nomear e a violência 
de forçar uma presença mexendo no repouso
movendo o intocado perdendo para sempre
Morada e Companhia. 

Com o coração ferido o seu tamanho aumenta
e todo o ser deserta com pavor à sua vinda
- aves divindades animaizinhos frutos
E até as pedras não fugindo são tropeços
e as árvores tão chegadas obstáculos. 

As laranjeiras recebem entretanto a sua calda
abrirão mais tarde em flor.
- Oh!, vai ao fundo dos quintais, à estrema dos campos
e demora-te, demora-te
senta-te e levanta-te mas sempre devagar
imita um grande herbívoro pois ele não assusta
aves divindades animaizinhos frutos
e sobretudo espera 
chama com os olhos aceita com os ouvidos
vive estes aromas e pólenes e zumbidos
tu que nada vês sabe que és visto
até ao coração. 

Se te alegrares sem teres porquê  verás
em breve as divindades a regressar das matas
afastando as sebes repovoando os muros
trazendo atrás de si os cantos e os voos
entre as laranjeiras agora já caiadas
 - e o sopro da passagem
num cintilar de teias no interior de arbustos."


Carlos Poças Falcão, A Nuvem, Guimarães: Pedra Formosa, 2000, pp. 20-21. 

Saturday, June 15, 2024

BEM-AVENTURADOS

 




"Bem-Aventurados os do Sono Profundo.
Na vigília os perdemos, sob a luz nos dissipamos
nossas forças abrem feridas pelo choque das vontades
em fuga e labirinto vão os túneis enredados
no que o tempo faz brilhar e o mesmo tempo apaga.

Sob estas galerias as ciências tumultuam
e povos confusos, a golpes, por rupturas
de cornos desejantes seguem os deuses mutantes.

Bem-aventurados os do Sono Profundo.
Mas em nós os primogénitos são mortos à nascença
perseguidos pelo rei que perverte o nosso peito.
E com velhos crimes começamos novos tempos."



Carlos Poças Falcão, A Nuvem, Guimarães: Pedra Formosa, 2000, p. 47.

Thursday, June 13, 2024

ANGÚSTIA

 


"E o Santo, vindo a ela, consolou-a e legitimamente se escusou da culpa que lhe era atribuída. E depois foi ter com o moço que cortara o pé, e fazendo sua oração devotamente e com angústia, agarrou no pé decepado, ajuntou-o à perna, sobre ele fez o sinal da Cruz, e tacteando com suas benditas mãos como se estivera a soldar ou a ungir a ferida, logo o pé ficou tão bem pegado como antes fora."


Livro dos Milagres ou Florinhas de Santo António de Lisboa, 2.ª ed, trad. Frei Fernando Félix Lopes, OFM, Braga: Editorial Franciscana, 2019, XXIX, p. 82. 

Wednesday, June 12, 2024

ORDEM DO INTENSO

 



"Quem ama é inquieto, um nostálgico do esforço. Na convocação da lonjura, o belo não entra em declínio. Amor e Poesia são da ordem do intenso."


Ana Marques Gastão, Lápis Mínimo, Lisboa: Oceanos, 2008, p. 44.

Tuesday, June 11, 2024

DESMESURA

 


"As palavras mais serenas podem ser o esboço de um drama. O martírio da nostalgia está em cada poente. Dar-te a mão, sobrando o corpo, contém o já transposto. Sustém a ave desmesurada."


Ana Marques Gastão, Lápis Mínimo, Lisboa: Oceanos, 2008, p. 49. 

Monday, June 10, 2024

VIVER

 




"Vivi: que me ficou da vida agora
Que baixo à sepultura? Não remorsos,
Vergonhas não. Para a corrida senda
Sem pejo os olhos de volver me é dado.
E tranquilo direi: vivi; - tranquilo
Direi: morro. Não dormem no jazigo
Os ossos do malvado? Não: contínuo,
Na inquieta campa, estão rangendo
Ao som das maldições, deixa de crimes,
Legado ímpio dos maus. Eu sossegado
Na terra de meus pais hei-de encostar-me..."


Almeida Garrett, Camões, ed. Teresa de Sousa Almeida, Lisboa: Editorial Comunicação, 1986, pp. 190-191.

