Sunday, July 14, 2024

A ARTE

 




"Faço descobertas que levam ao silêncio:
o esculpir das folhas, o burilar dos ramos, 
o canto do canteiro que lavra as cantarias.
Basta abrir rosáceas para que as pedras fiquem vivas
e o tempo abrase um pouco o espírito nos veios, 
o gesto nas matérias. Quando a mão se petrifica
alcança a maior arte, a arte do cantor
que se decanta. Talhar então as rosas
nessa textura branca, lavrar então os frisos
na petrificação: e fica-se a brilhar
da transparência encastoada - palavra
na palavra, a obra à mão, a face na portada."


Carlos Poças Falcão, "Movimento e Repouso", in Arte Nenhuma, Língua Morta/Livraria Snob, 2020, p. 230.

EXISTÊNCIA ESCURA

 



"Já nada mais serei senão um homem:
engano por engano, esse me acalma.
Entretanto visto-me, abro o gavetão,
retiro de uma sombra roupa humana.
Forros, paramentos, a igualdade
do peito das camisas, essa falha
de qualquer filosofia. Aos pés da cama o sol
e terra nos sapatos: assim é o meu quarto,
lençóis ainda quentes, um modo de trocar
de temperatura. Ou a costura exacta
de outra respiração - fios, alinhavos,
pespontos de luz numa existência escura."


Carlos Poças Falcão, "Movimento e Repouso", in Arte Nenhuma, Língua Morta/Livraria Snob, 2020, p. 215.

Saturday, July 13, 2024

JOELHOS

 



" - É a propósito de Diderot que Vossa Reverência diz isso?
- Não, não é a propósito de Diderot. Em especial, não minta a si mesmo. Quem mente a si mesmo e escuta a própria mentira acaba por não discernir a verdade, e perde o respeito por si e pelos outros. Não respeitando ninguém, deixa de amar, e para se ocupar e distrair, à falta de amor, abandona-se às paixões e aos prazeres grosseiros. Vai até à bestialidade dos vícios, e tudo originado pela mentira contínua. O que mente a si mesmo pode ser o primeiro a ultrajar-se. Às vezes sentimos certo deleite em nos insultarmos, não é assim? Um indivíduo sabe que ninguém o ofendeu, mas que ele próprio é que forjou uma ofensa, deturpando o sentido duma palavra, fazendo dum montículo uma montanha. Sabe-o, e no entanto é o primeiro a insultar-se até experimentar com isso grande satisfação; e por aí chega ao verdadeiro ódio... Mas não esteja de joelhos, vá sentar-se. Também essa atitude é falsa..."


Fedor Dostoievski, Os irmãos Karamazov, vol. I, trad. Maria Franco rev. M. J. Meco, Lisboa: Círculo de Leitores, s.d., p. 50. 

Friday, July 12, 2024

BRANDA



"Um movimento de incerteza move a alma:
posição ou velocidade, a voz as perde
por excessiva luz, ou porque é branda
a existência. Não pode ser predito
o movimento e mesmo o seu repouso
parece errar à morte, por decaimento.
Sobram os vestígios, as auras e os rastros, 
sistemas de ilusão. Memórias que desviam 
então todo o fulgor, aparecendo o mundo
sob o poder do tempo, cego de experiências.
Mas há conhecimento quando por exactidão
o exterior da terra visita a pedra oculta."


Carlos Poças Falcão, "Movimento e Repouso", in Arte Nenhuma, Língua Morta/Livraria Snob, 2020, p. 219. 

Thursday, July 11, 2024

BENEDICTUS

 



"Perdida assim a ferramenta, o godo foi, a tremer, à procura do monge Mauro; contou-lhe o prejuízo que causara e penitenciou-se da culpa. Mauro tratou logo de comunicar o sucedido ao servo de Deus Bento. E Bento, homem de Deus, ouvida a narração, foi ao local, pegou da mão do godo no cabo e meteu-o na água. Imediatamente, o ferro veio à tona e se encaixou no cabo. E sem mais, Bento entregou-o ao godo com estas palavras:
- Aí tens! Trabalha, e não estejas triste!"


