Sunday, June 16, 2024
ÉCLOGA
Saturday, June 15, 2024
BEM-AVENTURADOS
"Bem-Aventurados os do Sono Profundo.
Na vigília os perdemos, sob a luz nos dissipamos
nossas forças abrem feridas pelo choque das vontades
em fuga e labirinto vão os túneis enredados
no que o tempo faz brilhar e o mesmo tempo apaga.
Sob estas galerias as ciências tumultuam
e povos confusos, a golpes, por rupturas
de cornos desejantes seguem os deuses mutantes.
Bem-aventurados os do Sono Profundo.
Mas em nós os primogénitos são mortos à nascença
perseguidos pelo rei que perverte o nosso peito.
E com velhos crimes começamos novos tempos."
Carlos Poças Falcão, A Nuvem, Guimarães: Pedra Formosa, 2000, p. 47.
Thursday, June 13, 2024
ANGÚSTIA
"E o Santo, vindo a ela, consolou-a e legitimamente se escusou da culpa que lhe era atribuída. E depois foi ter com o moço que cortara o pé, e fazendo sua oração devotamente e com angústia, agarrou no pé decepado, ajuntou-o à perna, sobre ele fez o sinal da Cruz, e tacteando com suas benditas mãos como se estivera a soldar ou a ungir a ferida, logo o pé ficou tão bem pegado como antes fora."
Livro dos Milagres ou Florinhas de Santo António de Lisboa, 2.ª ed, trad. Frei Fernando Félix Lopes, OFM, Braga: Editorial Franciscana, 2019, XXIX, p. 82.
Wednesday, June 12, 2024
ORDEM DO INTENSO
"Quem ama é inquieto, um nostálgico do esforço. Na convocação da lonjura, o belo não entra em declínio. Amor e Poesia são da ordem do intenso."
Tuesday, June 11, 2024
DESMESURA
"As palavras mais serenas podem ser o esboço de um drama. O martírio da nostalgia está em cada poente. Dar-te a mão, sobrando o corpo, contém o já transposto. Sustém a ave desmesurada."
Ana Marques Gastão, Lápis Mínimo, Lisboa: Oceanos, 2008, p. 49.
Monday, June 10, 2024
VIVER
"Vivi: que me ficou da vida agora
Que baixo à sepultura? Não remorsos,
Vergonhas não. Para a corrida senda
Sem pejo os olhos de volver me é dado.
E tranquilo direi: vivi; - tranquilo
Direi: morro. Não dormem no jazigo
Os ossos do malvado? Não: contínuo,
Na inquieta campa, estão rangendo
Ao som das maldições, deixa de crimes,
Legado ímpio dos maus. Eu sossegado
Na terra de meus pais hei-de encostar-me..."
Sunday, June 9, 2024
QUERER
Saturday, June 8, 2024
AMANTE
"amante verdadeiro
é uma árvore
imóvel
inelutável
raízes
desprendendo
os frutos
soltando
para que voem
em sementes
no âmbar
oblíquo
da aurora"
Friday, June 7, 2024
LOUVARÁ
"Do Lima, donde vim já despedido,
Cavar cá nesta serra a sepultura,
Não sinto que louvor possa a brandura,
Sem me sentir turbar do meu sentido.
A lã de que me vem andar vestido,
Torcendo em várias partes a costura,
Os pés que nus se dão à pedra dura,
Nem me deixam ouvir, nem ser ouvido.
O povo cujo aplauso recebeste,
Vendo teu brando Lima dedicado
A príncipe real, claro, excelente,
Louvará muito mais quando escreveste.
De mim, meu caro irmão, menos louvado,
Louva comigo a Deos eternamente."
Wednesday, June 5, 2024
SUCESSÃO
"O nosso pensamento, à semelhança de um vaso metálico, ressoa por muito tempo, quando, embora de leve, percutido; como ondas sonoras, as nossas recordações, movidas por uma palavra, por um som, por uma flor, por um perfume, sucedem-se, dilatam-se cada vez mais vastas, cada vez mais suaves, até se desvanecerem numa confusa imagem do passado, de formas indefinidas e vagas, mas por isso mesmo mais bela, mais inebriante ainda, num quase sonho, delicioso e grato como um murmúrio que termina o som, como o crepúsculo em que desmaia o dia, como o Outono que sucede à estação dos florescentes verdores."
Júlio Dinis, "As apreensões de uma mãe", in Serões da Província, Lisboa: Círculo de Leitores, 1992, p. 15.
Monday, June 3, 2024
TURIBULAÇÃO / TRIBULAÇÃO
"ouro para o rei
incenso para a turibulação do espírito
mirra para o refresco do morto."