Sunday, June 9, 2024

QUERER



" Cada cidade acrescentou a minha fuga
E o desvio aproximou-me do perigo.
Além do que mereço, além, agora
Queria ser deserto e trabalhar nos campos
Abençoando a fome enquanto ceifo o trigo."


Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 165. 

Saturday, June 8, 2024

AMANTE

 


"amante verdadeiro
é uma árvore

imóvel
inelutável

raízes
desprendendo
os frutos

soltando
para que voem
em sementes
no âmbar
oblíquo
da aurora"


Alexandra Soares Rodrigues, retábulo das perguntas, Vila Nova de Famalicão: Húmus, 2024, p. 144.

Friday, June 7, 2024

LOUVARÁ

 




"Do Lima, donde vim já despedido,
Cavar cá nesta serra a sepultura,
Não sinto que louvor possa a brandura,
Sem me sentir turbar do meu sentido.

A lã de que me vem andar vestido,
Torcendo em várias partes a costura,
Os pés que nus se dão à pedra dura,
Nem me deixam ouvir, nem ser ouvido.

O povo cujo aplauso recebeste,
Vendo teu brando Lima dedicado
A príncipe real, claro, excelente,

Louvará muito mais quando escreveste.
De mim, meu caro irmão, menos louvado,
Louva comigo a Deos eternamente."



Frei Agostinho da Cruz, Sonetos e Elegias, ed. António Gil Rafael, Lisboa: Hiena Editora, 1994, p. 151.

Wednesday, June 5, 2024

SUCESSÃO

 


"O nosso pensamento, à semelhança de um vaso metálico, ressoa por muito tempo, quando, embora de leve, percutido; como ondas sonoras, as nossas recordações, movidas por uma palavra, por um som, por uma flor, por um perfume, sucedem-se, dilatam-se cada vez mais vastas, cada vez mais suaves, até se desvanecerem numa confusa imagem do passado, de formas indefinidas e vagas, mas por isso mesmo mais bela, mais inebriante ainda, num quase sonho, delicioso e grato como um murmúrio que termina o som, como o crepúsculo em que desmaia o dia, como o Outono que sucede à estação dos florescentes verdores."


Júlio Dinis, "As apreensões de uma mãe", in Serões da Província, Lisboa: Círculo de Leitores, 1992, p. 15. 

Monday, June 3, 2024

TURIBULAÇÃO / TRIBULAÇÃO

 



"ouro para o rei
incenso para a turibulação do espírito
mirra para o refresco do morto."


Alexandra Soares Rodrigues, retábulo das perguntas, Vila Nova de Famalicão: Húmus, 2024, p. 115.

Sunday, June 2, 2024

SUMPTUOSO ROSTO


 


"Queria ver por dentro das artérias
o sabor do teu sumptuoso rosto
que não vejo; ouvir a brancura
aguda d'uns olhos sanguíneos
que me não vêem; provar
a espaços d' um tenebroso corpo,
dúbio de impaciência, ansioso
e incontido, ramo por nós ardido
mas que me alumia em abundância
num movimento de exalação acre.

Insones, seríamos único silêncio,
corpo liso de alfinete e pensar
analógico, texto, de degrau e dedos
vestidos de brasa e medo, como se,
terrífica, a memória se tornasse
mosto que dói de cima para baixo.
Poisada sobre o destino de três
fendas de cratera, cerebrais e ocas,
assim a morte fosse uma janela
e nós uma constelação infinita."


Ana Marques Gastão, Adornos, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 77.

Saturday, June 1, 2024

O QUE OUÇO

 



"O que ouço não é meu, 
o que é meu não é daqui, 
o que sinto faz-me ser, 
ergue-me d'um chão morto.

O que escuto ignoro, 
o que almejo não alcanço, 
sou apenas este centro
de tronos sonoros, 
nexo entre a matéria
e a figura, carência
de em ti vir a ser
possibilidade absoluta."


Ana Marques Gastão, Adornos, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 49. 

Friday, May 31, 2024

JUÍZO

 



"quando chegar
ao término
o Universo

onde existirão
as coisas

que não existem?"


Alexandra Soares Rodrigues, retábulo das perguntas, Vila Nova de Famalicão: Húmus, 2024, p. 17.