São Gregório Magno, Vida de S. Bento - II Livro dos Diálogos de S. Gregório, IX, Porto/Mosteiro de São Bento da Vitória: Edições Ora & Labora, 1993, p. 75.

Wednesday, July 10, 2024

NOS DIAS DE CHUVA

 



"Nos dias de chuva não é tão simples ver
a orientação dos cumes, os movimentos altos
que se manifestam numa incerteza estranha.
Banha-nos a água, em sossego, como plantas.
Países inteiros deixam-se molhar, assentem
na precipitação. Mas tudo desconhecem
dos caules que estremecem, das ramificações.
Apenas ficam escuros, trabalham, ficam escuros.
Durante as estações tanta coisa quer morrer!
Um aguaceiro, porém, encanta as folhas,
perfuma as argilas, e um dia é consumado
para exemplo da alma, sem sombras, mas difuso."


Carlos Poças Falcão, "Movimento e Repouso", in Arte Nenhuma, Língua Morta/Livraria Snob, 2020, p. 217.

Monday, July 8, 2024

SOBRE A MESA

 



"Disponho sobre a mesa os objectos. Eles sonham
uma fronte, cantam a voz que os nomeia:
frutos, água, o sal cujo fulgor é semelhante
a uma estrela. Agora é o silêncio convocado
para estas raridades: um traço de luz, uma corrente
soprada sobre o mundo. A mesa assenta
quatro colunas de freixo sobre a terra e as maravilhas
vêm ao meu rosto, sonho aqueles ritmos
talhados, aqueles nomes transformados
num assombro. E a ordem alastra sobre a mesa
como uma fragrância, um alimento.
Há uma força que não desliga a voz,
os elementos, esses objectos que me purificam.
E verto agora o vinho e distribuo o pão
segundo as direcções: esta é uma casa
onde vou dormir e acordar, é uma estância
junto dos segredos. Os números invadem
a tranquilidade com a sua permanência
tranquila. Os olhos pousam. As mãos
não fendem o ar. Porque o mundo está disposto
como uma palavra sagrada."


Carlos Poças Falcão, "Rotações", in Arte Nenhuma, Língua Morta/Livraria Snob, 2020, p. 156.

Sunday, July 7, 2024

CLEMENTE

 


"Todos os caracteres nobres não adquirem, sem doloroso aprendizado, a desconsoladora ciência que se chama cepticismo. Cada ilusão que se desvanece é um golpe fundo no mais sensível da alma, e os conflitos da vida social deixam feridas que só lentamente cicatrizam."


Júlio Dinis, Os Fidalgos da Casa Mourisca, Porto: Livraria Civilização, 1972, p. 271. 

Saturday, July 6, 2024

MORITUROS

 


"Eternidade:
os morituros te saúdam.

Valeu a pena farejar-te
na traça dos livros
e nos chamados instantes inesquecíveis.

Agónico
Em êxtase
em pânico
em paz
o mundo-de-cada-um dilata-se até às lindes
do acabamento perfeito.
Eternidade:
existe a palavra,
deixa-se possuir, na treva tensa.

Incomunicável
o que deciframos de ti
e nem a nós mesmos confessamos.

Teu sorriso não era de fraude.
Não cintilas como é costume dos astros.
Não és responsável pelo que bordam em tua corola
os passageiros da presiganga.

Eternidade,
os morituros te beijaram."


Carlos Drummond de Andrade, 65 Anos de Poesia, 2.ª ed., org. Arnaldo Saraiva, Lisboa: Edições «O Jornal», 1989, p. 188.

Friday, July 5, 2024

ÁRVORES

 



"Há sempre a laranjeira no quintal.
Ali a verde salsa. Além a hortelã.
Ao fundo o limoeiro. E um pardal.
Chove lentamente. Do caleiro
O marulhar da água. Sobre a casa
a sonolência. O gato a ronronar.
Abra-se a janela para me maravilhar.
Ainda sou pequeno. Estou ainda a acumular
tardes como essa, líquidas e verdes.
Passem muitos anos para aqui as inventar."


