Friday, March 17, 2023

O QUE EXISTE

 



"Tudo o que existe, é sombra misteriosa,
Imagens da ilusão,
Longínquas realidades que se alongam
Em sonhos vãos, formando na distância
O esboço do infinito
Cravejado de pedras cintilantes.


Tudo é mistério e sombra em que me vejo
Perdido, a sós comigo, a debater-me
Entre a vida dum sonho e a realidade morta,
Como se eu fosse mais que o sonho e a realidade,
Um outro ser, além de tudo quanto existe...

E pairo em mim suspenso...
Vogo na escuridão, em pleno Caos..."


Teixeira de Pascoaes, "Cânticos", in Londres. Cantos Indecisos. Cânticos, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 71.

Thursday, March 16, 2023

EMBALAM




"Que murmúrios de luz embalam a paisagem!
O mundo adormeceu...
Paira ainda, no ar, doirada e vaga imagem,
Como recordação do sol que anoiteceu."


Teixeira de Pascoaes, "Cantos Indecisos", in Londres. Cantos Indecisos. Cânticos, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 37.

Wednesday, March 15, 2023

NO FULCRO DE SI

 




"pode ser
que a poesia
seja
um caminho impercorrível
para a Verdade

nesse
as pegadas inscritas
flóculos diurnos
incrustados na tela nocturna
até que um veio do olhar
os colha e volatilize
num rendilhado perfeito
que desenhe
já não a silhueta
mas o ser
no fulcro de si"


Alexandra Soares Rodrigues, (no lugar do título há um vazio), Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2023, p. 20.

Monday, March 13, 2023

CONHECIMENTO

 



"Começamos a saber o que é a solidão quando escutamos o silêncio das coisas. Então compreendemos o segredo enterrado na pedra e revelado na planta, o ritmo oculto ou visível da Natureza toda inteira. O mistério da solidão deriva do facto de para ela não existirem criaturas inanimadas. Cada objecto tem a sua linguagem, que deciframos graças a silêncios incomparáveis."

Emil Cioran, Lágrimas e Santos, trad. Cristina Fernandes. Lisboa: Edições 70, 2022, p. 42.

Sunday, March 12, 2023

OPRESSÃO

 



"Sou como um mar que desvia as suas águas para dar espaço a Deus. O imperialismo divino pressupõe o refluxo do homem.
Oprimido pela solidão da matéria, Ele chorou os oceanos e os mares. Daí o misterioso apelo das extensões marinhas e a tentação de uma imersão definitiva, como desvio para Ele...
Aquele cuja emoção em torno dos céus e dos mares não chegou às lágrimas não frequentou as regiões conturbadas da divindade, onde a solidão é tal que exige uma outra ainda maior."


Emil Cioran, Lágrimas e Santos, trad. Cristina Fernandes. Lisboa: Edições 70, 2022, p. 49.

Saturday, March 11, 2023

DESPERTAR

 


"Não é o conhecimento que nos aproxima dos santos, mas o despertar das lágrimas que dormem no mais profundo de nós. Só então, através delas, acedemos ao conhecimento e compreendemos como se pode chegar a santo depois de se ter sido homem."

 

Emil Cioran, Lágrimas e Santos, trad. Cristina Fernandes. Lisboa: Edições 70, 2022, p. 21. 

Friday, March 10, 2023

ANIVERSÁRIO

 


"E o movimento dentro das rosas, vê:
traços de tão pequeno ângulo de desvio,
que ficaram invisíveis, os seus raios
não se espalharam direito ao universo."


Rainer Maria Rilke, Novos Poemas, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Assírio & Alvim, 2023, p. 125.

Wednesday, March 8, 2023

ALMAS

 


"Certo irmão perguntou ao Abade Aquiles: «De que forma podem os demónios tirar partido de nós?». E ele respondeu-lhe: «Graças à nossa vontade». E continuou: «Os cedros do Líbano disseram um dia: "A nós que somos tão fortes e tão altos basta um pedaço de ferro para nos abater". Pois foi através da madeira que os homens fabricaram os machados com os quais abatem as árvores. As árvores são as almas, o ferro e o machado o demónio, e o cabo é a nossa vontade. É esta que nos leva à queda.»"

Ditos e Feitos dos Padres do Deserto, trad. Armando Silva Carvalho, Lisboa: Assírio & Alvim, 2003, p. 83.

Tuesday, March 7, 2023

GATO PRETO

 



"Um fantasma ainda é como um lugar,
onde o teu olhar embate como um som;
mas aqui, nesta pele preta de afagar,
dissolve-se a tua mais forte visão:

como um doente que com acessos, quando está
no auge da sua fúria, bate os pés no escuro e
de repente se achasse num acolchoado seguro
de uma cela, onde parasse e se evaporasse de lá.

Todos os olhares que sobre ele pousaram
parece dentro de si fingir,
para sobre eles ameaçador e indisposto, porque ousaram,
se fechar num arrepio e com eles dormir.
Mas, como que desperto, volta subitamente
para ti o rosto e olha-te directamente:
e então encontras teu olhar no âmbar, sem folhos,
sem contar: fechado recinto
como um insecto extinto."


Rainer Maria Rilke, Novos Poemas, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Assírio & Alvim, 2023, p. 189.

Monday, March 6, 2023

VERDADE



"Naquilo que não confere brilho
há uma porta,
partindo
das manchas encobridoras, folheando
as completamente encharcadas de verdade."


Paul Celan, "Poemas do Espólio", in Os Poemas, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Assírio & Alvim, 2022, p. 1079.

