Saturday, June 22, 2024

PRIMEIRO PLANO

 


"Convém, com efeito, distinguir entre a beleza do ideal e o sublime. No ideal, a interioridade penetra de de tal modo a realidade, que há, entre uma e outra, perfeita correspondência na qual reside, precisamente, a razão da sua interpenetração. No sublime, pelo contrário, o exterior em que a substância está incarnada, tem um lugar inferior, desempenha um papel subordinado à substância; esta inferioridade e subordinação são a única condição requerida para que Deus, desprovido de forma e cuja essência não permite que se exprima em nada de profano e de finito, possa encontrar uma expressão visível numa obra de arte. No sublime, a significação aparece em primeiro plano e é tal a sua independência que todo o exterior fica, perante ela, num estado de total subordinação, entendendo por isto que, em vez de implicar e revelar o interior, só o representa ultrapassando-o."


Hegel, Estética - A Arte Simbólica, trad. Orlando Vitorino, 2.ª ed., Lisboa: Guimarães Editores, 1970, p. 132. 

Friday, June 21, 2024

OBEDECE

 




"Poeta meu, obedece!
Às tuas ordens, Senhor.
Toma: estas são as mil canseiras que te quero hoje impor.
Alegremente as acolho, Senhor, pois tu sabes a medida das minhas
                                        [forças e conheces o que é melhor para mim.
Não, antes te concedo um dia todo de levezas e esquecimentos.
Oh, Senhor, que eu consiga vencer tamanha prova!"

Carlos Poças Falcão, A Nuvem, Guimarães: Pedra Formosa, 2000, p. 95. 

Thursday, June 20, 2024

BARROCO (para a memória de Donald Sutherland)

 


"O excesso, mesmo enquanto superação de um limite e de um confim, é decerto mais desestabilizador. De resto, qualquer acção, obra ou indivíduo excessivo quer pôr em causa uma ordem qualquer, talvez destruí-la, ou construir outra nova. E, por outro lado, qualquer sociedade ou sistema de ideias acusa de excesso aquele que não pode nem quer absorver. Toda a ordem produz um auto-isolamento e define, banindo-o, todo o excesso. O inimigo torna-se inimigo cultural, «bárbaro», grande invenção da civilização clássica."


Omar Calabrese, A Idade Neobarroca, trad. Carmen de Carvalho e Artur Morão, Lisboa: Edições 70, 1988, p. 72. 

MASSA

 


"Noutros termos: graças à arquitectura, o inorgânico munto exterior é sujeito a uma purificação, é ordenado segundo as regras da simetria, aproxima-se do espírito, e o templo de Deus, a casa da sua comunidade, ergue-se acabada. Em seguida, Deus entra no templo, rasgando e penetrando a massa inerte com o relâmpago da individualidade, e a forma infinita, já não apenas simétrica, do espírito apodera-se da materialidade do templo e torna-a digna do seu verdadeiro destino."


Hegel, Estética - A Ideia e o Ideal, vol. I, trad. Orlando Vitorino, Lisboa: Guimarães Editores, 1952, p. 183. 

Wednesday, June 19, 2024

INUMANO

 


"Se tocares no inumano para ele ressoar
fazendo-lhe a pergunta
não te deixes seduzir pelo canto que ele emite
pois todo desafina e a sua voz não é de paz

as circunvoluções são o esconderijo grato
dos que o coração expulsa
ir do coração ao cérebro parece uma subida
mas é um descentramento

quando hordas de ideias de gog e de magog
devastam os caminhos para devassar o centro
encontram só a cerne de um coração sangrento

entretanto a inteligência é um país harmonioso
e cheio de coragem
aí nenhuma voz espera pelo fruto - mas ele sempre vem
bastava um grão de pó para haver um universo
e o coração sagrado no peito soberano
pede o canto aos homens e aos pássaros o voo."



Carlos Poças Falcão, A Nuvem, Guimarães: Pedra Formosa, 2000, p. 73.

AS RELAÇÕES AMIGÁVEIS.

 


"A ideia possui, hoje, uma existência mais profunda que já se não presta à expressão sensível: é o conteúdo da nossa religião e da nossa cultura. Hoje, a arte apresenta um aspecto diferente do que teve em épocas anteriores. E esta ideia mais profunda, cujo ponto externo é representado pelo cristianismo, escapa inteiramente à expressão sensível. Nada tem de comum com o mundo da sensibilidade e em nada afecta as relações amigáveis. Na hierarquia dos meios que servem para exprimir o absoluto, a religião e a cultura provindas da razão, ocupam o grau mais elevado, muito superior ao da arte."


Hegel, Estética - A Ideia e o Ideal, vol. I, trad. Orlando Vitorino, Lisboa: Guimarães Editores, 1952, p. 47.   