Carlos Poças Falcão, "O Número Perfeito", in Arte Nenhuma, Língua Morta/Livraria Snob, 2020, p. 49.

Thursday, July 4, 2024

ESMERILHADA

 



"O padre apelou para o fidalgo, que nisto porém decidiu a favor do filho.
Os convidados para o jantar eram todos da mais genuína fidalguia da província. Por muitas daquelas veias andava glóbulo de sangue, que já pertencera a Fuas Roupinho ou a Egas Moniz e que por um mistério fisiológico, que só se dá naquela ermerilhada casta, conseguira transmitir-se inteiro de veias para veias, através de vinte gerações, com o fim providencial de manter inabaláveis os brios da raça."


Júlio Dinis, Os Fidalgos da Casa Mourisca, Porto: Livraria Civilização, 1972, p. 171.

Tuesday, July 2, 2024

NAS CASAS

 




"Hei-de entrar nas casas
também

como o silêncio

A ver os retratos dos mortos
nas paredes
um bombeiro um menino

A ver os monogramas bordados nos lençóis

os vestidos virados
os vestidos tingidos
os diplomas de honra
as redomas

E a caderneta de Socorros Mútuos
e Fúnebres

em atraso"



António Reis, Poemas Quotidianos, Lisboa: Tinta da China, 2017, p. 35.

Monday, July 1, 2024

RANGIDO (para a memória de Ismaïl Kadaré)

 



"A cada rangido da porta, Mark-Alem estremecia até à medula dos ossos.
- Os sonhos do primeiro período de servidão... - disse o arquivista apontando para as estantes correspondentes -, ou, como também se lhes chama, os sonhos da primeira servidão, a fim de os distinguir dos sonhos posteriores, ou seja, do cativeiro profundo. De facto, são muito diferentes uns dos outros. É tal qual como os primeiros amores, que diferem dos seguintes. E daqui até ao fundo desta sala são classificadas as pastas dos grandes delírios."


Ismaïl Kadaré, O Palácio dos Sonhos, trad. Gemeniano Cascais Franco, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1992, p. 122.

CONTEMPLADORES

 



"Jorge sorria ao ouvir o irmão, e tornou placidamente:
- Que homem este! A poesia precisa de ter quem a entenda e quem a faça; e olha que nem sempre os que a entendem a fazem, nem os que a fazem a entendem. Esta pobre gente do campo é uma parte integrante dele; não o contemplam, contemplam-no. Que querias tu? Gostavas talvez mais de que em vez dessa gente indiferente, que trabalha, estivessem por aí os montes, os vales e as ribeiras povoadas de poetas contempladores como tu? Deves confessar que seria um campo bem ridículo esse. Se eu até, para que te diga a verdade, estou persuadido de que não encontraria encantos nos lugares muito visitados, que há por as quatro partes do mundo, onde, a cada momento, apreciadores ingleses, franceses, russos e alemães passeiam, soltando exclamações poliglotas, e onde o nosso entusiasmo nos é prescrito a páginas tantas do Guia do Viajante. O que torna os lavradores poéticos é a inconsciência com que eles o são."



Júlio Dinis, Os Fidalgos da Casa Mourisca, Porto: Livraria Civilização, 1972, p. 21.

Sunday, June 30, 2024

PETRUS

 


"É preciso não tocar demasiado no mundo, na sua superfície resguardada. Deus cobre-nos de sinais, sepulta cidades inteiras que se atarefavam, gosta de silêncio, faz grandes vazios. Não podemos recusar esse manto que obscurece a terra e a protege, essa paciente calafetação que faz cada coisa navegar no meio de outras."


Carlos Poças Falcão, A Nuvem, Guimarães: Pedra Formosa, 2000, p. 37. 