Sunday, June 2, 2024
SUMPTUOSO ROSTO
"Queria ver por dentro das artérias
o sabor do teu sumptuoso rosto
que não vejo; ouvir a brancura
aguda d'uns olhos sanguíneos
que me não vêem; provar
a espaços d' um tenebroso corpo,
dúbio de impaciência, ansioso
e incontido, ramo por nós ardido
mas que me alumia em abundância
num movimento de exalação acre.
Insones, seríamos único silêncio,
corpo liso de alfinete e pensar
analógico, texto, de degrau e dedos
vestidos de brasa e medo, como se,
terrífica, a memória se tornasse
mosto que dói de cima para baixo.
Poisada sobre o destino de três
fendas de cratera, cerebrais e ocas,
assim a morte fosse uma janela
e nós uma constelação infinita."
Ana Marques Gastão, Adornos, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 77.
Saturday, June 1, 2024
O QUE OUÇO
Friday, May 31, 2024
JUÍZO
"quando chegar
ao término
o Universo
onde existirão
as coisas
que não existem?"
REFLEXÃO
"Está admirado por me ouvir falar assim, não é verdade, mas acredite, nós, mulheres, sempre confinadas aos limites estreitos do lar, reflectimos sobre muitas coisas, e também vemos e sentimos muito. É-nos dado adivinhar algumas coisas, já que as ciências exactas são nossas inimigas juradas. Sabemos ler os olhares e os comportamentos. Nunca dizemos nada, estranhamente, calamos, pois por regra exprimimo-nos mal e de modo inconveniente. As nossas palavras apenas conseguem irritar os homens, assoberbados com os seus negócios, mas nunca os convencem. Assim vivemos, nós mulheres, concordamos com o que fazem à nossa volta e com o que fazem de nós, falamos de trivialidades, o que apenas reforça a suspeita de que somos espíritos pequenos e subalternos, e estamos sempre contentes, é pelo menos o que eu penso."
Thursday, May 30, 2024
DEUS ENIM
"Deus fez saber, desde a primeira mulher,
que da custódia do homem a mulher se nutriria."
Tuesday, May 28, 2024
ANIVERSÁRIO
"Que grande a morte. O seu amor instiga
maturação. E dissemina veias
por estarmos a vê-las vir acima
incrementando o dentro da matéria.
Que é fruto, ventre. E, mesmo, às vezes, bilha
a acalentar a douração materna
que o pranto traz. A confirmar quão íntima
a luz exuma a projecção eterna
da sua natureza. Até a vigília
virar concentração, enfim, perpétua,
e o amor da morte abandonar, longínqua,
a passagem do mundo, sempre aberta."
Fernando Echevarría, Uso de Penumbra, Porto: Afrontamento, 1995, p. 160.
Monday, May 27, 2024
GENUINAMENTE
"Esta mulher provém de um círculo genuinamente burguês. Foi educada na utilidade e no asseio, nas esferas onde a utilidade e a prudência são os valores mais altos. Teve poucos prazeres românticos na sua vida, mas é por isso mesmo que os ama, que os guarda como um tesouro no fundo da alma."
Sunday, May 26, 2024
UNO/TRINO
"Sou Deus. Sei do Mistério e sei de Mim.
As minhas sensações não sei contê-las.
Sou velho professor. Ensino estrelas
No Dia, minha escola de marfim.
A Noite é dessa escola o quadro preto.
Para passar o Tempo e o que fiz
Com a Lua servindo-me de giz
Eu pretendo riscar o quadro preto.
A cor das minhas mãos é a Distância.
Em mim nunca existiu o meu passado.
Sou de Mim catedral e próprio monge.
Às vezes tento ver a minha infância.
Não conheci meus pais. Fui enjeitado.
Encontrou-me o Mistério à beira-longe."
Alfredo Guisado, Tempo de Orfeu, Coimbra: Angelus Novus, 2003. p. 118.
Saturday, May 25, 2024
EM VÉUS PAGÃOS
"Quando te vi eu fui o teu voar
E desci Deus pra me encontrar em mim.
Voei-me sobre pontes de marfim
E uma das pontes, Deus, em meu olhar!
Aureolei-me de oiro em sombra fria
E meus voos caíram-me destruídos.
Foram dedos de Deus os meus sentidos.
Meu Corpo andou ao colo de Maria.
Agora durmo Cristo em véus pagãos.
São tapetes de Deus as minhas mãos.
Regresso Ânsia pra alcançar os céus.
Ergo-me mais. Sou o perfil da Dor.
Sobre os meus ombros de Deus olho em redor
E Deus não sabe qual de nós é Deus!"
Alfredo Guisado, Tempo de Orfeu, Coimbra: Angelus Novus, 2003. p. 189.



