Monday, June 17, 2024

O DEUS

 




"Silencioso, último, sem préstimo, obscuro
assim anda entre nós. Atravessa as ruas
vai no movimento, o mundo é tão brilhante

que na verdade cega. Assim recolhe as provas
acerca de não vermos. Buscamos só imagens
que desprendam mais imagens, leques de escondermos
a nossa própria face - e assim anda entre nós
guardando o que perdemos, o que recusamos.

Passa entre ruídos, pára em velocidades
confirma a inversão das luzes e dos séculos.
Silencioso, último, sem préstimo, obscuro
aí vem, com seu sorriso, a face arcaica: o Deus."


Carlos Poças Falcão, A Nuvem, Guimarães: Pedra Formosa, 2000, p. 59.

Sunday, June 16, 2024

ÉCLOGA


 

"Nestes dias de lançar a calda bordalesa às laranjeiras
é bom que vás até ao fundo dos quintais
à estrema dos campos onde sem perturbação
teceram seus silêncios e sussurros deuses rústicos.
É possível que haja ninhos sobre um musgo muito espesso
porque as tardes aí passaram feitas ao correr da aragem
por amenos ócios vivos e cheirosos tons de mortos. 

Um homem quando surge é um animal enorme
e de algum modo só as pedras ficam 
paradas de terror e tudo o resto foge
- aves divindades animaizinhos frutos.
É o próprio lugar que todo se esquiva
quando o homem se aproxima
- e por isso a solidão de quem visita os muros
a sua tristeza de não se achar em casa
e o esforço de muito nomear e a violência 
de forçar uma presença mexendo no repouso
movendo o intocado perdendo para sempre
Morada e Companhia. 

Com o coração ferido o seu tamanho aumenta
e todo o ser deserta com pavor à sua vinda
- aves divindades animaizinhos frutos
E até as pedras não fugindo são tropeços
e as árvores tão chegadas obstáculos. 

As laranjeiras recebem entretanto a sua calda
abrirão mais tarde em flor.
- Oh!, vai ao fundo dos quintais, à estrema dos campos
e demora-te, demora-te
senta-te e levanta-te mas sempre devagar
imita um grande herbívoro pois ele não assusta
aves divindades animaizinhos frutos
e sobretudo espera 
chama com os olhos aceita com os ouvidos
vive estes aromas e pólenes e zumbidos
tu que nada vês sabe que és visto
até ao coração. 

Se te alegrares sem teres porquê  verás
em breve as divindades a regressar das matas
afastando as sebes repovoando os muros
trazendo atrás de si os cantos e os voos
entre as laranjeiras agora já caiadas
 - e o sopro da passagem
num cintilar de teias no interior de arbustos."


Carlos Poças Falcão, A Nuvem, Guimarães: Pedra Formosa, 2000, pp. 20-21. 

Saturday, June 15, 2024

BEM-AVENTURADOS

 




"Bem-Aventurados os do Sono Profundo.
Na vigília os perdemos, sob a luz nos dissipamos
nossas forças abrem feridas pelo choque das vontades
em fuga e labirinto vão os túneis enredados
no que o tempo faz brilhar e o mesmo tempo apaga.

Sob estas galerias as ciências tumultuam
e povos confusos, a golpes, por rupturas
de cornos desejantes seguem os deuses mutantes.

Bem-aventurados os do Sono Profundo.
Mas em nós os primogénitos são mortos à nascença
perseguidos pelo rei que perverte o nosso peito.
E com velhos crimes começamos novos tempos."



Carlos Poças Falcão, A Nuvem, Guimarães: Pedra Formosa, 2000, p. 47.

Thursday, June 13, 2024

ANGÚSTIA

 


"E o Santo, vindo a ela, consolou-a e legitimamente se escusou da culpa que lhe era atribuída. E depois foi ter com o moço que cortara o pé, e fazendo sua oração devotamente e com angústia, agarrou no pé decepado, ajuntou-o à perna, sobre ele fez o sinal da Cruz, e tacteando com suas benditas mãos como se estivera a soldar ou a ungir a ferida, logo o pé ficou tão bem pegado como antes fora."


Livro dos Milagres ou Florinhas de Santo António de Lisboa, 2.ª ed, trad. Frei Fernando Félix Lopes, OFM, Braga: Editorial Franciscana, 2019, XXIX, p. 82. 

Wednesday, June 12, 2024

ORDEM DO INTENSO

 



"Quem ama é inquieto, um nostálgico do esforço. Na convocação da lonjura, o belo não entra em declínio. Amor e Poesia são da ordem do intenso."


Ana Marques Gastão, Lápis Mínimo, Lisboa: Oceanos, 2008, p. 44.

Tuesday, June 11, 2024

DESMESURA

 


"As palavras mais serenas podem ser o esboço de um drama. O martírio da nostalgia está em cada poente. Dar-te a mão, sobrando o corpo, contém o já transposto. Sustém a ave desmesurada."