Sunday, March 5, 2023

MERIDIANOS

 



"Meridianos, semi-
- círculos - tu tens de
os completar, entre
os outros, os carentes de olhos de coração, os
sóis das almas, sob os quais
toda a distância permanece
igualmente próxima, com
o seu vermelho-de-ninguém Nunca e
Sempre"


Paul Celan, "Poemas do Espólio", in Os Poemas, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Assírio & Alvim, 2022, p. 861.

Saturday, March 4, 2023

OFERENDA

 



"Oh, como floresce meu corpo em cada veia a eito,
mais perfumado desde que te conheci, por sinal;
vê, avanço mais elegante e direito,
e tu apenas esperas -: quem és tu afinal?

Vê: sinto que, ao me afastar,
o antigo, folha a folha, me está a falhar.
Apenas teu sorriso se encontra com estrelas sem fim
por cima de ti e em breve também por cima de mim.

A tudo o que dos meus anos infantis tenho em mente
e ainda brilha sem nome tal como água corrente,
quero dar o teu nome no altar,
ateado por teu cabelo ardente
e com teus seios levemente a coroar."



Rainer Maria Rilke, Novos Poemas, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Assírio & Alvim, 2023, p. 31.

Friday, March 3, 2023

PORTA

 


"Disse o Abade Pastor: «O mal nunca acabou com o mal. Se alguém praticar contra ti algo de mau, pratica tu o bem, de modo a destruíres a tua maldade com a tua boa acção.»"

Ditos e Feitos dos Padres do Deserto, trad. Armando Silva Carvalho, Lisboa: Assírio & Alvim, 2003, p. 103.

Wednesday, March 1, 2023

PREÂMBULO

 



"Desse rosto, no berço,
aparece um pássaro furtivo
que a envolve em luz verde
e pesada - a luz negra se rasga, e deixa ver um pomar
cheio de frutos,
e aves ligeiras como migratórias."


Maria Gabriela Llansol, A Restante Vida, Lisboa: Relógio d' Água, 2001, p. 87.

Tuesday, February 28, 2023

ESCAPATÓRIA

 



"Expulso de ti próprio, não tens escapatória de ti,
este é o jogo
em que os pinheiros, iluminados pelo sol,
dão a sombra,
na qual penetram as barbas."


Paul Celan, "Poemas do Espólio", in Os Poemas, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Assírio & Alvim, 2022, p. 1036. 

Sunday, February 26, 2023

VIVER COMO OS OUTROS

 



"Durante longos períodos quase nem sequer me lembrava de Deus, e vivia como os outros; ou só de longe e longe me lembrava de Deus, fugidiamente. O exercício da arte, o amor da cultura, o sentimento da natureza e a sensibilidade aos seus belos espectáculos - bastariam então a tornar-me pelo menos feliz como qualquer outro, dado que ninguém é totalmente feliz. Quero dizer: como qualquer outro a quem não atormente qualquer drama religioso."

José Régio, Confissões dum Homem Religioso, Porto: Brasília Editora, 1971, p. 129.

Saturday, February 25, 2023

OS DIREITOS DO DESEJO


 

" - Isso não é verdade. Ainda que sejas aquilo que afirmas, um dinossauro moralista, há sempre curiosidade em ouvir um dinossauro a falar. Eu, pelo menos, tenho curiosidade. O que tens tu a dizer em tua defesa? Ora vamos lá ouvir.
Ele hesita. Será que Lucy quer mesmo que ele exiba mais das suas intimidades?
- A minha defesa apoia-se nos direitos do desejo - explica. - No desejo que faz estremecer até os pequenos pássaros."


J. M. Coetzee, Desgraça, trad. José Remelhe, (sic) idea y creación editorial, 2008, p. 82.

Friday, February 24, 2023

EQUILÍBRIO

 



"Tu equilibras, assim escreveu
a sem-peso, que
ajudou quando 
me despiram, me 
roubaram
o que vivi, - tu equilibras, escreveu
a que
vivenciou, que recebeu na mão
a armadilha, 
que a adorna, tu
equilibras
a balança.

Eu não a equilibro. Quando de futuro
sob as ruínas
chegar à balança, isso
já será muito.

Não fales de balanças, fala
de ti própria: depois sobe 
o fumo os seus caminhos para cima. Nunca
foi
o teu fumo, estás a ouvir. Nunca
foi 
o teu fumo, estás a ouvir. Cala-te, 
enche os pulmões de ar, deixa-me 
os mortos."


Paul Celan, "Poemas do Espólio", in Os Poemas, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Assírio & Alvim, 2022, p. 863. 

Thursday, February 23, 2023

IMMERSIO

 



"Junto de vós, ó eternos
cânticos do nunca, bem lá
no fundo, para onde
a palavra amada
me
precedeu, nadando adentro
da palavra ceifada,

aí

estou deitado, com as
algas
de alma cheias de nomes
à minha volta -: alguém
por baptizar, alguém
mergulhado."


Paul Celan, "Poemas do Espólio", in Os Poemas, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Assírio & Alvim, 2022, p. 837.

Wednesday, February 22, 2023

CINZAS

 



"Visão acromática, atrás das cinzas,
na sacra palavra sem sentido,
avança o que perdeu a rima,
de leve manto cerebral sobre os ombros,

o canal auditivo, ecoando
reticulares vogais,
desmonta a púrpura da visão,
monta-a."


Paul Celan, "Feixes de Luz Solar", in Os Poemas, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Assírio & Alvim, 2022, p. 463.