Friday, June 28, 2024

A MONTANHA E O VALE

 



"«Sou alta» - diz a Amizade.
«Sou profundo» - diz o Amor.
E lembram bem, na verdade,
Montanha e vale, ao sol-pôr,
Pois antes que o sol resvale
Ao pélago, onde se banha,
Já dorme em sombras o vale
E há ainda sol na montanha."



João Saraiva, in Líricas Portuguesas - segunda série, seleç. Cabral do Nascimento, Lisboa: Portugália Editora, s.d., p. 59.

Thursday, June 27, 2024

DOMÍNIO

 


"Um dos maiores génios do século XVII, Hobbes, conhecia perfeitamente as leis naturais, embora, por vezes, fosse excessivamente longe. Montesquieu corrigiu o que havia de excessivo no sistema do filósofo inglês e, nas necessidades particulares de cada sociedade, encontrou a origem de todas as coisas. Tornou-nos, assim, confidentes dos legisladores ao descobrir as molas da sua política. Mas os esforços para iludir as leis da Natureza foram gerais e por isso, ainda hoje, as nossas leis, na sua maioria, são meras reminiscências do feudalismo. O desejo de dominar os povos gerou a aliança entre o sacerdócio e o império. Uma tal aliança poderia ter sido vantajosa para os povos se, por meio de uma religião sensata, a sua função se tivesse limitado a mantê-los obedientes à lei. Mas como o que se desejava era submetê-los a um despotismo arbitrário, recorreram a todas as alvitantes espécies de fanatismo. Viu-se então uma teocracia pregar um Deus feroz em vez de um Deus clemente - e o espírito das trevas turvou a claridade."


Giuseppe Gorani, Portugal - A Corte e o País nos anos de 1765 a 1767, trad. Castelo-Branco Chaves, Lisboa: Círculo de Leitores, 1992, p. 61. 

Monday, June 24, 2024

DAQUELE S. JOÃO

 



"Daquele que não tinha inda pisado
A terra com seus pés, quando saltava
As entranhas da mãi, donde alcançava
O Senhor nas da Virgem encarnado;

Daquele de quem Deus foi baptizado,
Daquele que foi voz do que clamava,
Daquele S. João, que tanto amava
A Deos, e que de Deos foi tão amado.

As graças infinitas, os favores,
As forças que lhe deu divino amor,
As novas liberdades, os poderes,

Mal os podem cantar os pecadores:
Basta, que deste só diz o Senhor:
«Que não nasceu maior entre as mulheres»."



Frei Agostinho da Cruz, Sonetos e Elegias, ed. António Gil Rafael, Lisboa: Hiena Editora, 1994, p. 50.

Sunday, June 23, 2024

CONCILIAR


 

"À noite, depois de ter subido para o quarto, corrido a cortina e acendido a luz, experimentou de súbito uma sensação angustiosa de soledade e como que uma espécie de temor daqueles de quem quisera distanciar-se. Estivera até então habituado a achar-se com companhia a todas as horas, pronto a todo o momento a responder a quaisquer perguntas e tendo assegurado um ouvinte sempre que se sentisse com disposição para falar. Agora, pelo contrário, rodeava-o o silêncio, um silêncio tão absoluto que, à força de acostumado a coisa diversa, esperava a cada instante que alguém lhe dirigisse a palavra e parecia-lhe sentir vozes que, todavia, não existiam. A sua mente, que até à data expandira todo o pensamento em frases articuladas em voz alta, começou a congestionar-se de embriões de ideias que germinavam e rompiam o seu invólucro, lutando por abrirem passagem e determinando, assim, um mal-estar que o impedia de conciliar o sono."


August Strindberg, Gente de Hemsö, trad. livre César de Frias, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1972, p. 36. 

DANAIDE

 


"Possa eu tornar-me pedra, 
da pedra areia, da rocha
grão, do diamante brilho.

Endureça eu como concha
de água matricial, minério
de cobre, coração cristalino.

Seja eu alimento imperfeito
de clareza perfeita, mar denso, 
condensado, astral e puro. 

Seja eu mel coagulado
d'orvalho e ouro vivo."


Ana Marques Gastão, Adornos, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 76.