Ana Marques Gastão, Lápis Mínimo, Lisboa: Oceanos, 2008, p. 49. 

Monday, June 10, 2024

VIVER

 




"Vivi: que me ficou da vida agora
Que baixo à sepultura? Não remorsos,
Vergonhas não. Para a corrida senda
Sem pejo os olhos de volver me é dado.
E tranquilo direi: vivi; - tranquilo
Direi: morro. Não dormem no jazigo
Os ossos do malvado? Não: contínuo,
Na inquieta campa, estão rangendo
Ao som das maldições, deixa de crimes,
Legado ímpio dos maus. Eu sossegado
Na terra de meus pais hei-de encostar-me..."


Almeida Garrett, Camões, ed. Teresa de Sousa Almeida, Lisboa: Editorial Comunicação, 1986, pp. 190-191.

Sunday, June 9, 2024

QUERER



" Cada cidade acrescentou a minha fuga
E o desvio aproximou-me do perigo.
Além do que mereço, além, agora
Queria ser deserto e trabalhar nos campos
Abençoando a fome enquanto ceifo o trigo."


Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 165. 

Saturday, June 8, 2024

AMANTE

 


"amante verdadeiro
é uma árvore

imóvel
inelutável

raízes
desprendendo
os frutos

soltando
para que voem
em sementes
no âmbar
oblíquo
da aurora"


Alexandra Soares Rodrigues, retábulo das perguntas, Vila Nova de Famalicão: Húmus, 2024, p. 144.

Friday, June 7, 2024

LOUVARÁ

 




"Do Lima, donde vim já despedido,
Cavar cá nesta serra a sepultura,
Não sinto que louvor possa a brandura,
Sem me sentir turbar do meu sentido.

A lã de que me vem andar vestido,
Torcendo em várias partes a costura,
Os pés que nus se dão à pedra dura,
Nem me deixam ouvir, nem ser ouvido.

O povo cujo aplauso recebeste,
Vendo teu brando Lima dedicado
A príncipe real, claro, excelente,

Louvará muito mais quando escreveste.
De mim, meu caro irmão, menos louvado,
Louva comigo a Deos eternamente."



Frei Agostinho da Cruz, Sonetos e Elegias, ed. António Gil Rafael, Lisboa: Hiena Editora, 1994, p. 151.

Wednesday, June 5, 2024

SUCESSÃO

 


"O nosso pensamento, à semelhança de um vaso metálico, ressoa por muito tempo, quando, embora de leve, percutido; como ondas sonoras, as nossas recordações, movidas por uma palavra, por um som, por uma flor, por um perfume, sucedem-se, dilatam-se cada vez mais vastas, cada vez mais suaves, até se desvanecerem numa confusa imagem do passado, de formas indefinidas e vagas, mas por isso mesmo mais bela, mais inebriante ainda, num quase sonho, delicioso e grato como um murmúrio que termina o som, como o crepúsculo em que desmaia o dia, como o Outono que sucede à estação dos florescentes verdores."


Júlio Dinis, "As apreensões de uma mãe", in Serões da Província, Lisboa: Círculo de Leitores, 1992, p. 15. 

Monday, June 3, 2024

TURIBULAÇÃO / TRIBULAÇÃO

 



"ouro para o rei
incenso para a turibulação do espírito
mirra para o refresco do morto."


Alexandra Soares Rodrigues, retábulo das perguntas, Vila Nova de Famalicão: Húmus, 2024, p. 115.

Sunday, June 2, 2024

SUMPTUOSO ROSTO


 


"Queria ver por dentro das artérias
o sabor do teu sumptuoso rosto
que não vejo; ouvir a brancura
aguda d'uns olhos sanguíneos
que me não vêem; provar
a espaços d' um tenebroso corpo,
dúbio de impaciência, ansioso
e incontido, ramo por nós ardido
mas que me alumia em abundância
num movimento de exalação acre.

Insones, seríamos único silêncio,
corpo liso de alfinete e pensar
analógico, texto, de degrau e dedos
vestidos de brasa e medo, como se,
terrífica, a memória se tornasse
mosto que dói de cima para baixo.
Poisada sobre o destino de três
fendas de cratera, cerebrais e ocas,
assim a morte fosse uma janela
e nós uma constelação infinita."


Ana Marques Gastão, Adornos, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 77.

Saturday, June 1, 2024

O QUE OUÇO

 



"O que ouço não é meu, 
o que é meu não é daqui, 
o que sinto faz-me ser, 
ergue-me d'um chão morto.

O que escuto ignoro, 
o que almejo não alcanço, 
sou apenas este centro
de tronos sonoros, 
nexo entre a matéria
e a figura, carência
de em ti vir a ser
possibilidade absoluta."


Ana Marques Gastão, Adornos, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 49.