REFLEXÃO

 



"Está admirado por me ouvir falar assim, não é verdade, mas acredite, nós, mulheres, sempre confinadas aos limites estreitos do lar, reflectimos sobre muitas coisas, e também vemos e sentimos muito. É-nos dado adivinhar algumas coisas, já que as ciências exactas são nossas inimigas juradas. Sabemos ler os olhares e os comportamentos. Nunca dizemos nada, estranhamente, calamos, pois por regra exprimimo-nos mal e de modo inconveniente. As nossas palavras apenas conseguem irritar os homens, assoberbados com os seus negócios, mas nunca os convencem. Assim vivemos, nós mulheres, concordamos com o que fazem à nossa volta e com o que fazem de nós, falamos de trivialidades, o que apenas reforça a suspeita de que somos espíritos pequenos e subalternos, e estamos sempre contentes, é pelo menos o que eu penso."

Robert Walser, O Ajudante, trad. Isabel Castro Silva, Lisboa: Relógio D'Água, 2006, p. 188.

Thursday, May 30, 2024

DEUS ENIM

 



"Deus fez saber, desde a primeira mulher,
que da custódia do homem a mulher se nutriria."



Hildegard von Bingen, Flor Brilhante, introd. e trad. Joaquim Félix de Carvalho e José Tolentino Mendonça, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 187.

Tuesday, May 28, 2024

ANIVERSÁRIO

 



"Que grande a morte. O seu amor instiga
maturação. E dissemina veias
por estarmos a vê-las vir acima
incrementando o dentro da matéria.
Que é fruto, ventre. E, mesmo, às vezes, bilha
a acalentar a douração materna
que o pranto traz. A confirmar quão íntima
a luz exuma a projecção eterna
da sua natureza. Até a vigília
virar concentração, enfim, perpétua,
e o amor da morte abandonar, longínqua,
a passagem do mundo, sempre aberta."


Fernando Echevarría, Uso de Penumbra, Porto: Afrontamento, 1995, p. 160.

Monday, May 27, 2024

GENUINAMENTE

 


"Esta mulher provém de um círculo genuinamente burguês. Foi educada na utilidade e no asseio, nas esferas onde a utilidade e a prudência são os valores mais altos. Teve poucos prazeres românticos na sua vida, mas é por isso mesmo que os ama, que os guarda como um tesouro no fundo da alma."


Robert Walser, O Ajudante, trad. Isabel Castro Silva, Lisboa: Relógio D'Água, 2006, pp. 42-43.

Sunday, May 26, 2024

UNO/TRINO



"Sou Deus. Sei do Mistério e sei de Mim.
As minhas sensações não sei contê-las.
Sou velho professor. Ensino estrelas
No Dia, minha escola de marfim.

A Noite é dessa escola o quadro preto.
Para passar o Tempo e o que fiz
Com a Lua servindo-me de giz
Eu pretendo riscar o quadro preto.

A cor das minhas mãos é a Distância.
Em mim nunca existiu o meu passado.
Sou de Mim catedral e próprio monge.

Às vezes tento ver a minha infância.
Não conheci meus pais. Fui enjeitado.
Encontrou-me o Mistério à beira-longe."


Alfredo Guisado, Tempo de Orfeu, Coimbra: Angelus Novus, 2003. p. 118.

Saturday, May 25, 2024

EM VÉUS PAGÃOS

 



"Quando te vi eu fui o teu voar
E desci Deus pra me encontrar em mim.
Voei-me sobre pontes de marfim
E uma das pontes, Deus, em meu olhar!

Aureolei-me de oiro em sombra fria
E meus voos caíram-me destruídos.
Foram dedos de Deus os meus sentidos.
Meu Corpo andou ao colo de Maria.

Agora durmo Cristo em véus pagãos.
São tapetes de Deus as minhas mãos.
Regresso Ânsia pra alcançar os céus.

Ergo-me mais. Sou o perfil da Dor.
Sobre os meus ombros de Deus olho em redor
E Deus não sabe qual de nós é Deus!"



Alfredo Guisado, Tempo de Orfeu, Coimbra: Angelus Novus, 2003. p. 189.